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ENTREVISTA

Frei Venildo Trevisan fala sobre família, celibato, rumos da Igreja Católica e pedofilia

Frei Venildo Trevisan fala sobre família, celibato, rumos da Igreja Católica e pedofilia
18/05/2014 18:00 - CRISTINA MEDEIROS


Nascido em berço italiano e muito religioso, Frei Venildo Trevisan, aos 20 anos, anriu-se para um caminho que até hoje percorre, a vida religiosa. Aos 74 anos, mostra-se vibrante e realizado ao relatar sua trajetória, que já o fez passar anos em alguns estados da região Centro-Oeste. Em Campo Grande, atuou na Paróquia Nossa Senhora de Fátima. Colaborador do Correio do Estado, que publica vários de seus artigos, o frei expressa nesta entrevista sua opinião sobre o atual momento da Igreja Católica nas mãos do Papa Francisco; sobre celibato , pedofilia e homossexualismo, além de deixar uma bela mensagem aos jovens. 
 
CORREIO PERGUNTA - Em primeiro lugar, gostaria que explicasse a diferença entre ser padre e ser frei.
FREI VENILDO TREVISAN  A Igreja tem sua história própria construída e conduzida pelos mais diversos movimentos e organizações religiosas, culturais e sociais.  Com o passar dos tempos, foram surgindo organizações religiosas com tarefas específicas, tanto do sexo masculino quanto do feminino. Surgiram os padres e as freiras. Algumas organizações, porém, preferiram uma denominação própria e distinta dos demais. São os chamados freis: são os Carmelitas, os Dominicanos e os Franciscanos. Ser frei é uma opção pessoal de viver em fraternidade, observando os votos de pobreza, castidade e obediência.  Ser padre é um serviço prestado à Igreja especialmente no campo pastoral. O frei também pode ser padre quando assumir um trabalho pastoral para auxiliar a diocese.
 
"Ser frei é uma opção pessoal de viver em fraternidade, observando os votos de pobreza, castidade e obediência”
 
Como se deu o seu discernimento vocacional para a vida religiosa? 
Sou o quarto filho de uma família de 14 filhos. Minha família é de origem italiana, muito religiosa e muito unida. O maior e o mais sagrado desejo dos pais era ter filhos e filhas religiosos. Em minha família somos três: Eu - Frei Capuchinho - e duas freiras. Entrei no Seminário com 11 anos de idade. Nem tudo estava claro e seguro. Muitas dúvidas perpassavam a mente. Muitas interrogações sem respostas. Mas, aos 20 anos, já na Universidade, uma luz abriu um caminho que até hoje percorro. Era membro atuante da UNE e já comprometido com a vida religiosa. Constatava que os jovens não tinham perspectivas mais sérias na vida. Havia muita insegurança na fé e nas suas convicções. Pensei muito e decidi me dedicar a esses jovens e ajudá-los a discernir com mais segurança e determinação o caminho a seguir.  Uma outra razão foi a de poder ajudar a Igreja a difundir o evangelho e organizar comunidades cristãs.
 
Poderia nos dizer de onde veio, onde atuou em MS e onde está atualmente? 
Nasci no Rio Grande do Sul, na pequena cidade do Paraí formada de famílias descendentes de italianos. Minha ação pastoral no Mato Grosso do Sul foi somente em Campo Grande. Atualmente estou em Piracanjuba, GO.
 
O senhor já atuou em várias paróquias. Viu algo em comum nelas que despertasse algum tipo de atitude a ser tomada de sua parte? 
A maior riqueza que alguém possa adquirir é poder conviver com as mais diferentes culturas, ambientes e tradições. O belo e o grandioso estão em toda parte. Não existe cultura ou civilização que seja melhor ou pior. Na minha trajetória convivi e convivo com gaúchos, mato-grossenses, goianos, mineiros, paulistas, nordestinos e índios. Há algo que me preocupa: é o avanço do comércio das drogas, do alcoolismo e da prostituição, especialmente entre os jovens. As iniciativas para enfrentar e corrigir são ainda frágeis. Mas não podemos desanimar. Temos de acreditar e continuar aperfeiçoando as iniciativas de orientação de nossos jovens e de nossas crianças.  Em nossas famílias está faltando o diálogo, especialmente entre pais e filhos. As distâncias estão cada dia maiores. Mas ainda alimento esperanças.
 
“O Papa Francisco já encantou e conquistou o mundo. É um papa diferente. Sua teologia leva a marca missionária, pastoral e espiritual"
 
São 50 anos da Paróquia Nossa Senhora de Fátima em Campo Grande. O senhor poderia resumir o papel dessa comunidade para a Capital, já começando por dizer quem foi Fátima? 
A Paróquia Nossa Senhora de Fátima surgiu no ano de 1964, fruto do empenho e da dedicação do muito querido e saudoso Frei Gregório de Protásio Alves. Grande devoto da santa, que em 1917 se manifestara a três humildes pastorzinhos: Jacinta, Francisco e Lúcia. Pediu-lhes muita oração e muita penitência para o fim da primeira guerra mundial e pela conversão da Rússia. Essa devoção se difundiu rapidamente no mundo. E Frei Gregório, como grande devoto dela, iniciou essa comunidade sob sua proteção. Ainda hoje é vista como uma paróquia alegre e muito sensível aos sentimentos e necessidades do povo campo-grandense e de outros devotos da santa. Ela é expressão da alegria franciscana que os frades e o povo transmitem aos visitantes. É ainda um centro de formação dos jovens, tanto para a vida religiosa e sacerdotal, quanto para a vida leiga engajada nos movimentos e pastorais paroquiais.
 
O novo Papa, Francisco, iniciou processo de mudanças na igreja mundial. O principal deles, “a igreja dos pobres para os pobres”. Como o senhor vê esse novo momento da igreja católica? 
O Papa Francisco já encantou e conquistou o mundo. É um papa diferente. Sua teologia leva a marca missionária, pastoral e espiritual. Aponta para uma igreja dos pobres para os pobres nas mais diferentes periferias do mundo. É um Papa desejado pela sociedade. Corajosamente está assumindo a responsabilidade de renovar a Cúria Romana, organização totalmente conservadora e manipuladora do poder. E ele está mostrando a face que é preciso mostrar ao mundo. Homem simples e corajoso, humilde e sábio, atento e serviçal. Vejo esse momento da igreja com muita esperança e entusiasmo. O Papa está inaugurando um tempo novo, uma igreja simples e humilde, acolhedora e dialogante.
 
Francisco criou, ainda, uma comissão para combater os casos de pedofilia. Como o senhor acredita que esta realidade poderia mudar? 
Esta realidade precisa mudar. É preciso levar mais a sério o apelo de Francisco. Os reitores e animadores vocacionais precisam ser mais exigentes e mais atentos na escolha e aceitação dos jovens que pretendem ingressar em nossos seminários.  Além disso, será preciso ter a coragem de confiar à justiça os que cometerem esse crime de pedofilia. O Papa foi muito claro a esse respeito. Infelizmente nossos seminários e nossos conventos foram refúgio para muitos portadores dessa doença. 
 
O senhor é contra ou a favor do celibato? E o casamento homossexual? 
Ainda antes de surgir a Igreja existia o celibato consagrado como uma opção pessoal. E a Igreja, logo nos primeiros séculos do Cristianismo, viu com bons olhos essa opção e continuou incentivando quem optasse por essa forma de vida. O celibato não é imposição de Deus. É opção livre e espontânea de quem deseja viver como consagrado a Deus dessa forma. Pessoalmente, também escolhi essa forma de  vida. Olhando para o ministério sacerdotal creio que é hora de rever essa condição. Vida de consagrado é vida celibatária. O ministério precisará se estender aos não celibatários. Casamento entre homossexuais (ou homoafetivos): precisamos distinguir casamento, ou contrato social, que é de direito civil e matrimônio, que é um sacramento. O casamento civil, ou contrato social, tem por fim último a segurança pessoal e a segurança social. Merece todo o respeito e todo o crédito. O sacramento é a união sagrada de um homem com uma mulher pelo vínculo do amor e pela aliança de ambos com Deus. Esse sacramento se concretiza e se estende na geração e educação dos filhos. 
 
“O celibato não é imposição de Deus. É opção livre e espontânea de quem deseja viver como consagrado a Deus dessa forma. Pessoalmente, também escolhi essa forma de vida. Olhando para o ministério sacerdotal creio que é hora de rever essa condição”
 
Acredita que as missas deveriam acontecer de acordo com a realidade de cada país, ou os mesmos textos devem ser mantidos como a séculos ocorre? 
Os textos litúrgicos são reconhecidos historicamente como patrimônio da humanidade e não podem ser alterados. Porém, a maneira de celebrá-los e vivenciá-los precisa se adequar e atualizar de acordo com a tradição e a cultura de cada povo e de cada região. Vejo a necessidade urgente de renovar a metodologia, a linguagem e as vestes litúrgicas em nossas celebrações de acordo com os ambientes que evangelizamos.
 
O senhor escreve para o Correio do Estado. Quais temas procura abordar para melhorar a vida de quem lê? 
Agradeço ao Correio do Estado esse espaço para nossa reflexão semanal. Quando escrevo penso sempre no povo. Procuro incentivar o cultivo da fé, da esperança e do bem. Procuro revelar o quanto amo a Deus e o quanto desejo que todos o amem.
 
Teria uma mensagem aos jovens? 
Aos jovens com muito carinho desejo que não percam o endereço da esperança. Alimentem bons sonhos. Creiam no amor. Construam um caminho que seja orgulho dos que vierem depois. Creiam em Deus. Creiam em si. Façam de si mesmos um desafio para si próprio. Vejam que vale a pena viver.
 
Perfil
74 anos. Natural de Paraí, RS. É bacharel em Filosofia Pura e Teologia. Sacerdote há 47 anos. Como frei e religioso, atua há 55 anos. A ação pastoral teve início em Porto Alegre, RS. De 1970 até hoje atuou em Piracanjuba (GO), Campo Grande (MS), Brasília (DF), Anápolis (GO). Goiânia (GO), Rio Verde (GO). Sempre priorizou formação de lideranças, especialmente entre os jovens. Trabalha muito no campo da comunicação, em seus mais expressivos meios: imprensa escrita, rádio e televisão. E o foco principal sempre é a formação cristã.

Felpuda


Há quem diga que o horário eleitoral já começou. Isto porque lives estão pipocando nas redes sociais de pretensos candidatos, principalmente aqueles que querem cadeiras nas câmaras municipais. O mais interessante é que somente agora muitas dessas figurinhas estão descobrindo os problemas enfrentados pelos cidadãos dos mais diferentes setores. Até então, cuidavam apenas do “seu quadrado”. E só!