quarta, 18 de julho de 2018

OPERAÇÃO URAGANO

Empresa pagava R$ 200 mil mensais para ganhar licitação

18 OUT 2010Por PORTAL TERRA00h:35



A empresa que administra a coleta de lixo em Dourados pagava R$ 200 mil mensais de propina pelo direcionamento da licitação que lhe permitiu explorar o serviço. O valor era dividido entre o prefeito, secretários e vereadores da cidade. Para não levantar suspeitas, um carro-forte da maior rede de supermercados local, a Comper e Forte Atacadista, era usado para transportar o dinheiro da propina. A Financial Ambiental recebia R$ 1,4 milhão por mês da prefeitura pelo recolhimento do lixo. Os detalhes da operação estão no inquérito de mais de 4 mil páginas da Polícia Federal entregue à Justiça, ao qual a reportagem do Terra teve acesso com exclusividade.
O esquema foi revelado durante as investigações da operação Uragano, que resultou na prisão de 28 pessoas e no indiciamento de outras 60 por fraudes em licitações e pagamento de propinas no segundo maior município de Mato Grosso do Sul. Entre os presos pela Polícia Federal estão o prefeito afastado Ari Artuzi (sem partido), o vice-prefeito afastado Carlinhos Cantor (PR), nove vereadores da cidade e o sócio majoritário do grupo Financial, empresário Antônio Fernando de Araújo Garcia.
O valor total desviado pelo grupo da Prefeitura de Dourados ainda está sendo apurado numa auditoria feita por técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria Geral da União (CGU). Segundo a denúncia do Ministério Público, a estimativa é de que os desvios cheguem a R$ 700 mil mensais.
A reportagem do Terra entrou em contato com engenheiro da construtora Financial, Carlos Roberto Felipe — representante legal da empresa em Dourados —, mas ele não retornou a ligação. O empresário Antônio Fernando de Araújo Garcia, da Financial Construtora, não foi encontrado para comentar o assunto. O grupo Financial atua no Estado com quatro empresas: a Construtora Financial, Financial Mineradora, a Imobiliária Financial e Financial Ambiental, que é responsável pela coleta e destinação do lixo de grandes cidades do Estado.
A reportagem também tentou falar com os responsáveis pela rede Forte Atacadista e Comper através da assessoria de imprensa da empresa, mas não obteve resposta. O grupo Comper e Forte Atacadista tem 38 anos de existência, com negócios em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Santa Catarina, Goiás e Distrito Federal. A empresa é considerada uma das dez maiores do setor no País.
Carlos Marques, advogado do prefeito afastado Ari Artuzi, negou todas as acusações. “Meu cliente nega todas as acusações, todas as gravações foram feitas pelo Passaia (ex-secretário de governo do município Eleandro Passaia) são ilegais. Ele que fazia todas os pagamentos e não foi indiciado, isso ainda tem que ser esclarecido. Não há nenhum documento que prove qualquer desvio de recursos públicos do município”, afirmou Marques.
A mesma linha seguiu Jose Vanderlei, advogado do vice-prefeito afastado Carlinhos Cantor (PR): “Meu cliente não tem ciência de nada que ocorreu em Dourados, ele esta sendo cerceado dos direitos constitucionais, ele esta afastado do cargo, tem residência fixa, as provas foram colhidas então não há motivos para prisão”.

Como funcionava
A operação Uragano nasceu de uma denúncia divulgada pela imprensa de Dourados sobre superfaturamento em operações tapa-buracos da prefeitura. As investigações da Polícia Federal se iniciaram no dia 1º de junho, quando um funcionário da empresa responsável pelas obras procurou a polícia para delatar o esquema.
O ex-secretário de governo do município Elandro Passaia que também já havia procurado a polícia para relatar as fraudes, foi o “agente” disfarçado dentro da organização criminosa. Através dos grampos e das conversas que Passaia gravou com empreiteiros, prestadores de serviços e políticos, a Polícia Federal identificou ramificações da rede de corrupção em, praticamente, todas as secretarias da prefeitura.

Leia Também