Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

DRAMA

Garotas se vendem por até R$ 5,00

8 OUT 2010Por ESTADÃO09h:00

O grande posto abandonado e escuro na cidade de Canas (Vale do Paraíba) é o local escolhido pelos caminhoneiros para dormirem depois de um dia de trabalho. Várias carretas ficam enfileiradas. Tudo indica à primeira vista de que não há movimento no local. Mas são precisos apenas alguns minutos para que as garotas de programas comecem a circular nos corredores formados pelos veículos.

Em um grupo de seis ou sete garotas, uma delas chama a atenção pelo jeito mais delicado. A adolescente C também é a mais bonita e por isso a mais procurada pelos caminhoneiros. Em um intervalo de duas horas em que a reportagem permaneceu no local, foram poucos os minutos em que ela permaneceu fora das cabine dos caminhões.

"Eu sou maior de idade, tenho 18 anos", disse a garota, que, no entanto, não soube de pronto dizer o ano em que havia nascido. Depois desistiu de dar uma resposta convincente: "Eu não tenho que responder nada pra você. Sou maior de idade e pronto." Na noite de terça-feira, ela era a única que aparentava ser menor de idade, mas alguns caminhoneiros acusam que isso se repete em outros dias.

C contou que mora em Guaratinguetá e três vezes por semana pega carona e vai para o posto em Canas - 15 minutos de viagem pela Via Dutra. O preço dos programas são estabelecidos de acordo com o local em que é feito. Nas cabines dos caminhões custam R$ 25. O preço é mais caro para os veículos - R$ 30. O mais caro é quando acontece em uma casa praticamente abandonada, mas onde a proprietária aluga quartos para as garotas. R$ 35, porque R$ 5 são pelo quarto. As saídas duram em média 15 minutos.

A insistência em dizer ser mais velha é para não ser "expulsa pelas outras garotas". As prostitutas do posto de Canas não permitem que menores de idade fiquem por ali para evitar problemas com a polícia. C quer evitar ficar de "vai e vem" na Dutra, o que é reservado para as adolescentes que não conseguem ficar nos postos. Isso significa que elas entram nos caminhões para os programas e descem quilômetros a frente. Depois retornam em uma outra carona/programa.

A cerca de 10 quilômetros dali, em Lorena, o cenário é totalmente diferente. O posto de gasolina de referência está ativado e bem iluminado. Uma grande rede de restaurantes de estradas instalou uma unidade ali há pouco mais de um mês, tornando o local em parada dos ônibus intermunicipais. Mas por outro lado as garotas de programas evidenciam que sua situação é mais precária. Enquanto no primeiro lugar as mulheres se maquiam e usam saias justas e botas, aqui todos usam calças de agasalho sujas e moletons surrados.

O problema aqui é o crack. Os traficantes inclusive ficam ao lado de quem se prostitui - a maioria travestis - andando de bicicleta de um lado para o outro. Quando os caminhões reduzem a velocidade para entrar no posto, eles começam a andar ao lado da cabine oferecendo os programas. O valor chega a ser um quinto do que recebem as garotas do outro posto.

Onde são feitos os programas? "Lá trás, atrás do muro do posto", diz uma menina de cerca de 1,5 metro, rosto de criança e roupa surrada. Para parecer experiente, ela fuma um cigarro e fala palavras de baixo calão. Ela fala que o programa custa R$ 10, mas depois reduz o preço pela metade.

O objeto dos programas é comprar as pedras de crack que são usadas depois em um grande galpão abandonado ao lado do posto. O dinheiro passa automaticamente para os traficantes de bicicleta e depois o usuário corre para o local abandonado. Os funcionários do restaurante dizem que ali costuma acontecer rodeios em alguns fins de semana. Nos outros dias, ele fica totalmente escuro e só as luzes da droga acesa aparecem.


 

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