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Campo Grande - MS, terça, 16 de outubro de 2018

Olhai aquele prédio amarelo

8 ABR 2010Por 20h:17

Saudade é uma palavra que só existe no idioma português. Se outros povos não entendem o seu significado, tento traduzir: É aquela dorzinha gostosa, um não sei quê de melancolia prazerosa de difícil definição. Carrego este sentimento comigo quando recordo minha infância e que me atinge com intensidade maior toda vez que atravesso a Avenida Noroeste vindo do final da Rua Quinze de Novembro, bem ali, após o Mercadão e o Camelódromo, viro o olhar para a esquerda e me deparo com aquele magnífico prédio amarelo que um dia foi o Colégio Osvaldo Cruz.

Minha escola por tantos anos, desde o primário até a conclusão do segundo grau. Ah, eu era menino, eu era menino naquele tempo! Foi ali que soube que Capitu tinha os olhos oblíquos e de ressaca, que Augusto dos Anos publicou apenas um poema, intitulado "Eu", e ainda assim compôs uma obra-prima, que o mesmo se deu com Álvares de Azevedo e sua excepcional "Lira dos vinte anos", onde fui orientado a ler o primeiro livro estrangeiro – "Os meninos da Rua Paulo", do escritor húngaro Ferenc Molnar e com ele aprendi, além do gosto pela leitura, o valor da verdadeira amizade.

No Osvaldo Cruz a modernidade e as inovações eram frequentes: Tive aulas de laboratório e conheci artefatos desconhecidos e de nomes estranhos, bico de bulsen, béquer, pipetas, tubo de ensaio, que eu lá fora contava, todos olhavam surpresos sem saber do que se tratava. E quando nos formamos no segundo grau, o curso se chamava Patologia Clínica, portanto, segundo meu amigo José Patay Neto, éramos patólogos, para risos dos da outra turma que se formavam técnicos em contabilidade. Lembro ainda das aulas de técnicas agrícolas, lá mesmo, no pátio, ao lado do magistral pé de manga, que anda está por lá erguido como se fosse um guardião do lugar.

Às vezes tenho a impressão que me envia uns assovios quando me vê descendo pela rua sem parar sequer um instante. Palco de mestres queridos e dedicados, que tiveram calma, sabedoria e paciência em me ensinar os caminhos da vida, como lhes sou grato, o quanto lhes devo, não poderei descrever. Haverei de guardar os seus rostos para sempre em minha lembrança e com carinho no coração. Aqueles poucos metros quadrados, para mim eram um latifúndio enorme de conhecimento, de sabedoria, local sagrado da formação do meu caráter e de tantos outros alunos, hoje inseridos em nossa sociedade em diversas e importantes atividades.

Foi lá que vi um teatro pela primeira vez, onde dedilhei, tímido e curioso, os teclados de um velho piano que ali estava há tanto tempo, provavelmente antes mesmo de eu nascer. No corredor principal, fixo nas enormes paredes, havia uns quadros contendo as fotos e os nomes de formandos da escola em outros tempos. Meu sonho de então, era ver um dia minha foto também ornando o lugar. A cidade cresceu e engoliu a velha escola, transformando-a em local abandonado, miserável, frequentado por delinquentes, chegando ao ponto de ser conhecida como cracolândia, posto ser assim denominada pelos moradores das redondezas. Quanta tristeza!

E eu me perguntava se o poder público não atuaria, se deixaria prosseguir ocorrendo aquela verdadeira ofensa à história de nossa cidade. Quando é para criticar, juntam-se muitos, mas para elogios são raros os que se oferecem. Faço então minha parte, na condição de ex-aluno do Colégio Osvaldo Cruz, parabenizo a ação da Prefeitura de Campo Grande pela criação no local do projeto "TRAJE" – Travessia Educacional do Jovem Estudante, metodologia inovadora e merecedora de aplausos, pois pretende investir na formação profissional de jovens entre quinze e dezessete anos, que têm distorções de idade e ano de escolaridade, além de propiciar a conclusão do curso fundamental.

Faço apenas uma ressalva, até para que este texto não passe como bajulação, deixo registrado que não gostei da troca do nome. Por mais merecedora que seja a homenageada, e ela certamente merece, creio que o nome da professora poderia compor em uma nova escola ou de um outro projeto, mas não substituir o tradicional Osvaldo Cruz. O prédio faz parte da história da nossa cidade, é patrimônio de Campo Grande, referência conquistada com o antigo nome e considero um erro modificá-lo. Vou continuar chamando-o de Osvaldo Cruz.

Agora a pouco, quando passei em frente ao prédio da escola, vi diversos jovens saindo porta afora, belos, garbosos, orgulhosos, com o olhar voltado para o futuro, portadores do mesmo brilho que dos meus olhos faiscavam tempos atrás, quando eu usava uma calça bordô, camisa branca e o distintivo COC estampado no bolso do lado do coração. Para mim restou a saudade e o agradecimento. Para os jovens do TRAJE, uma vida inteira pela frente, certamente pavimentada e iluminada pelo projeto inovador. E aquele prédio amarelo volta a pulsar, desta vez, espero, para sempre.

ANDRÉ LUIZ ALVEZ, acido13@gmail.com

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