segunda, 16 de julho de 2018

Índia “acorda” e quintuplica compras do Brasil em dois anos

16 JAN 2011Por Raquel Landim (AE)00h:00

Depois da China, é a vez da Índia. Um novo gigante asiático despertou seu apetite pelas matérias-primas brasileiras, provocando temores de que se repita uma relação comercial "colonial" de exportação de commodities e importação de produtos manufaturados.

Nos últimos dois anos, as vendas de produtos básicos para a Índia quase quintuplicaram, saindo de US$ 370 milhões em 2008 para US$ 1,74 bilhão em 2010. Os principais alvos do "ataque" foram o petróleo e o açúcar, mas as perspectivas são positivas para outros produtos como carne de frango.

Em 2010, o petróleo liderou as vendas brasileiras para os indianos, gerando uma receita de US$ 1,24 bilhão. Foi seguido pelo açúcar bruto, com US$ 875 milhões. A Índia saiu de uma posição insignificante entre os clientes do petróleo brasileiro para se tornar o terceiro maior comprador, depois de Estados Unidos e China. Procurada, a Petrobrás não quis comentar o assunto.

Os indianos também foram o segundo maior importador do açúcar brasileiro, logo depois da Rússia. A explosão de vendas foi provocada por uma forte seca em 2009 e em 2010 no País. A Índia ocupa a vice-liderança da produção mundial de açúcar, atrás do Brasil. Em épocas de boas safras, como a atual, torna-se exportadora.

"O mercado indiano tem esse caráter cíclico. No longo prazo, no entanto, questões estruturais vão aumentar a importação. A tendência é que predomine o lado importador", disse Carlos Barros de Murilo Melo, diretor comercial de açúcar da Cosan, uma das maiores exportadoras mundiais do produto.

Segundo André Sacconato, economista da consultoria Tendências, a Índia tem cerca de 500 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza que serão inseridas no mercado consumidor nos próximos anos, graças ao forte crescimento da economia. Isso significa um novo mercado para as commodities brasileiras.

Com 1,1 bilhão de pessoas e uma das mais altas densidades demográficas do mundo (são 345,5 pessoas por quilômetro quadrado contra 22,5 no Brasil), a Índia não tem terra disponível para a agricultura, além de sofrer de um problema crônico de falta de água. O processo repete o que ocorreu com a China e torna o Brasil um parceiro estratégico.

Desafios
O setor agrícola brasileiro, no entanto, ainda precisa superar muitos desafios para conquistar o mercado indiano. De acordo com André Nassar, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), as barreiras tarifárias são altas na Índia, os canais de distribuição interna são precários, e a logística para trazer produtos do Brasil é bastante limitada

Os indianos têm um esquema de proteção para o setor agrícola, que incluiu cotas e tarifas de importação médias de 65%. Nos anos 80, o país fez uma "revolução verde" com a ambição de se tornar autossuficiente em alimentos. A produção agrícola, no entanto, ficou baseada em pequenos produtores, o que reduz a escala e a produtividade.

Por enquanto, a estratégia da Índia é controlar a oferta de produtos no mercado interno, reduzindo temporariamente as barreiras apenas para atender à demanda. Essa discricionariedade na condução do comércio exterior torna complicada a vida de setores que querem exportar mais para a Índia.

Desde 2008, os frigoríficos brasileiros tentam vender carne de frango no mercado indiano, sem sucesso. Acompanharam visitas presidenciais e entraram em contato com grandes distribuidores, mas a tarifa de importação do produto chega a 100%. Além disso, o mercado é precário. Nas ruas da Índia, em vez de frango congelado, os consumidores compram galinhas vivas, em péssimas condições de higiene.

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