Campo Grande - MS, sábado, 18 de agosto de 2018

ESCÂNDALO DE CAMPINAS

Ex-prefeito de Corumbá acusa delator

3 JUN 2011Por PORTAL RAC, CAMPINAS15h:03

 

O ex-diretor de Planejamento da Prefeitura de Campinas Ricardo Chimirri Cândia negou as revelações feitas em delação premiada por Luiz Augusto Castrillon de Aquino, ex-presidente da Sanasa, e o acusa de ser mentiroso e querer passar a “imagem de pessoa arrependida   de bom menino”, em entrevista exclusiva dada ao Correio ontem. Ele negou ter relação com a empresa de economia mista e disse ter apenas recebido uma “pequena importância” de Aquino para pagar custos da campanha de 2008. 

Em sua primeira manifestação após ser preso acusado de participação em fraudes na Administração, ele respondeu às perguntas por e-mail, em entrevista intermediada pelo seu advogado, Ralph Tórtima Stettinger Filho, sob a condição de que as respostas fossem mantidas na íntegra.

Cândia, que ficou detido por uma semana, é acusado de receber e distribuir propina no suposto esquema de corrupção da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S.A. (Sanasa), facilitar a aprovação de empreendimentos imobiliários a determinadas empresas e de se favorecer com a instalação de empresas de telefonia celular em terrenos de sua propriedade. Ele também manteria uma relação direta com a primeira-dama e ex-chefe de Gabinete Rosely Nassim Jorge Santos, acusada de ser a chefe do suposto esquema de corrupção. À reportagem, ele disse ser inocente e acreditar “na Justiça”. 

Na delação de Aquino, o senhor é acusado de participar do esquema e manter uma relação direta com a primeira-dama, recebendo e transportando dinheiro de propina. Qual era sua relação com ela? 

Ricardo Chimirri Cândia - Primeiramente, posso dizer que nunca participei de qualquer situação envolvendo a Sanasa. Nunca conversei com qualquer dos empresários que participaram das licitações sob suspeita. Somente os conheci em razão da prisão decretada. Eu sequer conhecia as empresas envolvidas. Tanto assim que não existe ligação telefônica da minha pessoa para eles, nem deles para mim. Nenhum deles tocou no meu nome em seus depoimentos ou falou qualquer coisa a meu respeito. Isso demonstra a minha desvinculação da Sanasa. Quanto ao senhor Aquino, ele mentiu ao envolver o meu nome nessa situação. Na verdade, dentro do partido, eu não o apoiava. Ele tinha pretensão de suceder o Dr. Hélio (prefeito Hélio de Oliveira Santos) e eu apoiava outro grupo, no caso o do Carlos Henrique (ex-secretário de Segurança Pública). Em razão disso, chegamos a ter uma discussão bastante áspera. Inclusive a partir de então não conversamos mais. Sequer fui convidado para o casamento da filha dele. Quanto ao que ele diz, nunca estive juntamente com ele e a Dra. Rosely no endereço da Rua Artur de Freitas Leitão. Como já esclareci aos promotores, em uma única oportunidade, após uma reunião política, o senhor Aquino me fez a entrega de pequena importância em dinheiro, que seria destinada a pagamentos para a convenção da campanha de 2008. Tratava-se de recurso de campanha e que não mantinha qualquer vinculação com a Sanasa. Não sei dizer como ele obteve esse recurso. Nessa oportunidade, a Dra. Rosely não estava presente. Inclusive, para poder melhor esclarecer essa questão, já manifestei aos promotores do Gaeco o meu interesse em ser acareado com a pessoa do Sr. Aquino. Quem sabe assim ele se lembre o que efetivamente aconteceu, corrigindo a injustiça que cometeu ao envolver o meu nome nessas questões. Conheço a Dra. Rosely desde quando vim para Campinas, convidado para participar da campanha do Dr. Hélio. Meu contato com ela era mais próximo enquanto eu estive na Prefeitura. Depois disso, raramente nos falamos ou nos encontramos. Tanto assim que nas interceptações telefônicas não aparece qualquer conversa minha com ela, nem com o Dr. Hélio. 

O senhor confirma o que está sendo acusado pelo MP, de que seria responsável pela divisão e recebimento de dinheiro de propina? 

O Ministério Público não me acusa disso. Não tenho dúvida que o Aquino quis me prejudicar pessoalmente pela inimizade política existente entre nós, pois ele sabe muito bem que no período em que estive na Prefeitura não mantinha qualquer relação com a Sanasa. Muito menos depois. Pelo que foi apurado, os empresário que foram presos reconheceram isso. Era ele quem exigia e recebia propina. Inclusive, alguns reconheceram que depois que ele saiu da Sanasa isso deixou de acontecer. Não sei se havia divisão nem quem a fazia. Agora fica fácil o Aquino fazer acordo de delação com os promotores, para se livrar do que fez, e passar a atingir adversários políticos, principalmente aqueles que o expurgaram. Sempre me diziam que o Aquino não era pessoa honesta, nem confiável. Desonesto ele já confessou ser, ao assumir tudo o que fazia, exigindo vantagem indevida quando das contratações de obras. Pelo que ouvi dizer, foi por isso que ele foi afastado da Sanasa. Agora, ele fica querendo passar a imagem de pessoa arrependida, de bom menino.

Apesar de ter se desligado da Prefeitura, como diretor de Planejamento, o senhor continuava a ter trânsito livre por lá. Qual era sua relação com o alto escalão do governo de Hélio? 

Eu frequentava a Prefeitura profissionalmente, como engenheiro civil que sou, e em razão da experiência que adquiri no períodoem que lá trabalhei. Nunca solicitei qualquer privilégio, seja para mim ou para os meus clientes. Como engenheiro civil, auxiliei na análise de viabilidade e elaboração de projetos, como qualquer outro profissional da área. Há muitos engenheiros e ex-diretores que frequentam profissionalmente a Prefeitura, quase todos os dias. Eu ia muito pouco e não há nada ilícito nisso. Conheço algumas pessoas do alto escalão, todavia não mantenho contato íntimo com qualquer deles. Apenas sou mais próximo do Carlos Henrique. O Dr. Hélio e a Dra. Roseli nunca estiveram em minha casa, nem eu na deles. Essa é a maior prova de que não somos íntimos. Também, raramente nos falamos ao telefone. Nem me lembro quando foi a última vez em que nos falamos. Basta fazer o cruzamento das ligações e os promotores terão certeza do que estou falando. 

O senhor também é acusado de participar de um esquema de corrupção na aprovação de empreendimentos imobiliários. Segundo o MP, o senhor atuaria junto aos órgãos públicos, facilitando a aprovação desses empreendimentos mediante pagamento de propina, inclusive há escutas telefônicas que o comprometem. O que senhor diz sobre essas acusações? 

Não há qualquer prova disso. O empresário que me procurou há mais de dois anos, o Sr. Ilário Bocaletto, não meprocurou por intermédio da Dra. Roseli. Quando ele me procurou eu apenas o orientei no sentido de que deveria buscar os trâmites normais, o que de fato ele fez. Não é verdade que eu tenha solicitado qualquer valor em troca de qualquer serviço. Eu até poderia ajudá-lo profissionalmente, mas não fiz. Também não é verdade que eu tenha me encontrado com ele tantas vezes. Pelo que me recordo,estive com ele apenas uma única vez. Tanto assim que nunca fala os ao telefone. Nem ele me ligou nem eu para ele. Como então ele fala que nos encontramos tantas vezes? Também, quem é da área imobiliária conhece bem essa pessoa, sabe como ele é complicado. Acho que os promotores deveriam procurar saber um pouco mais a respeito dessa pessoa. Também sei que ele tem lado político e está querendo pegar carona na situação, para favorecer amigo dele que há muito quer assumir a Prefeitura de Campinas. Tanto assim que ele foi “espontaneamente” procurar os promotores, contando muitas inverdades, mudando o que de fato aconteceu. É bastante estranho. Inclusive a meu pedido, meu advogado peticionou aos promotores solicitando que eu seja ouvido a respeito desses fatos, inclusive que estou à disposição para ser acareado com essa pessoa. Quanto às escutas, na oportunidade em que fui ouvido pelos promotores, esclareci cada um dos diálogos sobre os quais fui questionado. Não há nada de ilícito ou imoral nessas conversas. Nada que indique a obtenção de favor ou privilégio em aprovações junto à Prefeitura, em troca de qualquer vantagem financeira. Se for necessário, volto ao Ministério Público para esclarecer qualquer dúvida que ainda possa existir. 

Outra acusação é sobre as antenas de celular instaladas em áreas de sua propriedade. O senhor confirma que se favorecia
da posição que ocupava frente ao governo Hélio? 

Trata-se de outra acusação absurda. Inclusive sobre esse assunto eu me antecipei aos promotores, fornecendo a eles documentos a respeito dessa questão. Também forneci cópia dos nossos esclarecimentos à imprensa. No dia em que fui preso estava marcado o meu depoimento para falar a respeito dos terrenos. Só por isso não pude esclarecer essa questão. É muito injusto inclusive o que estão fazendo com os meus filhos, expondo a imagem deles de forma absolutamente desnecessária e injusta, principalmente quando sabem que sou eu quem administro as empresas. Atualmente, a nossa empresa cuida principalmente da aquisição de terrenos, para posterior locação às empresas de telefonia celular. São elas que instalam as antenas. A partir da assinatura do contrato de locação, todo o procedimento de autorização perante a Prefeitura é de responsabilidade das empresas de telefonia. Nunca fui à Prefeitura para cuidar dessas questões. Nem telefonei a ninguém pedindo algum privilégio. Tanto assim que não há nada que diferencie a situação das antenas que estão em terrenos da nossa empresa das outras tantas existentes em Campinas. Onde está a prova de algum privilégio ou do envolvimento de algum funcionário público com isso? Ela não existe. 

Por fim, quero dizer que respeito as investigações do Ministério Público e as decisões do Judiciário, muito embora eu esteja inconformado com muitas injustiças a que venho sendo submetido, principalmente por parte da alguns órgãos da imprensa. Como sempre disse, vou comparecer perante à Promotoria de Justiça e o juiz, sempre que convocado, pois o que mais quero é ter o direito de me defender, de poder esclarecer todas essas questões. Não vou deixar Campinas, pois muito gosto e admiro esta cidade e por isso a escolhi para criar meus filhos, para viver com a minha família. Acredito no Judiciário e sei que a justiça às vezes tarda, mas via de regra ela acontece. É somente isso o que espero.

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