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Incentivo

Escolas de tiro aceitam até menores de idade e pedem apenas RG e CPF

10 ABR 2011Por Estadão22h:22

Ter aulas de tiro no Brasil é tão simples quanto fazer um curso de inglês ou informática. Basta levar RG e CPF no bolso, reservar no mínimo duas horas do dia e fazer a inscrição. Essa foi a informação em sete de dez escolas consultadas pelo Estado: não há necessidade de comprovar antecedentes criminais ou passar por testes psicológicos. Em algumas delas, até menores de idade são aceitos, se acompanhados pelo responsável.

No ataque que chocou o País na quinta-feira, o desempregado Wellington Menezes de Oliveira disparou mais de 60 tiros, recarregou nove vezes seu revólver 38 e atingiu 24 adolescentes - 12 morreram. Não há provas de que ele tenha feito treinamento com armas, mas sabia o que fazia.

A reportagem fez contato com escolas com sede em São Paulo, Rio, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. As facilidades variam segundo a escola. Em uma academia de Santa Catarina, por exemplo, é possível aprender a manusear uma pistola ou um revólver com R$ 45 - valor suficiente para alugar um box de disparo e garantir um instrutor para noções básicas. Lá você paga por tiro - cada um custa R$ 2. Nada de apresentar ficha criminal ou comprovante de endereço. "O candidato tem só de assinar um termo confirmando que não tem antecedentes", explica o atendente. Menores também são aceitos.

Em nenhuma instituição é necessário ter porte de arma. Na maioria das escolas, os cursos básicos duram de quatro a oito horas, divididas em até três dias, e custam em torno de R$ 500. Ao contrário da escola catarinense, as aulas costumam ter número fixo de disparos - de 80 a 100, em revólveres e pistolas. Uma escola de São Paulo oferece, além dos disparos com esses dois modelos, dez tiros de carabina e dois com uma arma calibre 12.

Apenas três escolas consultadas informaram exigir certidão de antecedentes criminais e também entrevistas com o candidato. Em um centro de treinamento carioca, o instrutor ressaltou que aceita apenas indicações de ex-alunos - e só maiores de 25 anos. "Estamos legalizados e abertos a todos, mas é um trabalho de muita responsabilidade. Temos de ter o máximo de certeza do perfil dos alunos", disse o instrutor, que preferiu não se identificar por acreditar que a discussão sobre armas é "tendenciosa". "Quando há tragédias, sempre há uma generalização do assunto. O desarmamento, por exemplo, nunca resolveu o problema da violência", argumenta.

Passo a passo. A internet pode oferecer treinamento teórico avançado para quem pretende manusear uma arma. Vídeos detalhados ensinam, passo a passo, como carregar, segurar e atirar com uma pistola ou um revólver. Em um deles, por exemplo, depois de mostrar como funciona e explicar os benefícios do speed loader (acessório usado pelo atirador de Realengo), o instrutor afirma que é possível encontrar o equipamento por preço baixo em qualquer loja de armas. As dicas são de um grupo que "treina cidadãos para sobrevivência" na Flórida, nos Estados Unidos, e foram vistas mais de 50 mil vezes desde 2009. Em entrevista ao Estado, o irmão de Wellington disse que o assassino aprendeu "tudo na internet".

Em outro vídeo, com mais de 120 mil visitas, a estabilidade no momento de puxar o gatilho é o tema. O instrutor explica que disparar como nos filmes, com o punho na horizontal, não é garantia de bom resultado. Também mostra como a disposição dos músculos do braço pode ser importante para assegurar firmeza no momento exato do disparo, facilitando o desafio de atingir o alvo com precisão. Na maioria das instruções, parte-se do princípio de que o interessado em aprender não conhece nada sobre armas. Até aquele momento.

Desarmamento

13 mil
vidas foram poupadas entre 2001 e 2007 em consequência do Estatuto do Desarmamento (2003), segundo estudo de 2010 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da PUC-Rio

228.813
armas foram aprendidas no período citado na pesquisa

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