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Obras-primas de John Cassavetes reunidas em box

20 MAR 10 - 02h:47
Os EUA da beat generation e do free jazz encontraram na figura do ator e diretor John Cassavetes (1929- 1989) seu melhor intérprete. Graças a esse espírito vanguardista, Cassavetes, o pai dos cineastas independentes, provocou uma mudança de rota tão brutal no cinema americano que Hollywood não conseguiu ignorar o realizador, homenageado pelo selo Cinemax (Continental) com duas caixas de DVDs que trazem cinco de suas principais obras. Na primeira estão seu filme de estreia, “Sombras” (1959), “Faces” (1968) e “A morte de um bookmaker chinês” (1976). A segunda caixa reúne “Uma mulher sob influência” (1974) e “Noite de estreia” (1976). São os mesmos títulos restaurados e lançados pela Criterion americana. Visionário, Cassavetes assumiu a tarefa de documentar (em 16 milímetros, preto e branco e um orçamento liliputiano de US$ 40 mil) a emergência de uma nova América nos anos 1950. Há meio século ele ousou filmar relações inter-raciais quando o assunto era tabu nos EUA, tendo como pano de fundo a cena jazzística em Man hattan e a desesperança da geração beat, cujos representa ntes são reduzidos a aparições em Sombras. Nele, três irmãos afro-americanos lutam para realizar projetos pessoais que parecem fadados ao fracasso. Em “Faces”, Cassavetes não se mostra menos pessimist a. Seu coment á rio sobre a demolição do sonho americano tem algo a ver com o oclusivo universo matrimonial retratado pelo sueco Bergman. Aqui, ele fala da falência de um casamento de 14 anos num país que mergulhava numa guerra suja (a do Vietnã) e testemunhava o advento da filosofia hippie. A desintegração do casal é retratada de maneira crua em closeups e preto e branco, no melhor estilo do cinéma verité. Completa a primeira caixa o terceiro título, “A morte de um bookmaker chinês”, noir fragmentado sobre o proprietário de um clube noturno forçado a cometer um crime. A segunda caixa traz como protagonista a mulher do diretor, Gena Rowlands, em duas obras-primas de Cassavetes. Em “Uma mulher sob influência”, ela interpreta uma dona de casa de classe média baixa. Já em “Noite de estreia”, Gena é promovida à condição de diva do teatro. Em ambos os casos, porém, as duas mulheres estão à beira de um ataque de nervos. No primeiro, o marido de Mabel, mãe de três filhos, tenta lidar com a instabilidade mental da esposa. No segundo, “Noite de estreia”, são os companheiros de teatro de uma prima-dona que tentam contornar as excentricidades da atriz em sua luta inglória contra a velhice. Dois exemplos da sensibilidade de um autor independente e acima da média.
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.

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