domingo, 22 de julho de 2018

Sul do Estado

Indígenas da região sul temem aumento da violência durante festas de fim de ano

11 DEZ 2010Por Vivianne Nunes15h:01

As duas aldeias de Dourados, Jaguapiru e Bororó, possuem uma população aproximada de vinte mil indígenas e um cenário de pobreza e violência bastante crescente. Se antes era comum assitir pela mídia, uma sequencia de suicídios motivados pela falta de terras e pelo uso e abuso de bebidas alcoólicas, o que se vê hoje é uma série de crimes, assassinatos, violências barbaras provocadas e encorajadas pelo uso de drogas.

A figura dos pajés e caciques ainda existem nas aldeias, mas são os capitães os grandes responsáveis pelo encaminhamento de agressores à polícia e até mesmo por algumas investigações internas. Cesar Isnardi é o capitão da aldeia Bororó. Pelo telefone ele narrou ao Portal Correio do Estado a preocupação da comunidade indígena com a proximidade das festas de fim de ano. “Nossa comissão está preocupada com a chegada de muitos índios que trabalham nas usinas”, afirmou. Para ele, é nessa época que os trabalhadores retornam às aldeias com o pagamento do fim do ano e aumenta o uso de álcool e drogas, consequentemente, aumentam também, os desentendimentos atenuados pelo uso das substâncias.

Isnardi reclama a falta de policiamento dentro das aldeias que, segundo ele, são vilarejos bem próximos de Dourados, como se fossem “bairros”, mas a sensação é de “abandono”, reclama. Ele também acredita que trabalhos sociais deveriam ser feitos, principalmente entre os adolescentes, como maneira de reduzir os índices de usuários de drogas.

Na semana passada a indígena Márcia Soares Isnardi, foi morta e arrastada em meio a um matagal na aldeia Bororó. Ela foi vista na noite anterior na companhia de um amigo, com quem estava bebendo. O ex-marido é um dos suspeitos pelo crime. Na tarde de domingo, populares encontraram apenas a ossada de uma jovem de 16 anos que havia saído de casa há 11 dias e estava desaparecida. Ela saiu para receber o dinheiro por um serviço prestado e não retornou mais. A causa da morte ainda não é conhecida, já que o corpo estava em avançado estado de putrefação.

Esses são apenas os casos mais recentes de violência envolvendo indígenas, mas o número de ocorrências policiais ocorridos apenas este ano em aldeias de Dourados, Caarapó, Juti, Douradina e Maracaju já chega a 74, número pelo menos 23% menor do que no ano passado, quando foram registrados 96 casos. Isso levando em consideração os números de 2009 até o último dia do ano e os deste ano até o dia 07 de dezembro. O número de homicídios se mantém até o momento nessas aldeias, sendo que em 2009 foram dez mortes e até agora outras dez, totalizando vinte mortes nos últimos dois anos apenas nessas localidades.

Os casos de lesão corporal registrados até o último dia 07 chegam a 52, sendo que deste total, 32 ocorreram em aldeias de Dourados.

A indigenista especializada em relações internacionais da Funasa (Fundação Nacional da Saúde do Índio) de Dourados, Polliana Figueiroa, enfatiza o fato de que os povos indígenas já perderam a maior parte de sua característica inicial. Alguns povos ainda mantém a tradição mas em Mato Grosso do Sul, principalmente na região sul do Estado, o que se vê são grandes bairros de periferia. A migração de indígenas de outras regiões também favorece o aumento da criminalidade. A eles, falta esclarecimento e a situação só vai melhorar quando a questão de terras for levada à sério. Pelo menos é nisso que acredita Polliana.

Apesar de casos bárbaros e constantes, o capitão da aldeia Jaguapriu, Vilmar Machado, diz acreditar em uma queda dos índices registrados este ano com relação ao anterior. “Sou motorista da Funasa e todos os dias eu carregava de cinco a seis pessoas esfaqueadas ou espancadas. Este ano foi bem menos”, afirmou.

Ele concorda com o uso das drogas como sendo um dos fatores principais do problema da criminalidade e ressalta “Vendem aqui na cara de todo mundo e ninguém faz nada. Dizem que é a polícia federal que cuida de questões indígenas, mas eles nunca vêm até aqui”, reclama. Para ele, o trabalho da Polícia Militar tem sido uma “mão” muito grande. Vilmar diz que o tráfico é muito comum dentro das aldeias. “O pessoal vem comprar dentro da aldeia e eu mesmo sei de várias bocas de fumo aqui, mas ninguém faz nada. A maioria dos usuários são adolescentes. “A gente não tem autoridade para ir até a casa das pessoas e fazer uma geral, precisamos de polícia”, reclama.

Sobre a cultura indígena Vilmar lamenta: “O Ministério Público e a Funai batem muito em cima dessa questão mas a verdade é que aqui a cultura está praticamente morta e ninguém toma providência”. Nessas localidades existem três etinias: guarani, caiuá e terena. “Dificil encontrar um índio puro, estamos todos muito misturados já”, afirmou o capitão que reclama: “Estamos tentando resgatar alguma coisa, mas as crianças não querem mais aprendera a cultura (…) As escolas da comunidade dão aulas de dança, língua, mas a maioria fala só o português e não tem interesse por aprender”.

Trabalho

A falta de emprego aos povos indígenas também é uma das questões apontadas como o grande problema da criminalidade nas aldeias. “A maioria trabalha nas usinas e na construção civil. Mas temos aqui índios formados em várias áreas. Temos técnicos agrícolas, administradores, todos muito discriminados acabam indo para as usinas”, reclama.

Autoridade no assunto

Recentemente, a vice-procuradora geral da República, Deborah Duprat, esteve em Mato Grosso do Sul para participar do XI Encontro Nacional da 6ª Câmara de Coordenação e Reisão do Ministério Público Federal e na ocasião, chegou a dizer que o problema das comunidades indígenas está intimamente ligado à insuficiência de terras, enfatizando que a situação de Dourados, além de indigna é a maior tragédia mundial conhecida na questão. Para ela a falta de terras ainda é o principal problema relacionado à todos os outros problemas indígenas. Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indígena do País com 70 mil habitantes.

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