Sábado, 24 de Fevereiro de 2018

Endometriose, uma incógnita

30 SET 2010Por Thiago Andrade00h:00

Os avanços tecnológicos têm favorecido diversas áreas da medicina. Entre elas, o tratamento cirúrgico da endometriose, doença que acomete cerca de sete milhões de mulheres brasileiras. O número é relevante em um País no qual existem aproximadamente 90 milhões de pessoas do sexo feminino. Tendo como principais sintomas as dores intensas sentidas na região pélvica antes e durante a menstruação (dismenorreia severa), durante ou logo após o ato sexual (dispaurenia), dor pélvica crônica e nas regiões lombares, a endometriose afeta – e muito! – a qualidade de vida das pacientes e pode levar à infertilidade (dificuldade para engravidar).


Caracterizada pela presença do endométrio – tecido que reveste o útero – fora da cavidade uterina, atingindo órgãos como as trompas, ovários, intestinos e bexiga, além de outras partes do útero, a endometriose traz complicações, pois o tecido reage às oscilações hormonais femininas, sangrando durante o período menstrual. No entanto, as causas para seu aparecimento ainda são desconhecidas. Sintomas clínicos podem indicar a presença da doença, que pode ser constatada por meio de exame de toque vaginal, no qual o ginecologista pode sentir um nódulo ou cisto, exames na época da menstruação e exames de imagens como ultrassom e ressonância magnética.


“Quando a doença se encontra em estágios avançados e os sintomas são mais intensos ou ainda em casos leves que não respondem ao tratamento medicamentoso, o tratamento cirúrgico é indicado para o tratamento. Atualmente, a tecnologia robótica melhorou ainda mais a forma como cirurgia é feita”, aponta Rosa Maria Neme, médica doutora em Ginecologia pela Universidade de São Paulo, em entrevista por telefone ao Correio do Estado. Diretora do Centro de Endometriose São Paulo, ela é uma das principais referências no Brasil em relação a essa doença ainda tão misteriosa que atinge mulheres de todas as idades.

Tratamento cirúrgico


Com o desenvolvimento de sistemas cirúrgicos robóticos cada vez mais precisos e, até mesmo, inteligentes, as cirurgias para retirada dos tecidos estranhos se tornaram mais precisas e menos invasivas, diminuindo o tempo de recuperação pós-operatória e “também há menos sangramento intra-operatório, assim como a dor é menor. Para as pacientes, é o melhor a ser feito”, descreve Rosa. O tratamento cirúrgico laparoscópico sempre é preconizado para casos mais difíceis ou graves da doença.


Desde 2008, o Brasil conta com máquinas Da Vinci, o mais avançado sistema robótico cirúrgico do mundo, no seus principais centros hospitalares. Entre as melhoras permitidas por essas grandes máquinas, a possibilidade de fazer operações por meio de apenas uma incisão mínima – em média, 2,5 centímetros – e a precisão de quatro braços mecânicos que simulam os movimentos humanos têm feito com que os médicos recorram sempre que possível a eles.
“Os riscos de complicação praticamente inexistem”, aponta a ginecologista. Entretanto, os custos elevados ainda são o maior empecilho para a realização das cirurgias com os robôs. Rosa alerta que “existe certo risco de banalização da laparoscopia. Mas é necessário ter em mente que é um procedimento cirúrgico e existem casos específicos para os quais é indicado”.


Segundo a doutora, o tratamento nos estágios iniciais é, preferivelmente, “feito com medicamentos hormonais, podendo ser anticoncepcionais combinados, ou não, com baixas doses de hormônio ou, ainda, somente à base de progesterona. A atuação é sobre o estrógeno, diminuindo sua ação, pois este é o hormônio que alimenta a endometriose”, detalha. Além destes, anti-inflamatórios e analgésicos podem ser prescritos para diminuir as dores provocadas pela doença. O tratamento dura em média seis meses e, se há melhora, a cirurgia é descartada por hora.

É possível evitar?


Infelizmente, a endometriose continua sendo uma incógnita em muitos aspectos. Embora seja a doença ginecológica mais pesquisada atualmente, como lembra a ginecologista, os avanços sobre as reais causas do problema não foram desvendadas. “Mas percebemos que houve um aumento de casos entre as mulheres, principalmente com nível educacional mais elevado”, pontua. Segundo Rosa, viver bem, praticar exercícios, ter uma boa alimentação e fazer consultas médicas periódicas são medidas de prevenção. “A doença pode surgir por níveis de estresse elevados, embora não haja comprovação científica”, descreve.


Outro fator desencadeado pelo desconhecimento sobre as reais causas da endometriose é a necessidade de continuar tomando os remédios hormonais para evitar que a doença reapareça. “Mesmo depois da cirurgia, durante todo o período fértil, a paciente precisa continuar com os medicamentos, pois a doença pode retornar. Ainda não sabemos explicar o porquê, mas as pesquisas médicas deverão responder a essas perguntas em um futuro próximo”, finaliza.

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