terça, 17 de julho de 2018

ETERNO

O amor e a certeza de Cazuza

31 OUT 2010Por ESTADÃO19h:28

No começo de 1988, Cazuza e Nilo Romero haviam composto Dúvidas, que estava pronta para ser gravada no disco Ideologia, lançado originalmente em abril do mesmo ano e que chega às bancas novamente amanhã pela Grande Discoteca Brasileira Estadão. Já no estúdio, o cantor e compositor disse que havia desistido de gravar a canção. Questionado por Romero sobre o motivo, respondeu: "porque eu não tenho mais dúvidas na minha vida, só certezas".

O tema acabou ficando de fora do terceiro álbum na carreira-solo de Cazuza, pós-Barão Vermelho, com quem ele havia registrado cinco discos. Se o compositor era tomado por convicções naquele momento, o mesmo não ocorria com quem o cercava. Tanto que Ideologia - cujas demos das doze faixas já tinham sido registradas de forma simples em uma mesinha de quatro canais de Romero - foi gravado e mixado em apenas três semanas, pois ninguém sabia por quanto tempo mais Cazuza ainda viveria.

Com os sintomas do vírus HIV aparecendo cada vez mais, ele seguiu para Boston para realizar tratamento contra a doença. Assim que retornou, gravou o disco de maneira relâmpago. "Depois ele acabou fazendo quarenta shows, ninguém sabia que ele aguentaria tanto, por isso gravamos num prazo tão curto e há tantas imperfeições no disco. Muita coisa me incomoda ainda hoje, se eu pudesse mudaria algo ali, como a mixagem e os timbres de algumas faixas", conta Nilo Romero, que dividiu a produção de Ideologia com Cazuza e o craque Ezequiel Neves, morto em julho deste ano.

Romero acaba assumindo que "Cazuza deu essa honra" a ele, afinal, aquele era o primeiro disco que produzia em sua carreira. Segundo ele, cada um dos três tinha suas particularidades para trabalhar. Talvez seja justamente a soma das ideias dessas três cabeças competentes e criativas que tenha culminado no disco mais consistente da carreira do artista, que morreu precocemente, aos 32 anos, em decorrência do vírus da Aids. "O Ezequiel ficava mais no canto dele, mas sempre que dava alguma opinião, acertava. Digamos que o Cazuza apontava as diretrizes e eu viabilizava. Eu fui o cara mais ativo na produção, que mais pôs a mão na massa", diz Romero.

Além de atuar como produtor, ele também assinou o arranjo de sete das doze faixas do disco, como Boas Novas, O Assassinato da Flor, A Orelha de Eurídice - todas de Cazuza -, Guerra Civil (parceria do compositor com Ritchie), Vida Fácil (com Roberto Frejat) e Minha Flor, Meu Bebê (com Dé Palmeira). Sem esquecer, obviamente da antológica Ideologia (com Frejat), que batizou o álbum. "Ele brincava que tinha uma certa inveja criativa do Renato (Russo), e foi então que ele fez Ideologia, Brasil (parceria com George Israel e o próprio Romero). Neste disco, foi a primeira vez que eu vi ele fazer canções políticas, depois ainda teve O Tempo Não Para", diz o produtor.

Cazuza queria um disco de rock, mas que não fosse parecido com os que tinha feito com o Barão. Daí a intenção de Romero de fazer com que o álbum tivesse uma sonoridade mais inglesa do que americana. Nessa linha, ele destaca a forte presença de violões e guitarras, resultando em um único tema a ter ganhado gravação de teclado, Minha Flor, Meu Bebê, "com um quê de Bryan Ferry", como ele mesmo define.

Entre todas as faixas, a que Romero mais gosta é Vida Fácil, composição na qual tocou baixo e guitarra. Ele também reconhece o acerto de Ezequiel Neves em ter convidado Waltel Branco para fazer o belo arranjo do último tema, Faz Parte do Meu Show. "A música era um rock, quem decidiu fazer aquele arranjo de violão foi o próprio Cazuza e virou um musicaço", comentando sobre a música eternizada com o arranjo mais bossa nova.

Depois de Ideologia ser um estouro de vendas, conquistando o disco de ouro na época, ainda no fim do mesmo ano, em 1988, Cazuza lançou o álbum gravado ao vivo, O Tempo Não Para, outro sucesso incontestável e que o ajudou a escrever seu nome na história da música popular brasileira. "A partir de Ideologia, a genialidade dele foi compreendida. Antes diziam que ele cantava bem a dor de cotovelo, o amor... mas, ali, nego percebeu outra faceta dele e passou a respeitá-lo como um grande artista", diz Romero.

Trechos de letras

IDEOLOGIA
"Meus heróis morreram de overdose/ Meus inimigos estão no poder/ Ideologia, eu quero uma pra viver"

BRASIL
"Não me convidaram pra esta festa pobre/ Que os homens armaram pra me convencer/ A pagar sem ver toda essa droga/ Que já vem malhada antes de eu nascer... / Brasil, mostra tua cara/ Quero ver quem paga pra gente ficar assim"

BOAS NOVAS
"Senhoras e senhores/ Trago boas novas/ Eu vi a cara da morte/ E ela estava viva"

BLUES DA PIEDADE
"Agora eu vou cantar pros miseráveis/ Que vagam pelo mundo derrotados/ Pra essas sementes mal plantadas/ Que já nascem com cara de abortadas"

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