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Esmeralda, faceira e malabarista

19 ABR 2011Por MONTEZUMA CRUZ09h:10

Malabarista ou dançarina, dependendo da visão de quem se aproxima e a conhece, Esmeralda é mesmo muito faceira. Nessa condição se tornou mascote do Pantanal Hotel em Miranda, a 201 quilômetros de Campo Grande. Ali ela vive desde 2009, muito bem cuidada pelo pantaneiro e funcionário do hotel Esmael Roriz Ramos, o “Compadre”, que a chama de “filha”.

Um ano depois de chegar à nova morada e três anos depois de ser salva e resgatada por ele de uma área na mira de contrabandistas, essa fêmea foi muito bem aceita pelo pessoal da casa e pelas pessoas que ali se hospedam e acordam com o seu forte grasnar. 

“Esmael cuida da Esmeralda desde que ela caiu do ninho; ele é uma pessoa simples, dedicada e amorosa com os animais”, relata a gerente do hotel Lucilene Wedekin. Esmael não trabalhava no dia em que visitamos o hotel.

Da família das araras-azuis grandes (Anodorhynchus hyacinthinus), essa ave considerada um dos símbolos do Pantanal e uma parte da Floresta Amazônica, se impõe: anda no poleiro para lá e para cá, faz malabarismo e dança. E ai de quem não observá-la: parece que Esmeralda demonstra suas habilidades a fim de reunir as pessoas ao seu redor.

Entorta o pescoço, ensaia piruetas, se chacoalha, dança. Faz isso o tempo todo, com alegria nos olhos negros e agilidade na ponta do bico desmesurado que aparenta ser maior que o próprio crânio. Revistas científicas dizem que ele é “o mais forte de todos os bicos.”

Apesar de tudo, cuidado! O maior psitacídeo do mundo pode descer do poleiro e usar a sua eficaz defesa. Afinal, o quintal do hotel passou a fazer parte do seu mundo e ela não tem ali a companhia de semelhantes animais.

Fitando os frequentadores da piscina e os jogadores de sinuca, a 12 metros do seu habitat, ela acompanha o movimento. Senhora da situação, quebra com força impressionante sementes de palmeiras (cocos) servidos em seu prato, comendo-os com voracidade. Já o coco de bocaiuva, quando aparece, lhe é servido no próprio cacho.

Se não estivesse ali, provavelmente essa fêmea teria dois filhotes por cria, embora, na maioria das vezes só um sobrevive, conforme estudos científicos. No entanto, o destino de Esmeralda é mesmo entreter os hóspedes do hotel.

Segundo Lucilene  Wedekin, a única cobrança da arara pelos shows diários ocorre lá pelas 17h, quando ela bebe suco de laranja e devora o conhecido bolinho “cueca virada” (açucarado e com canela em pó). “Nem é preciso alguém ir buscá-la; ela não espera e vem”, comenta. Planando, em voo rasante, ela vai para a frente do hotel e exige cuidados para não ser levada por algum esperto, e o mundo está cheio deles.

Esmeralda faz um escândalo se não for atendida dentro das suas sublimes necessidades: ser paparicada e alimentada.

A exemplo de outros bichos que galgam os degraus da fama pelas mãos dos donos, a mascote mirandense aparece no TV Guia Cidades e no YouTube. “O hotel está mais conhecido”, diz Lucilene.

O Complexo do Pantanal une alguns projetos de preservação e deles resultou a salvação dessa espécie da lista de aves e pássaros ameaçados de extinção. Pesquisadores do Instituto Arara-Azul instalaram 182 ninhos artificiais e monitoram o total de 367 ninhos cadastrados em 54 fazendas, localizadas no Pantanal em Aquidauana Miranda, Rio Negro, Abobral, Nhecolândia e Nabileque. Desde 1999, o número de araras-azuis subiu de 1,5 mil para cinco mil nessa região.

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