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O pó da morte...

3 ABR 10 - 20h:03

São Paulo, 23h30min... aeroporto de Guarulhos, hora do embarque do voo de tarifa econômica para Campo Grande, também conhecido como "corujão". Uma mulher bem vestida, bem penteada e maquiada, demonstrando porte de mulher rica e bem educada, aproxima-se de um senhor de meia idade, de seus cinquenta anos, bem trajado, e pergunta-lhe, com voz quase chorosa:

– Meu senhor, por gentileza, o senhor está indo para Campo Grande?

– Sim, minha senhora. - E dito isto, percorreu-lhe todo o belo corpo com um olhar de conquista.

A mulher aliviou-se com a resposta, chegando mesmo suspirar, como se desfizesse de uma tremenda carga.

– O senhor me faria um favor?

E apresentou-lhe um pequeno embrulho, volume pequeno, de um quilo mais ou menos, bem amarrado em papel de presente, com um nome escrito: – Lúcia!

– O senhor me entregaria esse pacote a minha irmã Lúcia, que está esperando no aeroporto em Campo Grande? Creia que o senhor estará me fazendo um favor que nem sei como pagar-lhe...

– Ora, minha senhora, não seja por isso, terei o maior prazer em servi-la e até mesmo seria minha boa ação de hoje, não é?

– O senhor não se preocupe, pois, ao telefone, já darei as suas características à minha irmã, que, como disse, está à espera do pacote lá no aeroporto de Campo Grande. Muito obrigado, meu senhor...

Quando o avião decolou, o nosso amigo do pacote deitou-se confortavelmente em sua poltrona do lado dos não fumantes e, curiosamente, apanhou um jornal e dirigiu seus olhos para as manchetes da página policial:

"Quadrilha de cocaína presa em São Paulo".

"Oito quilos do pó da morte apreendidos".

"Crescem as apreensões da cocaína no Brasil".

Um frio lhe percorreu a espinha e a indagação não tardou a povoar-lhe a mente: – "será que estou levando cocaína no pacote?"

Num átimo de segundo aprumou sua poltrona e, como em filmes de suspense, apanhou o pacote, olhou para todos os lados e não teve dúvidas; foi desmanchando devagarzinho o pacote (para que nem se percebesse tivesse ele sido aberto) e, quando abriu-se uma pequena brecha, levou seu indicador ao material e constatou que era PÓ.

O frio na espinha aumentou.

Molhou o indicador com a saliva e meteu-o no pacote. A seguir, levou-o à boca. Tinha gosto amargo. Olhou a coloração e percebeu que era cinzenta, quase branca.

– Pode não ser pura – pensou.

Mais uma vez repetiu o gesto. Não conhecia – é bem verdade – O gosto da cocaína, mas já percebeu, na quarta vez que repetiu a façanha, que não era, pois não lhe ocasionara nada.

Fechou o pacote normalmente. Ao desembarcar, já saindo no saguão, Lúcia se aproximou dele e disse:

– Por favor, o senhor é quem trouxe o pacote para mim?

– Sim, mais antes de entregá-lo, quero que satisfaça minha curiosidade. Gostaria de saber o que contém este pacote.

A mulher enrubesceu-se toda, num constrangimento inexplicável.

Neste momento, quatro senhores, sérios, parecendo indo ou saindo de um velório, sisudos, acercaram-se e um deles disse:

– O que está havendo aí, maninha? Algum problema?

– Não, não, não está havendo nada – disse Lúcia – e, virando-se para o mensageiro do pacote – que a esta altura pensou que ia levar um tiro ou coisa parecida – falou-lhe calmamente:

– Cavalheiro, queira desculpar nossa afoiteza, mas o que o senhor está trazendo é de suma importância para toda nossa família, pois, afinal, este pacote traz as cinzas de nosso pai, que foi cremado em São Paulo...

 

Jorge Antonio Siufi

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