Terça, 20 de Fevereiro de 2018

?Lula teimou, eu também teimei?, diz o diretor Fábio Barreto

1 JAN 2010Por 14h:45
     Da redação
        Houve um momento, pouco antes de iniciar a rodagem de "Lula, o Filho do Brasil", em que Fábio Barreto vacilou. Em entrevista realizada na tarde de 17 de dezembro, em São Paulo, dois dias antes do acidente de carro no Rio que o levou ao coma, o diretor admitiu a dúvida, mas disse que ela não se referia ao filme que queria fazer, e sim à sua capacidade de concretizá-lo. Após três revezes seguidos - "Bela Donna", "O Mistério de Jacobina" e "Nossa Senhora de Caravaggio" -, Fábio sabia que jogava alto. Outro fracasso poderia acabar com sua carreira. O próprio Lula o salvou. "Sua mãe dizia que ele devia teimar. Lula teimou e conseguiu. Eu também teimei..."
         Acusado de fazer filme chapa branca e eleitoreiro para garantir a vitória da candidata do presidente Lula na próxima eleição, o diretor se consolava com alguns raros elogios e os convites para exibições na ONU e no Parlamento europeu. Segundo ele, "Lula, o filme, é mais crítico do que parece. As pessoas é que não estão sabendo ver."
        
         Você esperava a polarização provocada por seu filme?
         Sabia que ia despertar polêmica, mas não estava preparado para o teor homicida das agressões. Partiram para o achincalhe, contra mim, minha família, meu pai. Num debate no Rio, um debatedor disse que, se Lula tivesse vergonha, pediria que o filme só fosse lançado em 2011. Mas o filme não é do Lula! E quanto a influenciar a eleição... O Lula não está pegando carona no possível sucesso do filme, nós é que pegamos carona na popularidade dele para tentar cravar um sucesso popular. Quem é contra Lula deveria ter vergonha na cara e assumir que o perigo, para eles, não é o filme, mas a popularidade do presidente.
        
         Você votaria na candidata do presidente Lula?
         Não sei. Meu voto não é partidário nem ideológico. Como profissional de cinema, pratico a ideologia da exposição para meus filmes. Pode parecer oportunismo, mas não é. Escolho candidato pelo programa. Já votei contra o Lula, na reeleição de Fernando Henrique, porque achava importante que ele tivesse o segundo mandato. Acho que esses ataques ao filme, e ao Lula, revelam muito sobre quem os faz. O cara é hoje o político mais popular do mundo. Em vez de orgulho, ou de tentar entender, as pessoas só têm esse ódio irracional.
        
         Você planejava um docudrama. O que o levou a fazer ficção?
         A própria vida do Lula. O manancial dramático do livro da Denise Paraná era tão forte, principalmente a relação mãe/filho, que seria um desperdício não dar a essa trama toda a sua intensidade As pessoas encaram como política o que, para mim, é um grande melodrama.
        
         Seu filme abre uma porta e começa contando a história do pai de Lula. Essa parte termina com outra porta que se fecha e isso lembra "Rastros de Ódio". John Ford foi influência?
         Claro. Quando eu era garoto, Glauber (Rocha) frequentava nossa casa e nos levava, o Bruno (seu irmão, também diretor, Bruno Barreto) e eu, para ver faroestes. No nosso roteiro, a história de Aristides é importante porque ela esclarece o que Lula diz, quando seu pai morre. Segundo ele, Aristides era seu lado ruim, como a mãe é o lado bom. Me acusaram de não mostrar a maldade. Mas, para que, se já mostrei a do pai? Não ia adiantar, de qualquer maneira, porque as pessoas veem o filme do jeito que querem, e elas estão vendo errado. Dizem que é chapa branca. Luis Bolognesi, que eu não conhecia e é um grande roteirista, ficou impressionado quando Lula arma para obter a liderança no sindicato. Isso é ser chapa branca? A melhor resposta que posso dar é o filme. Mas vejam o filme que fiz, não o que algumas pessoas criaram antecipadamente em suas cabeças, para rejeitar.
        
         O desfecho, com as imagens da posse, é excessivo. Por que não terminar antes?
         Entendo seu ponto de vista, mas isso é coisa de crítico. O coroamento dessa história é a presidência. Para o grande público que o filme quer atingir, ver o Lula presidente é a prova de que toda a luta vale a pena.
        
         O filme não usa leis de patrocínio, mas tem verbas de empresas que participam de concorrências do governo. Não é uma coisa delicada?
         Você não está querendo sugerir que a Camargo Corrêa virou uma potência por causa do governo Lula, não? Pegue o exemplo da Globo. A empresa não é exatamente uma porta-voz do Planalto, mas a Globo está dando todo apoio. Por quê? Porque é bom negócio para ela. O cara tem mais de 70% de aprovação. A Globo liga sua marca ao filme e segue batendo no governo, quando acha que deve bater. Vai me dizer que ela está com o rabo preso também?
        
         Você deixou muita coisa de fora. Por quê?
         A parte da Miriam (Cordeiro) não entrou porque ela não autorizou Filmei o desabamento do piso, no velório da mulher, uma coisa que aconteceu, mas de tão excessiva também não dava para mostrar Desisti. Filmei muitas cenas de sexo. Minha versão inicial tinha quase três horas. Cortei 40 e tantos minutos que espero botar no DVD.
        
         Serviço - " Lula, o Filho do Brasil" (Brasil 2009 - 130 min.) - Drama. Dir. Fábio Barreto. Com Glória Pires e grande elenco. 12 anos. Cotação: Bom (do Estadão)

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