Segunda, 19 de Fevereiro de 2018

REINTEGRAÇÃO

Ex-inimigos dividem sala de aula na Colômbia

26 DEZ 2010Por ESTADÃO07h:00

Uma sala de aula onde o passado é tema proibido. Guerrilheiros, paramilitares, vítimas do conflito armado e jovens em risco estudam juntos numa espécie de supletivo. Apesar da formação educacional, a prioridade do Centro de Formação para a Paz e a Reconciliação (Cepar) é a convivência.

 O projeto da Prefeitura de Medellín é um meio de acompanhar a reintegração dos desmobilizados - ex-combatentes que fizeram um acordo com o governo colombiano para abandonar a atividade rebelde - e garantir que eles possam seguir com estudos profissionalizantes e até mesmo uma graduação.

Para entrar no prédio, todos são revistados. Cartazes espalhados por toda parte pregam o fim da violência. Os livros da biblioteca foram doados e alguns professores são ex-combatentes formados pela escola, que voltaram para apoiar o projeto.

Cerca de 1.300 alunos estudam no local - todos integrantes de projetos sociais - e podem terminar a formação básica em dois anos. Todos recebem uma ajuda de custo do governo de 380 mil pesos (cerca de R$ 330), além de apoio psicossocial, pela vulnerabilidade e os traumas provocados pelo conflito armado. A maioria é de analfabetos funcionais - 70%. Eles não tinham nem a documentação básica quando chegaram ao Cepar.

"A educação é uma espécie de desculpa para a convivência, que é nossa prioridade. A escola é um dos lugares de socialização mais importantes da vida de uma pessoa. Nosso maior temor era como reunir antigos inimigos no mesmo lugar", contou Lina Colorado, coordenadora do Cepar. Segundo a educadora, no início, os grupos estudavam em horários distintos, para não se encontrarem no prédio. Aos poucos, as turmas foram mescladas. "Isso não significa que a convivência seja perfeita, que nunca houve conflito entre os estudantes", lembra a coordenadora.

Quando o estudante faz a matrícula, sabe que o colega de classe pode ter sido parte de um grupo inimigo. "Mas eles sabem que todos aqui têm as mesmas dificuldades, estão fazendo o mesmo esforço para reingressar na sociedade e a convivência acaba sendo tranquila. Além disso, eles sempre têm um espaço para falar, defender sua versão, ouvir e serem ouvidos. Isso facilita muito o processo disciplinar",diz Lina.

Famílias crescem no local, já que foi criada uma creche para os filhos dos alunos. O Ceparcito, como é chamado, recebe crianças entre 0 e 4 anos enquanto as mães estudam. Cerca de 15% dos estudantes são mulheres. "É uma oportunidade de fazer também o acompanhamento dos filhos dos desmobilizados", conta Lina.



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