Sexta, 23 de Fevereiro de 2018

EUA

Em livro, George W. Bush justifica uso de tortura

3 NOV 2010Por ESTADÃO23h:05

O ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush afirma, em seu novo livro de memórias, que quando a CIA pediu permissão para submeter o suposto mentor do ataque de 11 de Setembro, Khalid Sheikh Mohammed, a uma forma de afogamento simulado, considerado tortura por grupos de direitos humanos, ele disse ter autorizado o procedimento. Segundo ele, com isso vidas foram salvas. 

A revelação é feita no livro "Decision Points", que começará a ser vendido nas livrarias dos EUA a partir do dia 9. O jornal The New York Times obteve uma cópia do material e comentou o livro em seu site na noite de ontem. 

O livro não é um volume de memórias convencional, mas uma reflexão sobre as decisões mais importantes na vida de Bush, incluindo a resposta aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 e a guerra no Iraque. Bush defende sua presidência, incluindo as decisões que levaram à guerra no Iraque, e também a autorização do uso de "técnicas duras de interrogatório" contra suspeitos de terrorismo capturados. 

Bush também avaliou a possibilidade de mudar de vice-presidente na disputa pela reeleição em 2004. Após muito pensar, porém, Bush decidiu manter Dick Cheney no posto. Ele disse que queria acabar com os comentários dos críticos, segundo os quais o vice seria o verdadeiro tomador de decisões, e assim "mostrar que eu estava no comando". 

Segundo o ex-líder, ele passou semanas avaliando a possibilidade de substituir Cheney pelo senador pelo Tennessee Bill Frist, então líder da maioria no Senado. Ele preferiu, porém, valorizar as qualidades de Cheney nessa parceria e manter a chapa.

 

Lamentos

Bush lamenta sua resposta demorada ao furacão Katrina, em 2005, e também por ter concordado em reduzir as tropas no Iraque após a invasão inicial, em 2003, e ainda por nomear sua amiga, a advogada Harriet Miers, para a Suprema Corte. Com dificuldades para a confirmação de seu nome pelo Legislativo, Harriet desistiu da nomeação. 

O ex-presidente dos EUA escreveu ter passado por "um sentimento nauseante" ao saber que não havia armas de destruição em massa no Iraque. De acordo com ele, a redução das tropas muito rapidamente foi "o mais importante fracasso de execução na guerra". 

Bush diz que Cheney o ajudou com parcelas importantes da base republicana. Apesar disso, recorda as críticas ao vice. "Ele era visto como obscuro e sem coração, o Darth Vader da administração", escreveu. "Eu não o tinha escolhido para se um ativo político. Eu o havia escolhido para me ajudar no trabalho. Isso foi exatamente o que ele fez", afirmou. 

O livro deixa claro que Cheney incentivou Bush a ir para a guerra. O ex-presidente afirma que o vice havia assumido a frente no tema, em um discurso de agosto de 2002 rechaçando a possibilidade de haver mais inspeções no Iraque. Cheney também discordou da decisão de Bush de demitir o secretário da Defesa Donald Rumsfeld após as eleições de meio de mandato em 2006, quando a guerra do Iraque ia mal. 

Bush lembra a pressão de Cheney para perdoar Lewis "Scooter" Libby, ex-chefe-de-gabinete do próprio Cheney. Libby foi condenado por mentir sobre seu papel no caso do vazamento da identidade da espiã da CIA Valerie Plame. Cheney também pressionou pelo perdão para Libby. Bush já havia comutado a sentença dele. 

Após Bush decidir pelo perdão ao ex-funcionário, Cheney criticou o presidente em privado, acusando Bush de deixar "um soldado no campo de batalha". O ex-presidente disse temer na ocasião pela amizade com Cheney, mas ela sobreviveu à divergência.

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