quinta, 19 de julho de 2018

NEGÓCIOS

Os novos lucros do velho brigadeiro

12 JAN 2011Por ESTADÃO03h:30

Leite condensado com margarina e chocolate em pó no fogo baixo por alguns minutos dá brigadeiro. Nas mãos da doceira Juliana Motter, de 33 anos, a receita foi incrementada e virou um negócio que está sendo copiado no País inteiro. O doce, genuinamente brasileiro, ganhou ingredientes importados, sabores inusitados como os de cachaça, limão siciliano e manjericão, e um sobrenome chique: gourmet.

Juliana, mais conhecida como Maria Brigadeiro (esse é o nome da marca criada por ela), começou o negócio por acaso. Formada em jornalismo e gastronomia, ela trabalhava numa revista quando foi descoberta numa festa infantil em 2008. Por amizade, fez os docinhos do aniversário do filho de uma amiga e começou a receber encomendas dos convidados. "Quando deixei o emprego para fazer brigadeiro para fora, as pessoas ficaram chocadas", conta.

Mas ela estava decidida. Desde criança, quando aprendeu a cozinhar com a avó, essa era sua receita preferida. Juliana investiu cerca de R$ 250 mil no negócio. Começou fazendo tudo sozinha e hoje tem 35 funcionários. A produção de 4 mil brigadeiros por dia garante um faturamento de R$ 380 mil por mês.

O foco são as encomendas. Depois de muita resistência, no ano passado Juliana decidiu abrir uma loja em São Paulo e, por enquanto, não pretende ir além disso. Ela teme que o crescimento interfira na qualidade do produto. Mas, enquanto a Maria Brigadeiro resiste em crescer, os concorrentes estão ganhando espaço.

A primeira a levar a ideia do "brigadeiro gourmet" para os shopping centers de São Paulo foi a Brigaderia, da designer de tecidos Taciana Kalili. Ela entrou no mercado em março do ano passado e hoje já tem três unidades, com previsão de abrir mais quatro este ano. "Começamos a estudar o modelo de franquia para levar o negócio a outros Estados", afirma.

A Brigaderia produz cerca de 7 mil brigadeiros por dia, de 30 sabores diferentes. A massa é feita durante o dia e os doces são enrolados de madrugada, para chegarem fresquinhos às lojas pela manhã. O preço é unitário: R$ 3.

O segredo para ganhar dinheiro com brigadeiro, diz Taciana, é dar ao doce o status de "presente". A decoração das lojas e as embalagens são pensadas com essa finalidade. "Queremos que o cliente entre, experimente e leve uma caixa de brigadeiros para alguém."

Essa é a ideia também da Brigadeiro Bistrô, da economista Fernanda Zajd. Ela fundou a Brigaderia com Taciana, mas por causa de desentendimentos deixou o negócio e criou sua própria grife de brigadeiros. Em seis meses, abriu uma loja e um quiosque em shopping centers de São Paulo.

Além do brigadeiro, as três empresas têm em comum o investimento constante no desenvolvimento de novos produtos. "Só assim para se diferenciar da concorrência", diz Fernanda. A Brigadeiro Bistrô lançou um tubinho, que parece com o de pasta de dente, cheio de doce. A Maria Brigadeiro criou uma "caixa de remédio", com seis doces, contra a TPM feminina. E a Brigaderia firmou uma parceria com a Nespresso e combina sabores de brigadeiro com os de café.

O modelo de negócio criado por Juliana Motter e aprimorado pelas concorrentes já foi copiado em Porto Alegre, no Rio, em Recife e deve continuar se reproduzindo por aí. "Elas tiveram o mérito de reinventar um produto de que todo mundo gosta e que todos sabem fazer", diz a consultora Cláudia Bittencourt, especializada em estruturação e reestruturação de empresas. "É o tipo de negócio que, depois de estruturado, faz as pessoas se perguntarem: por que eu não tive essa ideia antes?"

PRESTE ATENÇÃO

1.Abrir uma loja especializada em brigadeiros exige investimentos em torno de R$ 200 mil. Além de pensar na decoração da unidade, é interessante para o negócio desenvolver embalagens exclusivas e programar o lançamento de novos sabores.

2. A logística também requer atenção especial, já que a validade do chamado brigadeiro gourmet é de apenas um dia. A produção e a distribuição devem levar em conta esse prazo. Em alguns casos, a fábrica pode ter de funcionar 24 horas.

3.Por enquanto, as lojas de brigadeiros são novidade. Mas a tendência, segundo a consultora Cláudia Bittencourt, é que elas se proliferem no mercado e tenham de aumentar o mix de produtos oferecidos para sobreviver.

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