Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

DRAMA SOCIAL

Mulheres no tráfico de drogas: por dinheiro ou por amor

8 JAN 2011Por Por Theresa Hilcar - especial para o Correio do Estado00h:00

Elas são jovens (a maioria tem entre 18 e 30 anos), com boa aparência – algumas chegam a ser bonitas – alegres, vaidosas, articuladas, românticas e adoram poesia. Fora do contexto atual, ninguém adivinharia que o que elas têm em comum, não é algo tão comum assim: são internas no Estabelecimento Penal Feminino Irmã Irma Zorzi, em Campo Grande.

O local, no Bairro São Francisco, abriga hoje 303 internas, número maior do que a capacidade do velho prédio, adaptado de forma precária para abrigar cerca de 230 pessoas. Nas celas coletivas nas quais deveriam estar 23 detentas estão instaladas cerca de 29 mulheres, mas houve época em que esse número foi ainda maior. As que chegam por último dormem em colchões. As mais antigas ficam com os beliches de três andares.

Contudo, não há reclamação, de acordo com a diretora da instituição, Dalma Fernandes de Oliveira, que trabalha há 25 anos no sistema penitenciário. Nesse tempo, exerceu diversas funções e foi agente de disciplina até 2007, quando foi nomeada ao posto de diretora graças ao bom desempenho profissional. Dalva conhece muito bem o seu ofício e já fez até parto de emergência no presídio, porque não deu tempo de levá-la ao hospital.

Ela comanda o efetivo de 62 pessoas, entre agentes, oficiais, pessoal administrativo, mas apenas oito funcionários fazem o plantão diário. É muito pouco para o número de detentas, mas Dalma se vira como pode. Para isso, ela lança mão de paciência, dedicação e muita, muita conversa. "Acho que tudo pode ser resolvido de forma civilizada", aponta a diretora que costuma dar conselhos a todas que a procuram. "Procuro sempre trabalhar a autoestima delas e faço com que vejam os problemas que estão causando às suas famílias", diz.

Disciplina sob controle
O modelo de gestão da atual diretora parece dar certo. Não há grandes conflitos entre internas e os problemas de disciplina se resumem a eventuais brigas no pátio provocadas por ciúmes entre parceiras. "Às vezes elas saem no tapa com suas companheiras por motivos tolos", explica a diretora. O relacionamento homossexual entre mulheres é visto com naturalidade e não há nenhum tipo de preconceito. Na opinião de Dalva, essas relações podem nascer na prisão devido à solidão e à proximidade entre elas.

Outro motivo de indisciplina acontece durante as buscas (chamadas de "pente-fino"), quando as agentes encontram misturas alcoólicas entre os pertences das internas. Conhecida como "Maria-louca", a substância é uma mistura estranha de arroz, casca de banana e melancia, que fermentados geram algo similar à cachaça. "É mais uma meleca do que uma bebida", diz a diretora, explicando que o estranho composto não chega a provocar embriaguez, mas uma pequena alteração de comportamento.

A única "droga" permitida no estabelecimento é o cigarro. Nem o tradicional cafezinho é servido às detentas. "Café é viciante", explica Dalva. Mas isso não impede que uma ou outra detenta faça a bebida nos alojamentos, quando ganham suprimentos dos familiares durante as visitas. O cuidado da direção é perfeitamente compreensível: cerca de 90% das internas respondem pelo crime de tráfico de drogas. A proximidade com as fronteiras faz com que essas mulheres vejam no tráfico, além de uma forma rápida de dinheiro, uma forma de pagar pelo vício. Cerca de 20% das detentas são estrangeiras. São bolivianas, paraguaias e até peruanas.

Outro dado impressionante é que todas são levadas à atividade criminosa pelos próprios companheiros, ou por alguém da família. Além do tráfico, o presídio abriga (em menor número) mulheres acusadas de crimes de roubo, furto, estelionato, homicídio e lesão corporal.

Os alojamentos são coletivos, mas existem separações: as grávidas e mães ficam em aposentos separados; assim como as de maior periculosidade, como as que cumprem pena por assassinato ou aquelas que cometeram crime contra menores. Todas fazem as refeições no próprio alojamento, porque no local não existe espaço para refeitório.

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