sábado, 21 de julho de 2018

FORÇA AÉREA

Pelicanos: por uma vida a ordem é lutar

5 DEZ 2010Por Paulo Cruz00h:55

Próximo das 16 horas de uma tarde ensolarada, uma sirene toca no hangar do Esquadrão Pelicano, na Base Aérea de Campo Grande. Minutos depois, um helicóptero H-1H, com cinco militares decola. As informações recebidas falam de um acidente com um piloto de parapente, num morro próximo à cidade. O socorro precisa ser rápido.

Sérgio Roberto Sodré fazia naquele dia seu primeiro voo. Problemas na decolagem com uma forte rajada de vento o jogou numa encosta coberta de árvores e de difícil acesso. Na queda, sofreu ferimentos graves, fraturando a bacia. O primeiro atendimento foi feito pelo Corpo de Bombeiros e demorou quatro horas até que Sérgio fosse levado a um lugar onde o helicóptero dos Pelicanos pudesse resgatá-lo e levá-lo a um hospital. O transporte por terra seria arriscado e poderia custar a vida daquele homem.

Em outro episódio envolvendo militares do Esquadrão Pelicano, considerado um dos mais importantes dentro da Força Aérea Brasileira (FAB) e que tem como missão principal a busca e o resgate de embarcações e aeronaves desaparecidas em todo o território nacional, o socorro teve que ir mais longe. A fazenda Baía Pacau, distante cerca de 400 quilômetros de Campo Grande, bem no coração do Pantanal, ficou praticamente ilhada com as fortes chuvas que caíram em 2008. O povo pantaneiro sabe conviver muito bem com essa situação e já se habituou a tirar seu gado das regiões mais baixas, para que ele não morra, e a estocar o alimento necessário para o longo período sem contato com outros lugares. Esse isolamento traz também alguns perigos.

O garoto Rafael Jaques de Oliveira, de apenas 5 anos, brincava próximo à casa da fazenda. Ao passar por um pedaço de mato mais alto, ouviu um barulho que vinha do chão e sentiu uma forte dor no tornozelo direito. Parecia uma ferroada de marimbondo. Mas, infelizmente, a dor vinha da picada de uma jararaca, uma das cobras mais comuns e perigosas da região.

O veneno injetado no menino poderia matá-lo em pouco tempo caso não recebesse socorro adequado.

Com o rádio da fazenda a família pediu socorro. Em poucos minutos, o helicóptero dos Pelicanos decolou para mais uma de suas missões. A bordo, além dos dois pilotos, mecânico e um artilheiro, que cuida do armamento da aeronave e auxilia na navegação, está o médico Pedro Henrique Smanioto, recém- chegado ao esquadrão e que partia para sua primeira missão.

O voo demorou quase quatro horas. Os militares ainda não sabiam como estava o garoto. O que tinham certeza é de que em seu corpo circulava o veneno da cobra e que os danos poderiam ser irreversíveis e levar Rafael à morte.

Avistaram a fazenda por volta das dez horas. Quando o helicóptero pousou a família já estava à espera. O médico desceu rápido e pegou Rafael nos braços. Sua mãe embarcou junto na aeronave.

Em voo, o menino recebeu os primeiros cuidados. Ele parecia bem e só reclamava de muita dor na cabeça, abdome e no local do ferimento.

Mais de três horas depois eles finalmente chegaram ao Hospital Regional Rosa Pedrossian, em Campo Grande. Rafael foi então entregue à equipe médica de plantão.

No outro dia, um telefonema informou que seu estado de saúde era muito bom e que sua recuperação seria total.

Anonimato
Ao contrário do que acontece nas grandes tragédias aeronáuticas, que invariavelmente envolvem os Pelicanos, essas duas breves histórias, que fazem parte da rotina quase anônima dos militares dessa verdadeira "tropa de elite" da FAB, tiveram pouca repercussão na mídia. Já as buscas aos 218 passageiros do Airbus da Air France, em junho de 2009, quando os Pelicanos foram os primeiros a decolar para o local da tragédia, e no resgate aos corpos dos 154 passageiros do voo 1907 da Gol, episódio no qual os militares de Campo Grande também foram os primeiros a chegar. Nessa missão os Pelicanos permaneceram mais de 40 dias no local do acidente; ganharam grande espaço nos jornais de todo o mundo.

"Em nosso trabalho não buscamos recompensas ou reconhecimento. Sabemos que temos que ser eficientes, rápidos e não podemos errar. Se isso acontecer, pessoas podem morrer. Por isso, mantemos nossos homens treinados e sempre prontos, todos os dias do ano, todas as horas do dia, para decolar para qualquer ponto do nosso País, sempre que precisem de nossa ajuda", explica o tenente-coronel-aqviador Potiguara Vieira Campos, comandante dos Pelicanos.

Anualmente, os militares participam ainda das missões de multivacinação no Pantanal e Amazônia, além de realizar o transporte de feridos e enfermos para locais com melhor assistência médica.

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