sexta, 20 de julho de 2018

INFÂNCIA APRISIONADA

Nas celas, pequenos 'condenados' pagam pelo 'crime' de serem filhos

14 FEV 2011Por VIVIANNE NUNES16h:15

“Eu peço perdão pra ela todos os dias por estar nesse lugar. Fui eu que errei, não foi ela”. O desabafo é de uma mulher de 32 anos, pele negra, olhar cansado e um coração que parece tentar reaver tudo o que perdeu. Neste “tudo”, duas filhas de cinco e doze anos. Ela está detida no presídio Irmã Irma Zorzi em Campo Grande, há onze meses. A filha caçula nasceu praticamente no cárcere: saiu do hospital para a cela. Prematura, a pequena já passou por três pneumonias e esteve internada por quatro vezes. Ela tem dificuldades respiratórias devido a uma doença. “Ela tem refluxo  e ainda não sabemos se vai precisar passar por uma cirurgia”, afirmou a mãe.


“Eu peço perdão pra ela todos os dias por estar nesse lugar. Fui eu que errei, não foi ela”

A unidade prisional feminina da Capital possui alojamentos especiais para gestantes e mães e uma creche onde ficam os bebês. A diretora do presídio, Dalma Fernandes de Oliveira, explica que são sete crianças com as mães e seis mulheres gestantes. A maioria delas, presa pelo mesmo motivo: tráfico de drogas. Muitas foram levadas ao crime pelos maridos, namorados, companheiros. Outras narram histórias de solidão e desespero que as levou ao mundo do crime e lhes tirou a liberdade. Na teoria, os bebês poderiam ficar apenas seis meses na unidade junto da mãe, mas a diretora relata que alguns acabam passando do tempo. “Faço um comparativo da pena e os bebês que não têm para onde ir acabam ficando mais um tempo na creche”, afirmou. Não fosse isso, as crianças seriam levadas à abrigos e quem sabe até à adoção.

No local com capacidade para 231 pessoas, pouco mais de 300 estão detidas. “A maioria, 85%, pelo artigo 33 [tráfico de drogas]”, explicou. As celas das mães e gestantes são separadas das demais internas por questão de segurança.

Lição de vida

A mulher a quem vamos chamar de Maria nesta reportagem, morava em São Paulo com o pai, a mãe, duas filhas e o marido. Foi pelo MSN [ferramenta de conversa online] que ela conheceu a pessoa que lhe prometeu “tirar do sufoco”. Ela foi contratada para transportar 12 quilos de maconha até Campo Grande, serviço pela qual receberia a quantia referente a R$ 1 mil. Ela foi flagrada pela polícia durante abordagem feita ainda no ônibus de viagem. Foi essa a primeira vez em que esteve presa, mas cumpriu apenas quatro meses da pena e foi posta em liberdade provisória. “Com isso eu não podia sair da cidade, não tinha família aqui, não tinha nenhum parente e fui morar com uma amiga”. Ela não quis comentar sobre a tal amizade mas relata que neste período o marido esteve na cidade. Maria foi presa a segunda vez na casa da tal amiga. “A polícia invadiu a casa dela e tinha droga lá. O marido dela estava em quebra de colônia. Para todos os efeitos a droga era minha”, conta a mulher.

Presa pela segunda vez Maria se viu grávida, mas soube apenas depois de cinco meses de gestação. “Fiz um preventivo e fui saber que estava grávida aqui no presídio, aí me mudaram do pavilhão”, relatou. Foi neste momento que o marido de Maria resolveu se separar dela e voltou para São Paulo. Ela não recebe visitas porque a família mora em outro Estado, mas a direção do presídio já entrou com pedido para que ela cumpra a medida domiciliar porque a filha tem problemas de saúde. A intenção é que, com isso, a família possa vir morar em Campo Grande e enfim conhecer a bebê e poder ajudar a filha.

Planos para o futuro: “Mundo do crime nunca mais!”


“Só penso em mudança. Quando eu sair daqui só quero terminar o tratamento dela. Mundo do crime nunca mais”


Maria tem segundo grau completo e diz que pretende se dedicar à filha quando deixar o presídio. “A primeira cadeia que eu 'tirei' foi 'fofa' [na gíria das presas, foi tranquila]. Mas tudo o que estou passando com a minha filha tem me servido de muita coisa. Ela tem cinco meses e já ficou internada várias vezes. Eu peço perdão pra ela todos os dias por estar neste lugar. Só penso em mudança. Quando eu sair daqui só quero terminar o tratamento dela. Mundo do crime nunca mais”, afirmou. Ela também lembra do tempo que está perdendo com as duas filhas sendo criadas pelos avós. “A de cinco está indo pra escola pela primeira vez e eu estou perdendo tudo isso lá fora”, lamentou. Na família de Maria, ninguém conhece a pequena que nasceu e todos querem ajuda-la.

O filho de Ana [nome fictício], 27 anos, tem apenas dois meses de idade. Ela foi presa aos oito meses de gestação e conta que estava totalmente deprimida quando resolver entrar para o mundo do tráfico vendendo porções de pasta base de cocaína a R$ 10. “Eu não conhecia o homem que me ofereceu. Estava sentada em frente à minha casa e chorava muito quando ele me questionou. Falei que estava com dois meses de aluguel em atraso e ele me ofereceu a droga. Eu aceitei”. Ela ainda não foi ouvida pelo juiz e tão pouco sentenciada. O marido, com quem teve dois filhos, também está preso. “Estava preso antes de eu entrar no tráfico”, afirmou. “Ele ta na Máxima, preso pelo artigo 57 [furto] e também por estar foragido da Colônia Penal”, lembrou. “Minha intenção era só pagar o aluguel”, concluiu.

“Já cheguei a analisar tudo sim e eu sei que errei. 'Tô disposta a pagar, mas também estou tentando melhorar, 'tô estudando aqui dentro para sair e arrumar um serviço bom. O que eu estou passando aqui não paga a saudade que sinto das minhas filhas que estão la fora”, argumentou. Ana avalia a situação em que vive como sendo constrangedora. “Mas ele vai ficar bem, eu não abro mão dele de jeito nenhum”, afirmou a mãe

  
“Ele vai ficar bem. Eu não abro mão dele de jeito nenhum”

Trabalho com responsabilidade

Na creche, os filhos de Maria, Ana e de outras cinco mães, ficam na responsabilidade das outras detentas que trabalham na ala. “Elas são muito cuidadosas e por ser uma bebê com problemas de saúde, a atenção é redobrada com ela”, afirmou Maria. As mulheres escaladas para trabalhar na creche do presídio passam por avaliação psicológica antes de assumir a responsabilidade. Elas passam o dia no trabalho e as mães assumem o turno a partir das 17h levando as crianças para as celas.

Joana [nome fictício], 26 anos, está presa há onze meses e há quatro cuidando das crianças na creche do presídio. Ela conta que o marido, com quem estava casada desde os 17 anos, foi preso por tráfico de drogas. Eles se separaram e ela acabou se envolvendo com outra pessoa. Ana foi presa em casa onde um amigo do casal vindo de Goiânia havia deixado 260 gramas de “óleo”. “Óleo?” questionou a reportagem. “Sim, pasta base”, explicou. Olhos verdes, cabelo escuro, maquiagem discreta, sobrancelha impecável. A jovem em questão foi miss no concurso do ano passado dentro do sistema penitenciário. “O trabalho é bom porque nos ocupa. Quando a gente vem trabalhar aqui nem parece que estamos presas. Parece que vamos sair daqui e ir para casa. É uma experiência boa nos faz repensar na vida dos nossos filhos”, afirmou.


Doações

A sala dos bebês possui berços, carrinhos e todo o espaço elaborado exclusivamente para receber as crianças. É bem ventilado e higienizado. Materiais de higienização do local e gêneros alimentícios chegam ao local através de convênio com o governo do Estado. Todos os outros materiais como roupas de cama, roupas dos bebês, fraldas, colchões, são doados. “Eu mesma trago uma coisa ou outra de vez em quando”, diz a diretora do presídio. Os interessados em fazer doações podem entrar em contato direto com a creche pelo telefone 3901-1336 ou na Assistência Social pelos telefones 3901-1338 ou 3901-1333.

  

Dalma Fernandes de Oliveira é diretora do presídio Feminino Irmã Irma Zorzi, em Campo Grande

Fotos: Bruno Henrique

Reportagem publicada às 9h
 

Leia Também