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Campo Grande - MS, quarta, 14 de novembro de 2018

MEMÓRIA

O insólito pernoite do Operário no meio do Pantanal

Temporal interrompeu balsa e Galo teve de dormir no ônibus na voltar de Corumbá

13 SET 2018Por RAFAEL RIBEIRO16h:30

Aconteceu em 1983...

Mosquitos, frio, ventos assustadores... O cenário insólito de uma aventura na selva pantaneira não era necessariamente o roteiro mais apropriado (e esperado) por um clube de futebol. Mas foi o enfrentado pelo elenco do Operário entre a noite do dia 7 de setembro e a manhã do dia seguinte, em curioso episódio no retorno de Corumbá, uma jornada impensável de 15 horas, que marcou muito mais aquele histórico elenco do Mais Querido que o insosso empate por 1 a 1 no Estádio Arthur Marinho, disputado na tarde daquele feriado, em partida válida pelo quadrangular final do primeiro turno do Estadual.

"No Pantanal, a maratona do Galo", é a chamada de capa do Correio do Estado do dia 9 de setembro de 1983, alertando os leitores para o fato bucólico. "Na hora de atravessar o Rio Paraguai, no Porto da Manga, um forte vento provocava ondas que impediam a utilização da balsa", apontou o curto texto explanativo.

A reportagem, assinada por Paulo Nonato de Souza, apontou que nunca os 470 quilômetros que separaram Campo Grande de Corumbá demoraram tanto para serem percorridos.

Logo após o empate entre os clubes, disputado já com o clima nublado, o então presidente da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul, Alfredo Zamlutti Júnior, teria alertado a delegação operariana do risco de chuva, devidamente ignorado. 

"Aqui só tem gente boa: bom filho, bom pai e bom marido. Não tenha dúvida de que conseguiremos atravessar o Rio Paraguai", disse o então técnico do Galo, o ex-goleiro Carlos Castilho, o Leiteria.

Apreensão e medo do que viria? Com certeza. No caminho até a fatídica balsa, o goleiro Paulão brincou com a reportagem: "olha foi um prazer. Se você conseguir se salvar dessa, por favor dê lembranças minhas prá (sic) rapaziada."

Por volta das 23 horas daquele dia 6, a fatídica notícia da paralisação da balsa foi confirmada. O motorista buscava o melhor lugar para estacionar o coletivo, enquanto os 28 passageiros, entre eles o então repórter do Correio, único jornalista no grupo.

Cerca de 10ºC do lado de fora do coletivo, ventos, Pantanal em seus pés e o jeito para afastar o medo foi improvisar um animado pagodão com a turma do fundão. O motorista bem que tentou impor o sono, mas foi recebido às vaias, conforme o texto.


DIA SEGUINTE

Ao amanhecer, a chuva havia parado, mas o vento forte e o frio continuavam. Pescadores começaram a aparecer, curiosos pela presençado time mais popular do Estado parado alí, às margens do rio.

Às 7h, a balsa ensaiou sua volta às atividades, mas a travesia de um ônibus não era recomendada. Restou ao então diretor de futebol Irineu Farina, angustiado para ir embora, não aguentar nem 15 minutos de espera para pagar 2.500 cruzeiros (cerca de R$ 1,2 mil atuais) de propina ao funcionário da empresa administradora para que a delegação, em meio à turbulência, seguisse viagem.

"A bonita paisagem do Pantanal já não provocava tanta admiração", diz o texto, contabilizando a travesia de 82 pontes até a chegada da delegação em Campo Grande, às 13h do dia seguinte, completamente esgotados. 

Segundo o texto, trechos do caminho, ainda de terra, ofereciam pontes de madeira, pouco confiáveis e que "balançavam de forma exagerada."

Antes da Capital, contudo, pausa para mais uma cena insolita. Policiais federais deram sinal para o ônibus parar. Ao verem o técnico Castilho sentado logo na primeira fileira, já foram logo perguntando: "ganharam ou perderam?" O comandante informou o 1 a1 e a retórica do agente, armado de metralhadora, soou tão angustiante quanto aliviadora: "ainda bem. Se tivessem perdido eu daria uma geral."

Com nomes como o atacante Lima e o lateral-direito Cocada, que acabaram se transferindo para grandes clubs depois daquela temporada, o Operário acabou conquistando o título do Estadual de 1983.

Talvez afetado pela utópica viagem pantaneira , o clube acabou superado pelo rival Comercial no quadrangular do primeiro turno. Mas reagiu no segundo e superou de novo o inimigo vermelho na decisão para ficar com o título.

Retomava assim a hegemonia local. Depois do tricampeonato de 1979, 1980 e 1981, acabou superado pelo Comercial em 1982, ficando de fora inclusive da disputa do Campeonato Brasileiro depois de sete anos.

O Corumbaense entrou de novo na vida do Operário na final do Estadual deste ano. O Mais Querido superou o Carijó da Avenida, quebrou um jejum de 21 anos e fez a torcida sonhar com aqueles tempos mágicos, de locomoção difícil, mas com muitas glórias dentro do gramado. 




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