Sexta, 23 de Fevereiro de 2018

ECONOMIA

Medidas devem valorizar o dólar, dizem analistas

7 JAN 2011Por ESTADÃO04h:47

O mercado de câmbio reagiu com tranquilidade ao anúncio das medidas do Banco Central (BC). O dólar subiu levemente (0,78%), para R$ 1,687. O efeito no médio e longo prazo, porém, deve ser mais intenso, porque os bancos têm três meses para se adaptar à nova realidade. É provável que, conforme revertam as posições para se adequar aos parâmetros estabelecidos pelo BC, as cotações sejam afetadas.

O diretor executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, estima que o dólar pode ir para algo entre R$ 1,80 e R$ 1,85 quando os bancos terminarem o movimento. "O BC eliminou um ponto de manipulação no câmbio", argumentou. "Sinalizou que não quer mais manter o jogo que prevaleceu no governo Lula, no qual a valorização do real funcionava como linha de apoio à política monetária."

Nehme e outros especialistas explicaram que os bancos encontravam muita facilidade para especular no câmbio. Em síntese, faziam uma operação que envolvia três pontas. Pegavam dinheiro emprestado no exterior, onde as taxas de juros estão em níveis historicamente baixos. Revertiam os dólares obtidos em reais e os aplicavam aqui dentro em instrumentos variados - como títulos públicos e outras modalidades de empréstimos.

Como nos últimos anos o real praticamente só se valorizou, ganhavam duas vezes: na própria variação cambial e na taxa de juros brasileira, a mais alta do mundo tanto em termos reais (sem inflação) quanto nominais.

Exemplo prático: um banco tomava US$ 1 milhão emprestado no exterior pagando 1% ao ano de juros. Fazia o câmbio aqui a R$ 1,80, ou seja, conseguia R$ 1,8 milhão. Aplicava a 10,75% ao ano, valor da taxa básica de juros hoje. Em um ano, teria praticamente R$ 2 milhões. Se o real tivesse se valorizado para, por hipótese, R$ 1,75, o valor total em dólar seria de US$ 1,140 milhão. O lucro da operação seria de US$ 130 milhões (US$ 1,140 milhão menos US$ 1,010 milhão do empréstimo original). Em porcentagem, quase 13% em um ano, remuneração ímpar no mundo financeiro atual.

Para o gerente de câmbio da Fair Corretora, Mario Battistel, a medida anunciada pelo BC será diluída ao longo do tempo. "Temos uma tendência de valorização do real, uma vez que os dólares continuam vindo para cá. Como os bancos têm 90 dias para se adequar à nova regra, devem reduzir a posição vendida ao longo desse período, sem um impacto imediato", analisa.

O chefe de Pesquisas das Américas do Nomura Securities em Nova York, Tony Volpon, discorda dos colegas. Para ele, a tendência para o real continua a ser de valorização. Ele estima que a taxa de câmbio atingirá R$ 1,72 no fim de março e baixará gradualmente ao longo dos meses seguintes, até atingir R$ 1,62 no encerramento de 2011.

Volpon reconheceu, no entanto, que a decisão do BC de adotar um depósito compulsório de 60% sobre posições vendidas em câmbio vai trazer alguns efeitos de curto prazo que vão valorizar o dólar ante o real.

Uma delas é sinalizar que o governo "não está feliz" com o câmbio a R$ 1,65, o que visa a deixar o investidor mais cauteloso e diminuir posições vendidas em dólar.

Expectativa. Grande parte dos analistas acredita que a medida anunciada ontem foi apenas a primeira do governo Dilma Rousseff para tentar inibir a valorização do real.

Para o estrategista do banco WestLB, Roberto Padovani, o governo adota a "flutuação suja" do câmbio para agregar incertezas aos investidores quanto à trajetória do dólar."O regime de câmbio flutuante não deve mudar e é caracterizado por poder oscilar para cima e para baixo." / COLABOROU MÁRCIO RODRIGUES

Mantega elogia
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, avaliou que a medida do BC é positiva porque reduz a rentabilidade dos bancos que apostam na alta do real. "A medida vai ao cerne da questão."



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