Sexta, 23 de Fevereiro de 2018

FAMÍLIA

Pesadelo não, terror noturno

27 OUT 2010Por SCHEILA CANTO00h:00

De repente seu filho acorda gritando e aos prantos... Você leva aquele susto corre ao quarto da criança e ela está tremendo, apavorada, não diz nada, mas age como se tivesse sendo atacada por um monstro terrível... Até os cinco anos eram constantes os pesadelos de Gustavo. Em algumas noites uma ou duas horas após pegar no sono, despertava com grito de desespero. “Parecia algo proposital, truque para que eu não saísse do quarto ou ele viesse para o meu. Mas seu estado geral era de tanto pavor, que não havia como acreditar que ele realmente estava aterrorizado!”, relata a mãe de Gustavo.

De acordo com a psicóloga Maria Cristina Capobianco, na verdade este comportamento é descrito como terror noturno, classificado como severo distúrbio do sono, algo que vai além do pesadelo. O transtorno atinge cerca de 3% das crianças, é mais comum entre os meninos e têm seu pico durante o período entre três e cinco anos.

A diferença entre o terror noturno e o pesadelo é que no pesadelo a criança acorda e consegue relatar o que sonhou. Já no terror noturno não, a criança vai chorar, gritar, mas não acorda! Por isso ele/ela vai ignorar totalmente suas tentativas de acalmá-lo. A criança não se lembra de nada no dia seguinte, compara Maria Cristina.

Segundo a psicóloga, as causas ainda são desconhecidas, porém, fatores psicológicos podem desencadear o terror noturno, como por exemplo mudanças, um evento traumático, separação dos pais, entrada na escola e outros. Na maioria dos casos o distúrbio desaparece sem nenhum tratamento, quando a criança cresce. Mas, pode persistir ou aparecer na idade adulta.

Diagnóstico
Pode ser caracterizado um episódio de terror noturno a criança que acorda gritando, gesticulando e chorando. Ela se agita pedindo ajuda aos pais na tentativa de se livrar das fantasias que o atacam, explica Maria Cristina.

A característica essencial do Transtorno de Terror Noturno é a ocorrência repetida de terror durante o sono, representada por um despertar repentino, geralmente começando com um grito de pânico. Geralmente o terror noturno inicia-se após duas ou três horas de sono e dura cerca de 1 a 10 minutos. Os episódios são acompanhados por excitação e manifestações comportamentais de intenso medo.

Maria Cristina explica que quando os pais acodem a criança percebem que há uma demora para que ela tenha noção clara do que está acontecendo. Meio dormindo pode não reconhecer de pronto quem está ao seu lado pode dizer coisas incompreensíveis. Quando acorda totalmente, vendo os pais ao seu lado, tranquiliza-se.

Causas
“Em crianças expostas a situações violentas, perdas de pessoas significativas, abuso sexual, acidentes, pode ocorrer uma intensificação destes pesadelos como um sinal ou sintoma que algo dessa experiência foi traumático e precisa ser melhor processado, são uma forma de lidar com as situações angustiantes, com as mudanças e transformações na vida”, afirma a psicóloga.

O terror noturno não é necessariamente um sinal de patologia e pode ocorrer por diversos motivos, como uma forma de reagir a: uma mudança de escola, a separação dos pais, à perda de um bicho de estimação, a conflitos com irmãos, as dores do crescimento, entre outros fatores, afirma.

“Os sonhos e os pesadelos a pesar de trazer sofrimento e angústia, trazem informações preciosas daquilo que está perturbando a criança, às vezes o terror que permanece depois de uma noite de pesadelo pode acentuar na criança sentimentos de insegurança e perda da autoconfiança durante vários dias seguidos. Elas podem adquirir insônia, agravar o medo do escuro, de dormir e sonhar”, ressalta a psicóloga.

Como lidar com o problema
Há várias formas de ajudar a criança a restaurar sua capacidade de dormir e perder sua fobia de sonhar se resgatamos e aproveitamos o potencial terapêutico que os sonhos carregam dissolvendo o feitiço deixado pelo sonho. O sonho traz através da simbologia uma luz que aponta para aquilo que no dia a dia está afligindo a criança e ela não pode expressar. Não é necessário que a criança viva sozinha o peso da lembrança deixada por um fantasma sem forma ou o pânico de ser engolida pelo lobo com caninos afiados.

Se os pais estão dispostos a ouvir estes relatos sem apavorar-se ou sem desvalorizá-los, estarão escutando o inconsciente da criança que traz algum apelo de ajuda. Para ajudar a criança a lidar com estes pesadelos, os pais podem utilizar recursos como a representação de papeis, como se fossem os personagens de uma história. A criança pode ser o monstro, os pais outra figura, e podem inventar um novo desenlace para a trama. Devolver a criança seus poderes mágicos para lutar contra estes bichos assustadores e ajudá-la a encontrar meios criativos para vencê-los. “A tarefa dos pais é a de reassegurar a criança e estimulá-la a explorar seus próprios recursos criativos para enfrentar os dilemas, desta forma reforçarão sua habilidade para brincar com as imagens, orienta Maria Cristina.

Em alguns casos, quando as tentativas dos pais de reassegurar a criança não dão certo, a participação de um psicólogo é interessante, pois pode impedir que a criança se sinta ameaçada e fragilizada pelos conflitos desta fase. Os sonhos e pesadelos também podem apontar para dificuldades na dinâmica familiar.

Os estudos demonstram que quando as crianças crescem, os pesadelos perdem sua intensidade e sua frequência na medida em que elas passam a dominar seus medos. Em momentos de estresse ou de crise familiar os pesadelos podem se tornar mais frequentes como meio de avisar que sua ansiedade está transbordando e que se sentem pouco seguros. Não é necessário que os pais interpretem os sonhos, ouvi-los, demonstrar empatia, ficar juntos e abraçá-los já são passos terapêuticos fundamentais, conclui.
Outras dúvidas podem ser enviadas à psicóloga pelo e-mail: suranicapobianco@superig.com.br

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