Sexta, 15 de Dezembro de 2017

Entrevista

'O potencial de Ponta Porã é muito maior que o turismo de compras', diz prefeito

19 JAN 2014Por Milena Crestani18h:00

Mesmo com pouca experiência na área política, o prefeito de Ponta Porã, Ludimar Godoy Novais, conseguiu alcançar resultados positivos no seu primeiro ano de administração. Praticamente atingiu a meta estabelecida na campanha de construir duas mil casas e agora a expectativa é conseguir zerar o déficit habitacional até o final de seu mandato. A cidade também se destacou na quantidade de recursos de emendas parlamentares, sendo a segunda com maior volume. As verbas serão destinadas, principalmente, para saúde e infraestrutura. Nesta entrevista, ele destaca ainda a relação com as cidades fronteiriças em relação à segurança e à área social. Fala ainda do aspecto econômico, com a intenção de montar um centro de distribuição em Ponta Porã dos produtos industrializados do Paraguai, além de enaltecer o potencial turístico da região, que vai além das compras.

O que destaca do seu primeiro ano como prefeito de Ponta Porã?
O primeiro ano de qualquer nova empreitada é difícil. 2013 foi um ano para nos adaptarmos, conhecermos a realidade da nova situação, pois a prefeitura tem muitas questões específicas. Foi um ano de bastante conhecimento e muito trabalho das nossas equipes, principalmente daqueles que ainda não atuavam no setor público. As equipes estão trabalhando de forma mais eficiente e já conseguimos superar essas primeiras dificuldades. Temos hoje desafios inerentes a qualquer município que enfrenta situação bastante difícil, pois as responsabilidades aumentam a cada dia e a arrecadação não acompanha esse mesmo ritmo. Muitas destas responsabilidades foram criadas pelos governos federal e estadual, mas não vêm acompanhadas do devido custeio para que possam ser desempenhadas. Essas despesas acabam caindo no colo dos municípios. Hoje a maior dificuldade de 99% dos municípios é financeira, pois a arrecadação própria, somada ao ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e ao FPM (Fundo de Participação dos Municípios) permite apenas o custeio da máquina, sem que haja sobra de investimentos que não dependam de emenda de parlamentares ou recurso a fundo perdido.

No fim do ano passado, Ponta Porã foi beneficiada com boa quantidade de recursos de emendas parlamentares. Quais obras serão executadas?
A gente teve a satisfação de saber que Ponta Porã ficou em segundo lugar, atrás apenas de Campo Grande, no valor de emendas empenhadas. Foram mais de R$ 10 milhões para Ponta Porã, em recursos para infraestrutura urbana. Além disso, tivemos 14 pedidos ao Ministério da Saúde, para ampliação, reforma e construção de novas unidades básicas de saúde. Os 14 foram aprovados. Temos ainda o Hospital Regional que está sendo reformado e ampliado com instalação de leitos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). Então, uma parte (dos recursos) será destinada a equipamentos. O restante é para infraestrutura.

Hoje, assim como outras cidades do interior, Ponta Porá depende muito de Campo Grande para atendimentos na área da saúde. Com esses recursos, como pretende diminuir essa dependência?
Nosso foco é a atenção básica, pois é o que não funciona no Brasil. Precisamos desenvolver melhor o trabalho nos postos de saúde, que hoje em dia é praticamente impossível em função da dificuldade em manter os médicos neste local de trabalho para que ele possa desenvolver a função de médico da família. Conseguimos quatro médicos do Programa Mais Médicos. Temos um total de 16 postos de saúde em Ponta Porã e o nosso foco é tentar colocar médicos em horário integral nos postos de saúde, para dar foco na atenção básica e diminuir a sobrecarga do Hospital Regional. Hoje nosso hospital é um grande posto de saúde. Temos dificuldade na contratação de médicos, o mesmo que ocorre em muitas cidades do interior. Hoje o cidadão que está com a unha encravada ou com problema mais grave acaba caindo no mesmo hospital.

Por ser uma cidade fronteiriça, a demanda de estrangeiros para atendimento de saúde também atrapalha?
Com certeza. Temos demanda de brasileiros que moram no Paraguai e não temos como recusar o atendimento, mas eles não estão na conta do que recebemos do financiamento da saúde. Quando se faz o Censo e outros levantamentos esses brasileiros não aparecem. Esse atendimento ao paraguaio acaba ainda acontecendo. Se o estrangeiro sofre acidente no Brasil, não temos como recusar este atendimento a um paciente em estado grave. Estes casos diminuíram bastante em relação à demanda direta quando passou a ser exigido Cartão do SUS. Barrou um pouco, mas a dificuldade continua.

Mesmo não sendo da esfera municipal, não há como não se envolver nas questões de segurança. Qual é a participação da prefeitura neste aspecto e qual o peso do fato de estar na fronteira?
Existe essa peculiaridade e precisamos trabalhá-la. Temos contato e amizade com o prefeito de Pedro Juan Caballero, José Carlos Azevedo, e um bom contato com o governador do Departamento de Amambay, Pedro Gonzalez Ramirez. Eles estão num processo de tentar industrializar Pedro Juan e estamos trabalhando com a Fiems e apoio do deputado Paulo Corrêa para trazer um centro de distribuição. Não temos como competir em termos de vantagem com as indústrias, mas com o centro de distribuição podemos garantir que essa movimentação econômica fique na região de fronteira.

Mas e esse relacionamento com as cidades vizinhas?
Temos vários problemas com a municipalidade, desde saúde, segurança pública e os estrangeiros circulam de forma bastante livre na região. O Brasil, por exemplo, determina em lei que neste ano as cidades têm de acabar com todos os lixões, elaborando planos de saneamento básico e destinação de resíduos sólidos. Estamos fazendo em função da lei e tentamos executá-los em conjunto com Pedro Juan, mas não conseguimos. É difícil convencer o gestor a investir e fazer essa despesa, se ele não tem essa exigibilidade. Nós temos o prazo para cumprir. Vamos cumprir a lei no Brasil, mas nada será feito no Paraguai, o que é meio paradoxal. A questão fica resolvida pela metade, em termos de meio ambiente.

Muitas pessoas quando falam em Ponta Porã destacam somente o turismo de compras. Quais as outras potencialidades a cidade?
O pontencial turístico de Ponta Porã é muito maior que somente o turismo de compras, que até agora ficou conhecido. É uma região muito bonita e pouco explorada, com riqueza de sítios históricos. A menos de 30 quilômetros de Pedro Juan, chega-se a Cerro Corá, onde aconteceu o final da Guerra do Paraguai. Poucas pessoas conhecem esse lugar que é histórico para o Brasil e para o Paraguai. Temos a Reserva Militar de Dourados, perto de Antonio João, grutas com inscrições rupestres. Recentemente, um historiador de Pedro Juan descobriu uma cidade histórica bem próxima da região. Quem nunca entrou no Paraguai, se espantaria de entrar 20 ou 30 km e chegar até Cerro Corá, local muito parecido com a Chapada dos Guimarães ou Chapada dos Veadeiros, que são destinos turísticos muito visitados. É um lugar pouco explorado. O governador quis hoje abrir essa região para que turista não fique apenas focado na compra.

Considera que muitas pessoas ainda têm receio de fazer turismo no Paraguai?
Ainda há um estigma com o Paraguai. Pessoas têm muito medo de entrar porque durante muitos anos quem passava para a rodovia do Paraguai era achacado por policiais e tinha que acabar pagando propina para andar. Isso mudou muito. O país evoluiu bastante e hoje tem condições de receber melhor o turista brasileiro, com mais respeito e tranquilidade.

Quais são suas metas para este ano à frente da prefeitura?
Tivemos meta estabelecida na campanha de construir duas mil casas. Neste ano, tivemos a satisfação de contratar 1.515 unidades. Então quase cumprimos nossa meta que parecia ser quase impossível em quatro anos. Vamos continuar focando na parte habitacional para se possível zerarmos o déficit, que hoje está em aproximadamente 4 mil unidades. Vamos trabalhar forte com relação a isso, aproveitando que o governo federal está focado no Programa Minha Casa, Minha Vida. Registramos vários projetos no PAC 2, maioria para garantir investimentos em infraestrutura urbana. Precisamos atender demandas que a cidade tem de bairros muito antigos, onde moradores cobram, com razão, o asfalto. Quem não tem asfalto convive com lama na chuva e poeira na seca. Temos um projeto de revitalização do centro, no sentido de tentar fazer da fronteira um destino turístico mais agradável. Vamos reformular todo centro de Ponta Porã, com acessibilidade, canteiros com flores para ser um local mais bonito e agradável. Teremos uma intervenção completa na área central, executada com recursos de emenda do deputado federal Vander Loubet. Já começamos a primeira fase para dar ‘cara nova’ ao centro da cidade.   

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