domingo, 22 de julho de 2018

Interpretação

O poder da intuição

19 DEZ 2010Por Thiago Andrade00h:30

Gilles Deleuze, filósofo francês morto em 1995, pontuou que a intuição não é nem um sentimento, nem uma inspiração, nem uma simpatia confusa. Intuição é, portanto, a apreensão imediata da realidade por coincidência com o objeto, descrevera o filósofo – também francês – Henri Bergson, em meados do século XIX. Em outras palavras, intuir é captar a realidade diretamente, sem fazer uso de ferramentas lógicas do entendimento como a análise, a tradução e a interpretação.

O tema, que frequenta âmbitos intelectuais como a consagrada Universidade de Paris – Sorbonne, é muitas vezes relegado ao esquecimento pelo senso comum. Entretanto, o empresário paulista Hélio Athia Júnior, formado em Bioquímica pela Universidade de São Paulo, mas que atua na área de marketing, resolveu entender melhor o que é esta capacidade humana e como ela pode ser levada ao mundo dos negócios. Reunindo referências que vão da cabala e medicina chinesa aos estudos de neurolinguagem, apresentou sua visão na palestra “O poder da intuição na vida, nos negócios e nas relações interpessoais”, realizada na Capital na última quinta-feira.

Ao final do percurso de aprendizagem – que segundo ele, se prolongará enquanto estiver vivo – encontrou uma resposta: “Precisamos expandir nossa consciência se quisermos utilizar ao máximo nosso potencial humano. Chamo isso de intuição, essa possibilidade de expandir a consciência, que vai além do físico, do racional e do emocional”. Para Athia, o ser humano é composto por quatro dimensões, sendo elas, o físico, o racional, o emocional e o espiritual. “Quando falo espiritual confundem com algo religioso, mas não é isso. Espiritual é uma relação com o mundo, uma forma de se religar a ele”, explica.

Evolução humana
Com uma história marcada por constantes evoluções, a humanidade desenvolveu cada uma dessas dimensões, algo que se constata facilmente. “Nos primórdios da existência do homem, ele utilizava basicamente a força física, mas a medida que compreendia como modificar o ambiente, ele evoluiu. Se um dia utilizamos pedras como ferramentas, hoje podemos destruir o mundo por meio de um botão. É um percurso feito pela inteligência”, teoriza. Contudo, a inteligência precisa ser balanceada com o emocional, a risco do ser humano se tornar frio e esquecer o mundo que o rodeia.

“Entende? Existe um equilíbrio que é necessário entre as dimensões que compõem cada ser. A busca por esse equilíbrio abre portas e são elas que nos permitem apreender o mundo de forma cada vez mais direta”, descreve o empresário. Hélio Athia tem 57 anos. No último quarto de século, pesquisou o assunto e, há cerca de um ano, percebeu que o conhecimento tinha de ser passado adiante, ser multiplicado. O que o levou a pensar dessa forma foi uma experiência de proximidade com a morte sobre a qual não deu muitos detalhes.

Antes de se interessar pelo assunto, Hélio se descreveu como um jovem cético, que não acreditava em nada além do que via. “Por algum motivo, tive um insight do qual não pude escapar. Sempre quis saber quem eu sou, me conhecer a fundo e saber qual a minha missão nesse mundo. Pesquisando, estudando, conhecendo pessoa, percebi que a resposta que eu procurava estava no equilíbrio entre cada uma das partes que me compõem”, pontua.

Masculino e feminino
Para Hélio, é ignorância tentar igualar os sexos. Enquanto o homem é mais ligado ao racional e à lógica, tomando decisões em dados concretos e sensíveis, as mulheres têm maior sensibilidade às emoções e à espiritualidade, portanto, são mais intuitivas. “Acredito que este é um dos motivos pelos quais a mulher está se tornando cada vez mais bem sucedida no mundo dos negócios. Se os homens não cultivarem o lado feminino, correm o risco de ficar para trás”, alerta.

Como a famosa imagem do Yin-Yang, a dualidade entre masculino e feminino permeia todos os seres. Nos homens, o masculino se desenvolve e o feminino é atrofiado, e vice-versa com as mulheres. Outra vez é necessário encontrar o equilíbrio, permitindo que as habilidades de cada sexo se desenvolvam. Por conta do preconceito, muitas vezes os homens se fecham às emoções e à espiritualidade, perdendo a chance de ser desenvolver enquanto seres humanos completos e complexos.

“Expandir a consciência significa buscar meios para a completude. É uma postura que vai além da individualidade e do egoísmo. Preciso pensar sempre no motivo das minhas escolhas, lembrar que existem outras pessoas no mundo em que vivo e que elas são afetadas por minhas decisões. Não existem regras para se tornar intuitivo; é antes um caminho, iniciado por uma decisão. Entre elas, observar melhor o mundo, algo muito difícil nos dias de hoje”, define Hélio.

Assim como frisam os filósofos citados no início desta reportagem, a intuição surge como uma ferramenta para conhecer o mundo bastante diversa da racionalidade científica que tomou conta da história humana nos últimos séculos. Hélio pontua que a ciência tem sua utilidade para o mundo e não chegaríamos onde estamos sem ela. Mas, assim como o personagem shakeaspereano Hamlet diz a Horácio, “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.

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