Terça, 20 de Fevereiro de 2018

Investigado, Anchieta Jr. emprega filho de delegado da PF

24 DEZ 2010Por FOLHA ONLINE13h:12

Responsável pelas investigações dos supostos crimes eleitorais cometidos pela campanha do governador reeleito José de Anchieta Jr. (PSDB), o superintendente da Polícia Federal em Roraima, Herbert Gasparini, tem um filho em cargo de confiança em órgão do governo.

Marcos Eduardo Gasparini de Magalhães, ainda estudante de direito, foi nomeado em março deste ano chefe da seção de análise de benefícios do Iper (Instituto de Previdência de Roraima).

Segundo o governo, pelo cargo comissionado o estudante recebe cerca de R$ 800. Para assumi-lo, de acordo com o governo, não é preciso concurso nem formação acadêmica, e sim "capacidade" de trabalho.

Marcos Eduardo, também de acordo com o governo, já pediu sua exoneração, pois irá se mudar de Boa Vista.

Procurado, o superintendente preferiu não se pronunciar. A assessoria da PF no Estado, no entanto, disse que o estudante conseguiu a indicação por mérito próprio, e não com sua ajuda.

O Iper já assinou, mas ainda não cumpriu, um acordo com o Ministério Público Estadual para preencher suas vagas somente por meio de concursos públicos.

NÚMERO DOIS

Já Rebeca Gomes Teixeira -mulher de Alexandre Ramagem, segundo na hierarquia da PF em Roraima- se beneficiou de um erro jurídico do governo para ter o direito a R$ 660 mil do Estado.

Assim como Gasparini, Ramagem investigará as suspeitas de compra de voto em favor do governador Anchieta Jr., suscitadas por gravações reveladas pela Folha na semana passada. Ele nega.

Delegada da Polícia Civil, ela entrou com uma ação contra o Estado de Roraima para conseguir uma promoção em sua carreira.

Depois de ganhar em primeira instância, conseguiu confirmar a decisão também na segunda instância, pois o governo não anexou os documentos necessários para que seu recurso fosse ao menos recebido e julgado pelo Tribunal de Justiça de Roraima.

Embora todos os outros delegados que entraram com pedidos idênticos também tenham ganho em primeira instância, apenas outra delegada, além da mulher de Ramagem, manteve a decisão no TJ, disse o governo.

Por 66 dias, a decisão inicial a favor de Rebeca foi mantida, sem ser de fato cumprida. Como o juiz estipulou multa diária de R$ 10 mil em favor de Rebeca em caso de descumprimento, o erro do Estado deu a ela o direito de receber R$ 660 mil.

Segundo a assessoria da PF, Ramagem está viajando e por isso não se pronunciaria. A reportagem não localizou Rebeca. A Procuradoria-Geral do Estado negou que o erro tenha sido intencional.

OUTRO LADO

Procurados, Herbert Gasparini e Alexandre Ramagem não se pronunciaram. O governo de Roraima, por meio de sua assessoria, disse não haver qualquer ligação entre eles e a gestão de José de Anchieta Jr. (PSDB).

A Folha encaminhou e-mails com perguntas para os dois delegados da Polícia Federal, dentre elas se a nomeação do filho de Gasparini e o erro do Estado em favor da mulher de Ramagem poderiam configurar conflito de interesses, visto que eles têm a função de fiscalizar os supostos crimes eleitorais do governador Anchieta --que ele nega ter cometido.

Mas, de acordo com a chefia de gabinete dos dois, nenhum deles iria comentar as situações. Segundo a assessoria da PF em Roraima, elas tratam de aspectos das vidas particulares dos delegados.

A assessoria do governo disse que a indicação do filho de Gasparini não teve nenhuma influência do governador e que "não há nexo" entre os fatos relatados pela reportagem e a atuação da PF.

Francisco das Chagas Batista, procurador-geral do Estado, disse que o erro, no caso de Rebeca Gomes Teixeira, mulher de Ramagem, foi "técnico", e não proposital.

"Entramos com um agravo de instrumento [recurso negado pelo TJ] e com um pedido de suspensão de liminar, concomitantemente. O Judiciário é que demorou para analisar o pedido", disse, sobre os 66 dias em que a decisão de primeira instância em favor de Rebeca vigorou.

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