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Campo Grande - MS, terça, 23 de outubro de 2018

traumas

Medo de dirigir

16 SET 2010Por 13h:37

SCHEILA CANTO

Já foi o tempo em que o trânsito em Campo Grande era fluido, devido as suas ruas largas. O crescimento rápido da Capital, somados ao “despejo” de cerca de 100 veículos novos por dia nas ruas da cidade e as inúmeras obras de recuperação ou ampliação, resultou num caos diário. Hoje nos aproximamos do verdadeiro circo de horrores instalado nas principais vias e avenidas no horário de rush. Motoristas alucinados e mal-educados transformam o asfalto, muitas vezes, em misto de hospício e terra sem lei. Situações e motivos mais do que suficientes para assustar gente que, por insegurança, trauma ou frustração desistiu ou abandonou a carteira de motorista, se redimindo à dependência e à privação dos táxis e coletivos.
Muita gente com fobia de direção chega a ser aprovada no teste, após passar pela autoescola. Mas a habilitação continua ali, guardada a sete chaves na gaveta. “Tirei minha aos 23 anos e dirigia sem problemas até engravidar, durante a gestação era meu marido quem conduzia para me poupar. Acredito que meu medo tenha começado nesta época, mas não sei identificar o porquê. Só me aventurava a pegar o volante na estrada até que um dia capotei o carro em cima de uma ponte, com meus dois filhos no banco traseiro e meu marido do banco carona. Agora não pego o carro de jeito nenhum”, lembra Eunice da Silva Leal, 35 anos.
Ela conta que já fez muitas tentativas, sua habilitação continua válida, porque sempre consegue renová-la, mas ela não passa de mais um documento na carteira. Já tentei de tudo, até psicoterapia. “A psicóloga me disse que meu problema está mais relacionado à fobia social, ou seja, tenho medo de dirigir na cidade porque me preocupo com a avaliação de terceiros. Tenho medo de errar e ser criticada ou ridicularizada no trânsito e como cada dia tem menos gente com paciência, fica mais difícil eu vencer esse obstáculo. Na estrada como não havia ninguém para me avaliar, sentia-me mais segura. Mas, depois do acidente, não consegui superar o trauma. O sentimento de impotência é horrível ao mesmo tempo que o medo é paralisante, algo que foge à minha força e meu controle”, desabafa Eunice.
Lyda Maymone, 37 anos, também vive o mesmo problema. Há mais de dez anos passou por uma autoescola, fez a prova e passou de primeira. Com a habilitação recém-conquistada, era ela quem dirigia no trânsito tumultuado, porém organizado, de Brasília. “Em uma determinada ocasião fiz uma ultrapassagem para em seguida entrar numa rotatória, em vez de diminuir a velocidade na curva fechada, acelerei. Estava com meu marido do lado, capotamos e graças a Deus nosso prejuízo foi só material, pois o carro deu perda total para o seguro. Dali em diante o medo e a insegurança tomaram conta de mim. Fui incentivada por inúmeras vezes a assumir a direção, mas sempre arrumava uma desculpa. Com o tempo fui me acomodando e ficando na dependência total do meu marido”, conta Lydia.
Há um mês o marido de Lydia embarcou em missão para o Haiti, onde ficará por seis meses, foi então que a necessidade de dirigir bateu forte à sua porta novamente. “Às vezes me pego chorando porque tenho um carro novo à minha disposição na garagem e tenho de fazer tudo a pé, de ônibus ou táxi. A cobrança também está vindo bem forte da minha filha adolescente que estuda e faz curso de inglês longe de casa. Além disso, me sinto privada em todos os sentidos e a angústia me atinge em cheio”.
Motivada pela fé, Lydia acabou voltando à autoescola e já está na terceira aula prática. “No primeiro dia que peguei o carro tive um ataque de choro horrível. Toda a cena do acidente veio em minha memória. O instrutor de início não sabia o que fazer, mas me acalmou e pediu para eu não desistir. Já fiz três aulas e senti um pouco de avanço, mas é como derrotar um gigante por dia. Agora, é uma questão de necessidade aliada à autoestima, sei que preciso vencer e estou lutando para isso”, afirma confiante.
Lydia e Eunice são alguns dos muitos exemplos de pessoas que por algum trauma deixaram de dirigir. Mas, ambas apontam que a falta de respeito, solidariedade e educação no trânsito são fatores determinantes para aumentar ainda mais o medo, que poderia ser também chamado de fobia pois vêm acompanhado de vários sintomas físicos como diarreia, taquicardia, tremor, etc.
Todos os fatores enumerados pelas entrevistadas nada mais são do que características típicas do trânsito. Confusão, imprevisibilidade, velocidade, tudo isso faz parte. E assusta, dizem os psicólogos.

Perfeccionismo
Longe de serem barbeiras, as mulheres que procuram tratamento psicológico têm um perfil bem definido. São mulheres perfeccionistas. Não gostam de ser observadas, criticadas ou de errar. O problema é que o trânsito gera situações que fogem ao controle pessoal, existem outros motoristas ao redor. Elas deixam o carro de lado para não terem de se submeter a isso. O que fazemos é levar essas mulheres a entender que a direção, como qualquer outra habilidade motora, só melhora se for praticada. Quando mais você treina, melhor você dirige. Mas elas querem começar dirigindo bem. São muito críticas quanto ao próprio desempenho.  
De acordo com os psicólogos o medo é uma censura, uma trava, um bloqueio, um freio. Mas só vai ser ruim se você deixar. Controlá-lo é saudável e necessário para sua vida andar. Eliminá-lo é impossível e perigoso, porque ele serve para protegê-la. A melhor saída é fazer dele um aliado, que significa dirigir com cautela. Assim, é possível superar também a obsessão pela perfeição e as culpas.

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