Domingo, 18 de Fevereiro de 2018

entrevista

"Não quero aqui o policial que não tem medo"

24 OUT 2010Por ANAHI ZURUTUZA 00h:15

Há seis anos, foi implantada em Mato Grosso do Sul a Companhia de Gerenciamento de Crises e Operações Especiais (Cigcoe), que dispõe de treinamento e equipamentos diferenciados para atuar em situações mais difíceis, como rebeliões em presídios, crimes com reféns ou locais com artefatos explosivos. Com o filme Tropa de Elite 2, que está em exibição nos cinemas, o número de policiais interessados a integrar nesse grupo em Mato Grosso do Sul aumentou bastante.

O major Massilon de Oliveira e Silva Neto, detalhou, em entrevista ao Correio do Estado, os treinamentos que os policiais precisam passar para integrar a companhia. Ele citou ainda que existe muita fantasia em relação ao trabalho destes policiais e, justamente por isso, muitos deles "pedem para sair" durante o treinamento.

Ele afirma que, diferente do que muitas pessoas pensam, a Cigcoe não tem no grupo aquele policial que diz não ter medo, pois acaba agindo de forma inconsequente e colocando em risco a vida dos outros.

Na entrevista, o major fala ainda sobre o problema do tráfico de drogas no Centro da Capital e uso das armas de choque.

Há quanto tempo existe a Cigcoe e com qual objetivo a companhia foi criada?
A Cigcoe existe há seis anos e foi criada com o intuito de apoiar ou de atuar nas situações mais críticas, nas situações que a gente considera como crises ocorridas dentro do Estado. O que são essas crises? São ocorrências que necessitam de ações diferenciadas da polícia, que não são desenvolvidas todos os dias, ações específicas, direcionadas para aquele tipo de problema. A Cigcoe surgiu com esse intuito e se prepara para isso, treina para isso, obtém equipamentos para isso. Então, a Cigcoe está aí para atuar naquelas ocorrências que são mais difíceis para a polícia atender, por falta de equipamentos ou por falta de treinamento adequado.

 

 

Quais são essas situações de crise?
Rebelião em estabelecimento prisional, crimes com reféns localizados, ocorrências envolvendo artefatos explosivos. Por exemplo, tem uma bomba no Correio do Estado. Como você vai resolver uma situação dessas? Quais são as medidas a serem tomadas? Tem gente que acha que tem de evacuar o prédio. Mas, é errado tirar todo mundo do local. As medidas são diferentes. A gente tem as técnicas de varredura, para desarmar esse artefato se ele realmente existir, e é sempre mais difícil para o pessoal que está na rua resolver isso. Na companhia não, a gente treina para isso, e quando aparece a situação, o pessoal sabe o que fazer e ela é resolvida com tranquilidade.

O diferencial da Cigcoe em relação aos outros batalhões da Polícia Militar passa, basicamente, pela parte de treinamento mesmo?
Sim, treinamento que a gente faz para várias situações específicas.

A Cigcoe atua só em Campo Grande ou trabalha no interior também?
Qualquer situação de crise no estado inteiro a gente atende. Já atendemos ocorrências de crise com reféns localizados em Nova Andradina, em Naviraí, em várias cidades do interior. Quando há um problema que extrapole a capacidade das unidades do interior, a companhia é acionada e a gente desloca para lá.

Como funciona a seleção dos policiais que querem entrar para a companhia?
O policial vem da carreira da Polícia Militar. Nós somos parte da PM. Então, tem muita gente que pergunta: como fazer o concurso para a Cigcoe? Não existe. Dentre a tropa de policiais militares que está se formando, dentre os alunos do curso de formação da PM, a gente seleciona os que têm mais perfil para estar na companhia e traz para cá. Ele passa por um período de estágio (cerca de dois meses) para aprovação e se ele apresentar condições de atuação, permanece.

Então, o policial militar não tem a possibilidade de pedir para entrar para a companhia e participar desse estágio? A seleção é feita pelo comando da Cigcoe?
Num primeiro momento a seleção acaba sendo feita pelos próprios integrantes da Cigcoe mesmo. Neste mês, por exemplo, está havendo formação na academia da Polícia Militar. Nós damos aulas para eles e vamos observando quem teria perfil adequado e o convidamos (para ingressar na companhia). Depois, a gente faz uma pesquisa para saber quem é voluntário e puxa para cá. Mas, nada impede que algum policial que já esteja em outra unidade peça para ser transferido para a Cigcoe. Se a gente conseguir fazer a transferência, ele vem e passa pelo estágio também.

E como é o treinamento do policial da Cigcoe?
Temos o treinamento físico (diário) e o treinamento técnico, onde o pessoal recebe instruções sobre balística, armamentos, técnicas policiais, toda a parte de gerenciamento de crises e policiamento motorizado. Tem também o treinamento onde o policial aprende a manusear todos os equipamentos em qualquer circunstância. E, então, a gente coloca eles na prática de tudo isso.

Os treinamentos são ministrados por policiais de fora do Estado ou pela integrantes da companhia?
Pelo pessoal do Estado. Nós temos gente daqui qualificada no País inteiro. Nós participamos de todos os cursos que são ministrados no País e temos muitos policiais que se destacam. Temos um policial que é o primeiro colocado no curso de técnicas explosivas do Paraná, outro que é o primeiro colocado no curso de operações especiais do Paraná, e mais um policial que é o primeiro colocado no curso de ações táticas de São Paulo.

Então, além da formação que é feita aqui, vocês fazem cursos de especialização fora do Estado?
Fazemos cursos de especialização, de atualização, de reciclagem, de qualificação dos nossos policiais. Todos os anos as grandes polícias do Brasil, de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, oferecem cursos. A gente pega a grade desses cursos, vemos aqueles que nos interessam e pedimos vagas. Nós temos alguns policiais agora em São Paulo fazendo um curso de direção operacional, lá na Rota (tropa de choque da Polícia Militar de São Paulo). E, aí, o policial que vai, traz o conhecimento e repassa para os outros.

A gente pode dizer, então, que a Cigcoe é a "Tropa de Elite" da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul?
Eu não gosto deste termo. Isso veio muito com o filme. Mas, isso acaba criando uma situação desconfortável para nós. Porque se a gente diz que é de elite, isso significa dizer que os outros não são. Eu prefiro dizer que a Cigcoe é uma tropa especializada dentro da Polícia Militar, que tem uma missão específica, a atuação em casos de crises. Não somos melhores que ninguém, a gente só tem um treinamento diferenciado e adequado a determinadas situações.

Mas com o lançamento do filme "Tropa de Elite", sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, aumentou o interesse em entrar para a companhia?
Aumentou sim. Mas, ao mesmo tempo, isso não nos deixa assoberbados. Hoje, existe muita fantasia, inclusive, dentro da polícia. Tem muita gente que põe uma roupa preta, uma caveirinha no peito e, pronto, diz é tropa de elite. Mas aquilo é só a casca; por dentro tem um policial mal preparado, não treinado para aquilo e que vai colocar a vítima em situação de risco ou não vai saber agir da forma correta numa situação crítica, e o pior, acabar com a credibilidade de quem faz um trabalho sério.

E aquelas situações nos treinamentos que foram mostradas na primeira edição do Tropa de Elite, isso acontece mesmo? Tem de ser feito treinamento daquela forma?
Quando você fala em crise, você fala de situações que fogem totalmente do controle das atividades diárias da polícia. Vou dar um exemplo: rebelião em estabelecimento prisional, para você fazer uma entrada em presídio rebelado, com objetos e colchões pegando fogo, os presos com armas artesanais ou até armas de fogo. Se você não tiver um preparo técnico para isso, é difícil. Porque tem gente que fala, os caras não tem medo de entrar. É claro que a gente tem medo, o medo é inerente a pessoa, e o indivíduo que não tem medo eu nem quero aqui, porque acaba sendo inconsequente e colocando a vida dos outros em risco. Então, é claro que a gente tem medo, só que a gente passou por um treinamento que remete a essas situações. A gente passa por treinamento para controlar o medo, a ansiedade, o estresse, não deixar o pânico tomar conta. Às vezes, você está numa situação que acha que vai morrer, e se entrar em pânico vai morrer mesmo, porque o pânico tira toda a sua possibilidade de raciocínio e você não consegue tomar uma atitude que possa lhe salvar. Então, como é que você submete uma pessoa à experiência de uma situação extrema para ele aprender a controlar o pânico? Colocando esse indivíduo nessa situação. Por isso aquelas cenas do filme. Não quer dizer que seja sempre daquela forma, aquilo é cinema, é feito para vender.

Usando a expressão do filme, tem muita gente que "pede para sair" quando está participando dos treinamentos na Cigcoe?
Existe, claro. Porque, como eu disse, são situações extremas. Tem cara que até aguenta, mas, simplesmente, chega a conclusão que não é aquilo que ele quer para a vida dele. Por exemplo, tem indivíduo que cristaliza (paralisa), se você coloca ele numa situação x e o cara fica estático. Aí você conversa com ele, diz que ele não pode fazer isso do contrário ele morre e coloca ele numa outra situação, ele cristaliza de novo, na terceira vez, ele cristaliza e eu falo: "tira esse cara daqui, não tem condição". E tem, também, o cara que acha que trabalhar aqui vai ser mil maravilhas, chega no treinamento e "pede para sair". Porque nem todos conseguem ficar na Cigcoe? Trata-se de perfil e de capacidade técnica. A gente traz o indivíduo para cá e mostra para ele o perfil do policial que a gente quer. Se o indivíduo não se adequa, não significa que ele seja um mau policial, ele pode trabalhar em outras coisas e fazer um excelente serviço, mas para trabalhar na companhia ele não serve.

A Cigcoe já começou a usar as armas Taser ("armas de choque")?
Já começamos e tivemos várias ocorrências com a utilização da Taser. Nós passamos por treinamento, feito pela própria empresa que fabrica a arma. Houve uma polêmica sobre essa arma, se ela machuca. Posso garantir, não machuca, não traz risco nenhum à saúde da pessoa, nem quem é cardíaco, nem quem usa marca-passo. O pessoal fala que ela é uma máquina de choque, mas ela não é uma máquina de choque. Ela não dá choque, ela trabalha com ondas que são as mesmas ondas que cérebro emite para o teu corpo, para você movimentar músculos. Então, quando você recebe uma carga desse equipamento é como se você tivesse tendo uma câimbra no corpo inteiro. É como se o cérebro estivesse emitindo para todos os músculos do seu corpo a ordem de contrair e soltar, então, a pessoa fica totalmente imobilizada, mas a energia que isso aqui (a Taser) utiliza é totalmente periférica, não atinge coração e nenhum outro órgão vital. Nós temos vinte na companhia e cada viatura utiliza uma.

Em que situações ela é usada?
Para imobilização de um indivíduo que está resistindo à abordagem policial. É melhor usar a Taser do que usar um cacetete, do que usar uma arma de fogo, do que usar um imobilizador químico (spray de pimenta, bomba de gás lacrimogêneo). Então, com a Taser, a gente imobiliza ele e o algema, imobiliza e cessa com a possibilidade de agressão, impede que ele continue reagindo à voz de prisão.

Em relação ao tráfico de drogas, há uma verdadeira "feira-livre do tráfico" no centro de Campo Grande. O que pode ser feito para combater isso?
O problema no centro de Campo Grande é ciclo que não termina, porque há uma abordagem errada do problema. Não é a polícia que vai resolver o problema das drogas, porque este não é um problema da polícia. Na verdade, a polícia só lida com as consequências. Por que existe esse fenômeno que você acabou de me relatar? Porque os indivíduos usuários e traficantes ficam no centro da cidade, aí vem a polícia e intensifica o trabalho no local e eles migram para outro lugar. É claro que a gente tem de prender quem vende droga, mas a gente prende um, dois, três, dez, quinze e quantos sobram vendendo? O problema não é a presença da polícia, é uma coisa muito mais ampla e necessita de uma ação conjunta, com a participação da polícia, é claro, mas muito mais dos órgãos encarregados de uma política de prevenção, de esclarecimento, uma política do não-envolvimento da população com as drogas. É mais uma questão de Saúde Pública e Assistência Social do que de polícia.

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