quarta, 18 de julho de 2018

INTERNET

Facebook enfrenta as telas de cinema

2 OUT 2010Por 13h:17

ESTADÃO

Seria possível que o indivíduo que criou o Facebook, que conectou tantas pessoas a ponto de ser difícil de acreditar (500 milhões e não para aí) alguém incapaz uma ligação pessoal mais próxima? É possível que o bilionário mais jovem do mundo, um garoto de 26 anos cuja criação permitiu às pessoas se unirem em 207 países, usando 70 línguas, seja o jovem mais solitário do planeta?

Se isso soa para você como uma lorota, você não conhece metade da história. Escrito por Aaron Sorkin, dirigido por David Fincher e ancorada pelo desempenho perfeitamente ajustado de Jesse Eisenberg, o filme A Rede Social, que chegou ontem aos cinemas americanos, conta uma história excelente.

Mas, embora hoje nada esteja mais em moda do que o fenômeno Facebook, A Rede Social é um filme bem sucedido porque sua história é o ingrediente de filmes dramáticos arquetípicos. Ele une a tradição de épicos como A Vida do Dr. Ehrlich, Madame Curie e Edison, o Mago da Luz, com a história familiar do poder corrupto da ambição e do sucesso, que permite que o público sinta que as vidas quotidianas dessas pessoas têm mais significado do que aquelas dos ricos e famosos. Em alguns aspectos, A Rede Social foge desses filmes biográficos citados e um deles é que, na interpretação de Jesse Eisenberg, o protagonista Mark Zuckerberg é retratado como um jovem estudante de Harvard, de 19 anos, extremamente antipático, não heroico, socialmente desajeitado e temivelmente inteligente.

Jesse está excelente no papel de uma pessoa cujo sucesso é alimentado por ressentimentos de todas as formas e tamanhos. O seu Mark Zuckerberg é tão consumido pelo ímpeto de conquistar cada vez mais status que ninguém é páreo para ele na combinação de um objetivo implacável e na frieza desinteressada que ele consegue expressar.

Embora o filme seja baseado no livro Bilionários por Acaso, de Ben Mezrich, o roteirista Aaron Sorkin realizou sua própria pesquisa da história e o tratamento que deu a ela não foi nada redundante. Mesmo que tenha se falado que A Rede Social teria alguns elementos de Rashomon (em que a história é mostrada a partir de vários pontos de vista), essa é uma pista falsa. Os personagens do filme naturalmente têm pontos de vista diferentes e os detalhes podem ser contestados, mas o impulso básico da história jamais balança, independente dos fatos narrados.

Rejeição. A Rede Social começa propondo que foi um ressentimento social muito específico que impeliu Zuckerberg na sua trajetória para os bilhões. O filme tem início num bar de universitários perto do campus de Harvard no outono de 2003, com Zuckerberg sendo passado para trás pela namorada.

Sair com ele, ela diz asperamente, é "como ter um encontro com um aparelho de musculação". Furioso por ser rejeitado dessa maneira, ele entra pisoteando em seu dormitório e, com a ajuda do colega de quarto e seu melhor amigo, Eduardo Saverin (interpretado por Andrew Garfield), ele se vinga invadindo sistemas da universidade e criando o Facemasch, um site que permite aos estudantes votarem quais as garotas "mais quentes" de Harvard.

Em duas horas ele consegue 22 mil respostas e derruba o sistema da universidade.

Uma proeza que chama a atenção de dois gêmeos remadores e pertencentes à elite da escola, Cameron e Tyler Winklevoss ( interpretados, com a ajuda do computador, por dois atores diferentes, Armie Hammer e Josh Pence).

Eles e o amigo Divya Narendra (Max Minghella) contratam Zuckerberg para trabalhar num serviço de marcação de encontros da universidade que eles criaram, chamado Harvard Connection. Quase simultaneamente, Zuckerberg, financiado pelo seu amigo Saverin, começa o seu thefacebook, que no final se transformou no que você já sabe.

Depois disso, A Rede Social salta alguns anos no futuro, focalizando processos judiciais acrimoniosos abertos contra Zuckerberg pelos irmãos Winklevoss e o seu amigo Saverin, e todos eles, embora por diferentes razões, são muito frustrantes para ele, ao ver seus antigos colegas e amigos processando-o.

Parte da energia do filme vem do vigor da eficiente edição de Angus Wall e Kirk Baxter, saltando das cenas em que ele presta depoimento para a descrição dos fatos que levaram à criação do Facebook, e Zuckerberg se tornando rico e famoso. E aí entra também a figura do cofundador do Napster, Sean Parker (Justin Timberlake), personalidade sedutora, mas que também provoca muitas dissensões.

Realidade. Uma outra pista falsa sobre A Rede Social é sobre como são reais os personagens e o filme. É falso porque filmes, mesmo os documentários bem intencionados, sempre distorcem a realidade.

O fundador do Facebook se recusou a cooperar com o filme, e Eisenberg, que o interpreta, não conhece Zuckerberg pessoalmente. "Boa parte do filme é ficção", disse fundador do Facebook a Oprah Winfrey na semana passada. "Estamos falando de minha vida, portanto eu sei que ela não é tão dramática assim."

Os partidários de Zuckerberg afirmam que o filme é injusto com ele, mas diante do que disse um cronista da New Yorker que o entrevistou, caracterizando o fundador do Facebook como "uma mistura estranha de timidez e petulância" a interpretação de Eisenberg não parece estar equivocada. Tudo o que realmente importa em A Rede Social é que ele convence em termos de filme, e é isso que ele é. Zuckerberg, mesmo a contragosto, deve concordar com isso.

Alguém que doou US$ 100 milhões para as escolas públicas de Newark, Nova Jersey, no momento em que este filme foi apresentado no Festival de Cinema de Nova York, provavelmente está preocupado que, com todos os seus bilhões, ele pode ficar prisioneiro, e para sempre, desse retrato inclemente que o fil0me faz dele, da mesma maneira que a talentosa atriz Marion Davis foi prejudicada pela personagens sem talento baseada nela, no filme Cidadão Kane.

O Facebook pode ser poderoso, mas filmes convincentes têm uma força que não pode ser descartada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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