Terça, 20 de Fevereiro de 2018

TESTEMUNHO

Músico da Capital relata momentos com família em Teresópolis

17 JAN 2011Por VIVIANNE NUNES10h:47

O músico Rafael Augusto Coudzi de Farias, 24 anos, mora em Campo Grande e está na casa da família em Teresópolis, cidade na região serrana do Rio de Janeiro afetada pelas enchentes e desmoronamentos de terra dos últimos dias, relatou por telefone ao Portal Correio do Estado os dias de pavor que tem vivido ao presenciar os fatos ocorridos. “Estamos em um local seguro, estável, mas eu me sinto bem abalado com tudo. São oito dias aqui, oito dias de chuva constante e mortes. O clima é bem pesado, mas estamos bem”, afirmou.

Rafael não visitava o local onde moram a mãe, a irmã, o cunhado e o sobrinho há três anos e as tragédias começaram a ocorrer ainda na madrugada do dia em que chegou. “O local onde estamos fica no alto do morro, mas é seguro. Apesar disso, a preocupação é uma constante. Não tem como dormir tranquilo. Há pessoas que moravam perto de nós e que perderam tudo, inclusive a família”, explica.

O músico diz que as histórias se misturam e acabam sendo comum à todos. “Um amigo nosso perdeu a família toda, esposa, dois filhos (…) Parece que estamos vivendo numa guerra”, desabafa.

Enterrados em valas comuns, os mortos da maior catástrofe ocorrida em toda a história do Rio de Janeiro já somam mais de 600 vítimas. “As coisas não aconteceram em um dia só. Elas vêm acontecendo todos os dias e até ontem não tinha parado de desmoronar ainda”, relata Rafael, que pretende voltar à Capital na quinta-feira. “Eu vou se tudo estiver normalizado. Hoje parece que o dia está calmo aqui, parou de chover, mas só volto para casa se tiver tudo bem mesmo”, argumentou.

De onde está, no alto do morro da Vila Muqui, Rafael diz que dá para observar bem os estragos provocados. “Aqui de cima dá pra ver algumas ruas que foram interditadas lá em baixo, casas destelhadas ou que não existem mais, ruas que sumiram em meio a toda lama. Nas ruas há pessoas chorando o tempo todo, procurando crianças desaparecidas em meio a água, ao lamaçal. É um verdadeiro terror o que estão passando”, lamenta o músico.

Ele relata ainda que esteve no centro da cidade, no ginásio onde estão desabrigados e voluntários fazendo doações. “Ajudamos durante toda a semana e também fomos até o bairro da Tijuca onde tem uma outra central de voluntariado, mas há muitas pessoas ajudando. O problema principal é o racionamento de água. A previsão era voltar hoje ou amanhã, mas por enquanto não voltou. A luz também oscila muito mas diante da catastrofe que presenciamos ficar sem água ou luz é o de menos”, explicou.

Rafael diz que sempre esteve preocupado com a estrutura do local. “Mas agora que eu estou aqui vejo que é seguro”, afirma referindo-se a casa onde mora a irmã e a família”. O fato, segundo ele, despertou de uma maneira muito forte a solidariedade nas pessoas. “As casas parecem albergues”, conta.

Sobre deixar a família e retomar a vida na Capital onde mora, Rafael diz que não vai ser fácil, mas que também não tem como simplesmente tirar a família toda de lá. “A casa onde minha irmã vive é dela, não é porque aconteceu uma vez que as pessoas precisam parar as vidas, temos que continuar adiante. Eu não posso entrar em desespero se não piora a situação”, afirmou. A casa onde mora a mãe de Rafael fica há três quadras do endereço da irmã e está em área interditada pela Defesa Civil por ser considerada área de risco, mas ela diz que pretende voltar logo que o risco chegar ao fim, enquanto isso passa os dias na casa da filha.

A comunicação pode ser feita apenas pelo telefone celular e mesmo assim as ligações falham o tempo todo por conta dos helicópteros que sobrevoam constantemente a região. “A cidade toda parou. Não tem comércio, não tem nada. Um dia antes de tudo acontecer a gente tinha ido ao mercado, mas o estoque de comida já está chegando ao fim e estamos racionando tudo. Água, comida e até roupa, porque não tem como lavar. Vivemos como se fosse uma guerra. O terror, o pavor é o mesmo”, finalizou.

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