Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

Jovens

Os desafios de morar só

30 OUT 2010Por Thiago Andrade00h:00

Sair da casa dos pais é o sonho de muitos jovens e adolescentes. No entanto, quando se veem morando sozinhos, a realidade pode ser bem diferente. Ter de enfrentar novas responsabilidades, como pagar contas de água e luz, fazer almoço diariamente, cuidar da louça e da limpeza da casa são “detalhes” que passam batidos diante da euforia de experimentar a liberdade longe dos pais. Como tudo na vida, morar sozinho tem vantagens e desvantagens. O cotidiano de jovens que vivenciam a experiência pela primeira vez mostra um pouco desse mundo, povoado por estudantes e recém-formados.

Em uma cidade como Campo Grande, o número de adolescentes vindos de outras cidades do interior para estudar é grande. No caso do acadêmico de publicidade Lucas Santos, a busca por independência foi a principal preocupação desde que chegou à Capital, em fevereiro do ano passado. “Minha mãe mandava dinheiro para pagar todas as contas. Do aluguel à mensalidade da faculdade, ela arcava com tudo. Atualmente, é diferente. Arrumei um emprego e consigo pagar quase todas as contas”, explica o jovem de 18 anos.

Os primeiros momentos, lembra Lucas, foram difíceis e diversas vezes ele sentiu vontade de retornar para o “ninho”, em Maracaju. “É comum que os estudantes de lá estudem em Dourados, por ser uma cidade próxima. Mas eu sempre deixei claro que não queria”, ressalta, sobre o motivo da mudança para Campo Grande.

Morando em um apartamento no centro da cidade, Lucas já dividiu moradia com outras quatro pessoas. “Não é fácil conviver com elas, é preciso se adaptar, saber ceder, mas tem hora que é preciso bater o pé. Mas também é uma experiência divertida, a gente tem a chance de conhecer outra pessoa a fundo, um bom começo para grandes amizades”, descreve. Em um ano e oito meses longe dos pais, o estudante acredita que amadureceu muito, tendo uma visão mais adulta. “Agora entendo quando eles chamavam minha atenção”.

Liberdade e saudade
Para a acadêmica de Psicologia Daniela Gonçalves, de 20 anos, a liberdade de morar sozinha é incomparável, mas as responsabilidades caminham juntas com ela. “Se eu não lavar a louça ou arrumar a casa, ninguém vai fazer isso por mim”, aponta. Embora tenha morado em pensionato e, atulamente, alugue um quarto na casa de uma professora de ensino fundamental, a estudante acredita que morar sozinha, o que pode acontecer em breve, será uma experiência bastante diferente.

“Aqui, quando algo dá errado, posso contar com outras pessoas. Sempre existe alguém tomando conta de tudo, o que não vai acontecer quando eu estiver sozinha”, lembra. Segundo ela, o pior de se estar sozinha na cidade são os domingos. “Bate uma solidão que incomoda. A saudade é o maior problema de sair da casa dos pais”, acredita. Ela veio de Brasília, portanto, não é sempre que pode visitar os pais que ainda moram na Capital nacional.

Garotas enfatizam maturidade adquirida
No caso de Renata Tortela, de 19 anos, a realidade é um pouco diferente. Como os pais moram em Três Lagoas, todos os feriados ela retorna à cidade para aproveitar o tempo debaixo das asas de sua mãe. “O conforto que a gente tem em casa é único, infelizmente ele não pode durar pela vida inteira”, admite. Desde o terceiro ano do ensino médio, a estudante de Jornalismo já sonhava em sair da cidade natal e, logo que passou no vestibular, decidiu que se mudaria para Campo Grande.

“No fundo, a gente sabe que vai ser barra, mas sair de lá se tornou uma ideia fixa. Eu não sabia fazer quase nada, mas aprendi muito quando vim para cá”, detalha a futura jornalista. Renata conta que aprendeu a cozinhar, lavar e passar as próprias roupas, limpar a casa, entre outras atividades cotidianas. Depois de passar quase um ano em um pensionato, ela e um amigo, que morava no mesmo local, decidiram alugar um apartamento e morar juntos. “É uma outra realidade. No pensionato, tudo é mais fácil, mas a liberdade de morar sozinha é incomparável”, pontua.

Se você está pensando em sair de casa, pense duas vezes, e lembre-se que estar sozinho não são apenas alegrias. Quando o encanamento estourar de madrugada ou quando a saudade apertar, você vai ter que encontrar formas de resolver isso tudo sozinho. Mas, afinal de contas, todos temos que passar por isso em algum momento.

Indo embora
Quando se formou em Jornalismo, no final de 2009, Anne Durey decidiu que iria embora de Campo Grande. Há oito meses, ela se mudou para Recife, capital de Pernambuco, localizada a mais de três mil quilômetros de Mato Grosso do Sul. “Eu precisava sair daí, queria ir para São Paulo, mas seria economicamente inviável. Meus pais são pernambucanos e têm um apartamento aqui, no qual estou morando agora”, explica a jornalista de 23 anos, que trabalha como assessora de imprensa.

“Sinto falta do convívio em casa, é a parte mais complicada. O resto, a gente dá um jeito”, brinca. Mas, segundo ela, os primeiros meses na cidade pernambucana foram complicados. Além de não conhecer ninguém, ela não tinha emprego. “Isso se resolveu rápido. O povo daqui me acolheu. Como eu estou fazendo especialização em jornalismo cultural, conheci muita gente com afinidades”, descreve.

Segundo Anne, chegar em casa de madrugada, abrir a geladeira e ver que ela está vazia, é a situação típica que faz ver como não é fácil morar sozinha. “A responsabilidade fica toda em cima de mim, mas eu optei por isso. No final das contas, vale muito a pena”.

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