segunda, 16 de julho de 2018

economia popular

Microcrédito ganha terreno e fecha 140 mil contratos

12 DEZ 2010Por Roberta Scrivano (AE)00h:00

Para acessar as ruelas da comunidade de Heliópolis, zona sul da capital paulista, há duas opções: a pé ou de moto. Na profissão há 12 anos, o agente de crédito Rafael Rey Rey, supremo conhecedor da maior favela de São Paulo, opta pela motocicleta e vai de porta em porta para oferecer empréstimo. Por dia ele fecha pelo menos dez contratos de microcrédito (nome dado ao empréstimo para pessoas de baixa renda). Os valores vão de R$ 300 a R$ 40 mil.

Sem comprovação de renda e residência, uma das condições para conseguir o dinheiro é responder a um longo questionário socioeconômico. Outra regra é ter um negócio dentro da comunidade há pelo menos seis meses. O empréstimo precisa ser aplicado no empreendimento, com o objetivo de melhorar a renda mensal das famílias da comunidade.
Essa modalidade de empréstimo existe no Brasil há décadas. Mas só neste ano a venda do produto ganhou corpo. Desde janeiro, o número de contratos mensais registrado pelos bancos supera 140 mil. Em 2009, não ultrapassava a barreira de 100 mil mensais. Levando-se em conta os anos anteriores, a quantidade de contratos nunca tinha passado de 80 mil, segundo dados do Banco Central (BC).

Entre os grandes bancos, o que tem maior presença no microcrédito é o Santander. Na sequência, estão os estatais Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil. Depois vêm Itaú e Bradesco. O HSBC não trabalha com o produto. “O mercado nacional para o microcrédito é imenso. Hoje, menos de 10% da demanda potencial é atendida”, comenta Lauro Gonzalez, coordenador do grupo de microfinanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Os motivos, segundo Gonzalez, são vários, mas o principal é a baixa taxa de juros cobrada na modalidade. Para empresários, a taxa máxima permitida por lei é de 4% ao ano. Há também o microcrédito para pessoas físicas. Essa opção deve ter taxa máxima de 2% ao ano. Santander e Bradesco não trabalham com a modalidade pessoa física.

Sheila Fernandes Teixeira, de 48 anos, mora em Heliópolis desde 1977. “Quando eu cheguei aqui havia apenas três fileiras de barracos. Não era uma comunidade”, conta. Há seis anos, ela conheceu o microcrédito. “Nunca tinha ouvido falar. No começo dá receio, mas hoje já sei lidar bem com o empréstimo.”

Sheila já não sabe dizer quantos empréstimos fez. “O primeiro foi no valor de R$ 300 e o último, de R$ 40 mil”, conta, salientando que só renova o contrato depois do término do pagamento do empréstimo anterior.

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