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Disputa

Peruanos vão às urnas para escolher novo presidente

10 ABR 2011Por IG, BBC e Ansa15h:28

Quase 20 milhões de peruanos devem ir às urnas neste domingo para participar de eleições gerais em que se definirão o futuro presidente do país e a composição do novo Parlamento.

A votação é considerada uma das mais disputadas da história recente do Peru. Na corrida presidencial, o candidato nacionalista Ollanta Humala aparece como o favorito para ir ao segundo turno. A segunda vaga está sendo disputada voto a voto, em um virtual empate técnico entre os candidatos conservadores Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, o ex-presidente Alejandro Toledo (2001-2006), e seu ex-ministro de Economia Pedro Pablo Kuczynski.

O atual presidente, Alan García, não declarou apoio a nenhum candidato, mas ressaltou que somente "um" deles não dará continuidade a seu governo, em clara referência a Ollanta Humala, que promete incrementar a presença do Estado na economia do país e propõe a nacionalização de setores e recursos considerados estratégicos, como o petróleo e gás.

Em seu último comício, Humala pediu à população "votar sem medo" de mudanças. Apesar de ter moderado seu discurso e buscado um distanciamento em relação ao presidente venezuelano, Hugo Chávez, a versão Humala "light" ainda encontra rejeição em parte do eleitorado.

Os demais candidatos, por sua vez, prometem ser, cada um, "a única alternativa" para impedir a chegada do nacionalista Humala à Presidência.

Dívida social

Quem sair vitorioso do processo eleitoral que começa neste domingo herdará um país com uma economia relativamente estável, mas com uma acentuada dívida social.

A economia do Peru cresceu a uma média de 7% nos últimos anos, o maior crescimento registrado na região, graças à alta dos preços dos minerais, uma das bases de sua economia. García fortaleceu a tendência econômica primária-exportadora, com uma política voltada à ampliação do livre comércio e de atração a investimentos estrangeiros.

Por outro lado, o crescimento da economia não trouxe uma redução da brecha social entre ricos e pobres. Cerca de um terço dos cerca de 30 milhões de peruanos vive na pobreza. No campo, esse índice supera 60% da população.

"A desigualdade social aumentou. A maior parte da população vê que há geração de riquezas, mas que não chegam até elas", afirmou à BBC Brasil o sociólogo David Sulmont, professor da Universidade Católica do Peru. "A economia cresceu mais do que o bem-estar da população."

Para Lorena Alcazar, do Grupo de Análise para o Desenvolvimento (GRADE), o principal desafio do novo presidente será diminuir a brecha social que, a seu ver, gera tensão, em especial nas classes populares. "O Estado precisa desenvolver políticas sociais e reformas de primeira e segunda geração para superar as desigualdades. Isso significa gastar mais e administrar melhor esses recursos", afirmou.

O analista Fernando Tuesta, diretor do Instituto de Opinião Pública (IOP) da Universidade Católica do Peru, questiona, ainda, a sustentabilidade do atual modelo econômico, que tem sido elogiado pelos principais candidatos presidenciais.

Para Tuesta, García incrementou a dependência da economia peruana, no lugar de apostar na diversificação. "Se, com essa dívida social acumulada, entrarmos em um novo período no qual os preços (das matérias-primas) deixariam de ser favoráveis, a situação poderia se complicar."

Interesses brasileiros

As empreiteiras brasileiras veem o Peru como um polo importante de investimentos. Brasil e Peru assinaram acordos para a construção de seis hidrelétricas, cujo investimento total pode alcançar US$ 16 bilhões.

Outro grande projeto de infraestrutura que envolve os dois países é a construção da rodovia interoceânica, que permitirá ao Brasil uma saída ao Pacífico. Essa obra, que já teve um ramo inaugurado no ano passado, é executada pela Odebrecht, uma das empresas brasileiras com maior presença no país andino.

Durante a campanha, as empresas também evidenciaram suas preferências e apareceram como uma das principais financiadoras da campanha do ex-presidente Alejandro Toledo. As empreiteiras Queiroz Galvão, Galvão Engenharia e Camargo Correa doaram pouco mais de US$ 300 mil à campanha de Toledo.

"O Brasil quer se consolidar cada vez mais como líder regional, não só no político, como também na economia. A expansão das empresas brasileiras pela região e no Peru é um sinal disso", afirmou David Sulmont, da Universidade Católica do Peru.

De acordo com pesquisas e especialistas, nenhum candidato presidencial conseguirá obter apoio da maioria das 130 cadeiras na composição do novo Parlamento, o que deve obrigar o vencedor a formar um governo de coalizão. Analistas veem como uma aliança natural a coalizão dos partidos de centro e direita. Caso Humala confirme seu favoritismo, terá de negociar com essas correntes políticas, mesmo antes do segundo turno, e flexibilizar parte de seu projeto de governo.

De acordo com as pesquisas de intenção de voto, estão na frente parlamentares do partido Peru Possível, de Toledo, e o Força 2011, de Keiko Fujimori, com percentuais entre 18 e 20%. A aliança Ganha Peru, de Humala, conseguiria a terceira votação parlamentar em importância (17%).

Seguem-se, no quarto lugar, a Aliança para a Grande Mudança, de Kuczynski, seguido do Solidariedade Nacional (do ex-prefeito de Lima, Luis Castañeda) e do governista oficialista APRA.

Cerca de 150 observadores internacionais, incluindo a Organização de Estados Americanos (OEA), acompanharão as eleições peruanas. O voto no Peru é obrigatório.

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