Quinta, 22 de Fevereiro de 2018

TRABALHADORES

Estrangeiros no Brasil enviam US$ 1 bi por ano para famílias

16 NOV 2010Por Jamil Chade (Genebra)03h:10

Bolivianos, paraguaios, argentinos, equatorianos e outros trabalhadores estrangeiros que vivem no Brasil já mandam para suas famílias no exterior mais de US$ 1 bilhão por ano. O novo fenômeno está sendo registrado pelo Banco Mundial como um dos sinais da mudança da posição da economia brasileira. Depois de ser por anos um dos principais receptores de remessas de dinheiro de emigrantes no mundo, o Brasil passou a ser também origem das remessas para o exterior.

Segundo dados publicados pelo Banco Mundial, o volume de dinheiro saindo do Brasil mais do que dobrou nos últimos cinco anos. Grande parte tem origem nos salários pagos a estrangeiros latino-americanos trabalhando em São Paulo e outras metrópoles brasileiras. Só na Capital paulista, a estimativa é de que existam 200 mil bolivianos.

A expansão registrada no Brasil vai contra a tendência mundial dos últimos três anos. Segundo o Banco Mundial, a recessão internacional gerou uma queda nas remessas de emigrantes pelo mundo e só em 2010 é que o volume de envios voltou a crescer. Com o desemprego atingindo taxas recorde em países que receberam um volume importante de imigrantes nos últimos dez anos, o resultado foi uma queda das remessas em 2008 e 2009.

No ano passado, a contração foi de 5,5%. Para 2010, o Banco Mundial já espera uma recuperação, de 6% e um fluxo total de US$ 325 bilhões. O valor fará com que as remessas terminem o ano a um montante três vezes o tamanho da ajuda que governos ricos dão a países pobres. Há 20 anos, tanto as remessas como a ajuda eram praticamente as mesmas em dólares.

A crise acabou atingindo a América Latina de forma mais dura. Com a maioria dos emigrantes da região vivendo no olho do furacão da crise – os EUA –, a queda de remessas em 2009 foi de 12%. Em 2010, a recuperação será de apenas 2%. A alta taxa de desemprego na Espanha também afetou diretamente o envio de recursos para Equador, Colômbia e Bolívia.

No caso do Brasil, as remessas de brasileiros vivendo no exterior subiram de US$ 3,5 bilhões em 2005 para US$ 5 bilhões em 2008. Mas a crise econômica e o desemprego na Europa, Japão e Estados Unidos geraram uma queda ainda maior que a média mundial: de quase 20% no valor enviado de volta ao Brasil em 2009.

Segundo o Banco Mundial, a constatação agora é de que as remessas de brasileiros ao País em 2010 vão ficar estagnadas. Em comparação a 2008, o volume de dinheiro que famílias brasileiras receberão neste ano é quase US$ 900 milhões a menos.

Em 2010, o Brasil deve terminar como 24º maior recipiente de remessas de emigrantes que trabalham no exterior e que, a cada mês, enviam dinheiro para casa.

O número é apenas uma fração dos US$ 55 bilhões que indianos espalhados pelo mundo mandarão de volta a seu país de origem. A China vem em segundo lugar como maior recipiente, cerca de US$ 51 bilhões. O México está na terceira colocação, com US$ 22,6 bilhões recebidos principalmente de sua comunidade que vive nos Estados Unidos.

Um dos problemas é o desemprego que também atingiu os brasileiros trabalhando em países ricos. Em locais como a Espanha, a estimativa é de que 40% dos estrangeiros estejam desempregados. Na Irlanda, brasileiros fazem fila para voltar ao Brasil, mesma situação vivida no Japão. Mas o Banco Mundial também destaca que a valorização do real também afetou o volume de remessas. "Antes, enviávamos 100 euros para cada e isso dava para duas semanas de gastos em Anápolis", conta Ana Cristina, que vive em Dublin e trabalha como empregada doméstica. "Agora, esse mesmo dinheiro só dá para uma semana. Quase não vale mais a pena mandar dinheiro", disse.

Leia Também