Segunda, 19 de Fevereiro de 2018

PORTO DA MANGA

Período de pausa na pesca é de ensino para pescadores

6 DEZ 2010Por DIÁRIO ONLINE10h:21

A quase 80 quilômetros de distância do centro urbano de Corumbá, um grupo de homens e mulheres está descobrindo o prazer de ler e escrever. Formado por nove alunos, moradores da região do Porto da Manga, o grupo tem em comum, além do local onde mora em meio ao paraíso ecológico do Pantanal, a profissão (pescadores) e a vontade de deixar para trás uma vida em que letras e números não têm muito significado.

A oportunidade surgiu através do Programa Brasil Alfabetizado, do Governo Federal que, em parceria com a Prefeitura Municipal de Corumbá, possibilitou que a alfabetização fosse levada para pessoas que não tiveram a chance de frequentar uma sala de aula.

Uma delas é Fransquelino Catarino de Souza que se orgulha em dizer que é "nascido e criado" no Porto da Manga onde formou família com esposa e nove filhos.

"É a primeira vez que frequento uma escola justamente porque no meu tempo não tinha aula aqui", conta o homem que na sua humildade diz: "A gente voltou a estudar porque gostou da escola, a gente não sabe nada, é analfabeto."

Desde outubro em sala de aula, Fransquelino já afirma com segurança que sabe reconhecer todas as letras e está agora aprendendo a juntá-las para formar as palavras. O segredo da rápida evolução, segundo ele, é uma qualidade que devemos ter em tudo o que fazemos na vida. "Tem que prestar atenção", ensina.

O empenho na escola também é levado para casa onde a filha caçula Francilene, de 07 anos, é sua maior incentivadora. "Eu peço para a menorzinha, é essa que mais ‘caduca' comigo. Ela sempre diz que eu tenho que insistir para aprender alguma coisa e ela me ensina mais do que todo mundo lá em casa. Francilene sabe ler e estuda aqui, é uma maravilha, ela é espertinha", diz orgulhoso ao Diário o pai estudante que já vislumbra outro futuro.

"Chega muita gente querendo comprar peixe, e a gente não sabe o quilo do peixe e tem que pedir pro filho fazer a conta. Chega um turista pra comprar o peixe e a gente não sabe. A gente sabendo já fica mais fácil, pode negociar", reforça.

Com 54 anos, esta é a segunda vez que Jesuíno de Arruda frequenta a escola e, agora, pretende de fato aprender todo o alfabeto e as possibilidades que ele oferece.

"Estou gostando, aprendi mais um pouquinho. Eu já sabia, não é assim que eu já 'sabiiiia', mas pra 'borrar' o nome mais ou menos dava. Eu escrevo ‘malemá' meu nome, mas espero ficar bem mesmo, lendo e escrevendo tudo", conta o pescador que confessa que a experiência de entrar numa sala de aula ainda trazia certo receio. "Quando a gente chega, entra com medo, mas depois com a professora ali a gente vai se sentindo mais em casa", confessa o aluno que sabe muito bem das vantagens de ser alguém alfabetizado.

"Eu quero aprender a ler e escrever pra dizer quero isso, não quero aquilo, porque só falar, às vezes, não adianta, escrevendo vira um documento", explica ao comentar que pretende seguir com os estudos, caso seja oferecido o ensino para adultos na região.

A coordenadora do Programa Brasil Alfabetizado em Corumbá, Neide Leonis Pereira, esclarece que o processo de alfabetização é muito mais do que identificar e reconhecer letras e palavras.

"Alfabetizar é ir além de juntar letras, escrever o próprio nome porque a gente sabe que o aluno que pensa que escreve o nome está alfabetizado. É preciso ter conhecimento de mundo, social, ter relação com esse mundo que ele vive, conhecer seus direitos, seus deveres e a partir da educação, ele vai adquirir esse conhecimento de cultura", avalia.

No Porto da Manga, o início das aulas do Brasil Alfabetizado coincidiu com o começo da piracema, período quando a pesca fica suspensa para a reprodução dos estoques pesqueiros. Assim, os pescadores da região têm tempo livre para se dedicar aos estudos

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