Quarta, 21 de Fevereiro de 2018

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Moradores do Alemão e da Penha rompem silêncio imposto pelo CV

4 DEZ 2010Por AGÊNCIA ESTADO, RIO04h:05

Com o passar do tempo, a pacificação dos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, começa a tornar-se realidade para os moradores dos conjuntos de favelas, que rompem a lei do silêncio imposto pelos traficantes do Comando Vermelho (CV) e falam sobre suas expectativas para o futuro. Os mais velhos adotam cautela ao se pronunciar. Eles já testemunharam outras ocupações policiais que terminaram com a volta do tráfico

"Aqui, nós preferimos ficar neutros, porque nunca se sabe o dia de amanhã", afirma o comerciante José Felipe da Silva, o "Zé do Metrô", de 66 anos. Morador há 39 anos do Alemão, ele tem o comércio na Rua da Assembleia, onde acontece o baile funk. Localizada no alto da Favela da Alvorada, o local tem vista para a zona norte do Rio com o Cristo Redentor e o cume do Pão de Açúcar ao fundo. Zé do Metrô é chamado de "relíquia". A gíria é usada na favela para aqueles que moram há muito tempo na comunidade.

"Na favela, manda quem pode, obedece quem tem juízo. A única coisa que a ocupação interferiu até agora para mim é que apareci na TV levando uma ‘dura’ e minha casa foi revistada duas vezes", brinca o desempregado Paulo Henrique Alves da Silva, de 43 anos. A grande expectativa é que a ocupação se traduza em oportunidades. "Adoro morar aqui e não troco por nada. Agora, o governo deveria criar uma escola de música para que nossos filhos tivessem outras atividades, além do colégio. É preciso ocupação para as crianças. Quem faz o cara virar vagabundo é a cabeça e não o lugar onde ele mora, o morro", afirma o estofador Clóvis Marcelino de Souza, de 35 anos, pai de três filhos, com idades entre 16 anos e 10 meses.

 Mais jovens
"A influência do tráfico ainda se reflete no ceticismo dos mais jovens. Aqui está um saco sem baile. Antes, com os bailes, isto fervia e vinha gente até da zona sul. Estou pensando em sair daqui", disse a vendedora A., de 25 anos, moradora da Favela Alvorada. Ela era uma das muitas jovens adeptas da maratona de bailes funk no conjunto de favelas, que começava com o baile da Canitá, por volta das 18 horas, nas sextas-feiras, prosseguia nos sábados, com o funk na Favela Alvorada, e emendava aos domingos com o baile na Favela da Fazendinha.

Ser jovem nos complexos do Alemão e da Penha representa o isolamento social do resto da capital carioca. Bonita e bem vestida, a vendedora A. não corresponde ao estereótipo de moradora de uma zona de guerra. Ela não tem constrangimento em dizer que esconde onde mora. "Há dois meses, eu estava ficando com um cara em uma boate, em Ipanema. Eu contei onde morava e ele achou que era brincadeira. Quando viu que era verdade, ele ficou mudo. Perguntei se tinha preconceito. Ele disse que sim, virou as costas e foi embora", conta.

Nem todos pensam como a jovem. No entanto, para criticar o tráfico, os moradores ainda exigem o anonimato. "Sempre que ia para casa, eu respirava fundo, porque sabia que ia encontrar aquele bando de meninos armados. Nos dias de baile, cansei de acordar com barulho de gente fazendo sexo na minha porta. Quando saía de casa, as camisinhas ainda estavam no chão", conta uma moradora da Vila Cruzeiro. Segundo ela, mulheres que moravam fora da comunidade e até moradoras recebiam até R$ 500,00 para tirar a roupa dentro de uma jaula improvisada, chamada de "gaiola". "As menores, chamadas de novinhas, sempre recebiam mais", revelou a moradora.

 Sucessores
Todos lembram as histórias dos criminosos que transformaram as favelas em fortalezas do tráfico. Nos anos 70, os policiais justiceiros dominavam a favela. Eles foram expulsos da favela por Orlando Conceição, o "Orlando Jogador", que comandou o local até 1994, quando foi assassinado por Ernaldo Pinto de Medeiros, o "Uê". O crime deu início a uma disputa pelo Alemão, que terminou com a derrota de Uê e a chegada de Márcio dos Santos Nepomuceno, o "Marcinho VP", ao controle do Alemão e do CV. Em 1996, ele foi preso e substituído por Elias Pereira da Silva, o "Elias Maluco". Este foi preso em 2002 após comandar a morte do jornalista Tim Lopes. Fabiano Atanásio da Silva, o "FB", herdou a Vila Cruzeiro e Luciano Martiniano da Silva, ficou responsável pelo Complexo do Alemão. Ambos estão foragidos.

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