sábado, 21 de julho de 2018

SHOW

O beijo bandido do irresistível Ney Matogrosso

19 FEV 2011Por estadão23h:38

Passavam apenas dez minutos das dez da noite - o horário marcado para o show - quando Ney Matogrosso subiu ao palco para cantar a dramática "Tango para Tereza". Com arranjo latino, letra sobre desamor e uma performance mais introspectiva, a canção daria o tom do que viria a seguir. "Beijo bandido" é bastante homogêneo, mas nem por isso pouco desafiador.

O espetáculo, na estrada desde 2009, ganhou registro em DVD e um novo CD, "Beijo Bandido ao Vivo", lançado neste ano. Sob direção musical de Leandro Braga, que acompanha Ney ao piano, apenas mais três músicos completam o time: Lui Coimbra (cello e violão), Alexandre Casado (violino e bandolim) e Felipe Roseno (percussão).

O cantor faz pose antes de começar a segunda canção, "Da cor do pecado", os gritos de "gostoso" ecoam pela casa de shows. Se alguns parecem cênicos, outros soam genuínos.

Logo mais, após a intensa "Invento", Ney transforma um ato simples como tirar o paletó e arregaçar as mangas da camisa num minuto de tamanha sensualidade que muitos cantores jamais alcançam em uma vida inteira. Ele canta versos como "Vejo o tempo passar/O inverno chegou/E não vejo você". Talvez valha para ele, porque para nós, fica difícil ver a passagem do tempo nesse senhor que completa 70 anos em agosto. Sob um belo e justíssimo terno, o cantor exibe ótima forma.

Ney não se furta a interpretar músicas que se tornaram clássicos nas vozes de divas brasileiras. "Fascinação" - não parece impossível dissociá-la da voz de Elis? - ou "Doce de coco", famosa na interpretação de Elizeth Cardoso, se abrigam de forma tão natural em suas cordas vocais que parecem ter sido escritas para ele.

A despeito de seus figurinos exuberantes e performances catárticas serem lembradas e adoradas pelo público (e ninguém está dizendo que elas não podem voltar num próximo espetáculo), Ney consegue ser visceral mesmo mal saindo do lugar e mantendo seu terninho alinhado. Quem não sente um arrepio na espinha quando ele entoa versos como "Não tem coração que esqueça/Não tem ninguém que mereça/Cresça e desapareça" de "Bicho de Sete Cabeças" ou "Em minha casa assombrada/Vi coisas de vida e morte/E coisas de sal e nada" de "As ilhas"?

Após uma hora de show, o cantor volta para dois bis. No primeiro, canta "Incinero" com lâmpadas que descem do teto às suas costas, como se o palco ainda carecesse de mais iluminação além de sua presença. No segundo, após mais duas canções, ele encerra com "Fala", música de Luhli e João Ricardo, cujos versos traduzem o sentimento da plateia que sai embevecida pelo astro: "Eu não sei dizer/O que eu sei dizer/Então, eu escuto". E nós te escutamos, Ney.

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