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Campo Grande - MS, terça, 23 de outubro de 2018

MEMÓRIA

Em 1987, mais ricos consumiram leite destinado aos mais pobres, que ficaram sem

Denúncia foi feita pelo jornal Correio do Estado, há 31 anos

9 AGO 2018Por EDUARDO MIRANDA15h:30

ACONTECEU EM 1987

Imagine em um país com inflação anual de 363,14% ao ano. Pela manhã, os estabelecimentos comerciais praticam um preço, no fim da noite, quase o dobro dele. Em um cenário como este, o desabastecimento é algo comum. Com medo de perder dinheiro, as pessoas - em pânico - estocavam comida. Não precisa ser economista para saber que em uma situação dessas, os que levam a pior são os mais pobres. 

Pois bem. Este cenário existiu, no Brasil, e em Campo Grande. E o Correio do Estado denunciou, na edição dos dias 9 e 10 de agosto de 1987. 

“Leite para pobres é desviado para quem não precisa”. Foi com estas palavras que o jornal chegou às bancas nestes dias. Como a reportagem mostra, o costume do brasileiro, de levar vantagem em tudo, sempre existiu. Pessoas de bom poder aquisitivo, usavam os tíquetes que o governo federal distribuía às famílias carentes para trocar por leites em supermecados e padarias, enquanto o alimento faltava para os de baixa renda. 

Escola particular

Na ocasião, João, proprietário da Panificadora Dico (que existe até hoje na Avenida Mato Grosso), depois de discutir com uma mulher que desceu de um carro juntamente com o filho, que usava uniforme do Colégio Dom Bosco, e usou tíquete de famílias carentes para trocar por leite, deu a seguinte declaração, sob testemunho de nossa equipe de reportagem: “Mas a senhora pode comprar seu leite e está aqui apresentando seu tícket? É por isso que o programa não vai adiante”, reclamou o comerciante. Na sequência, a mulher quase atacou o comerciante, disparando vários palavrões. 

Para quem não viveu essa época, ou não se lembra, conforme contextualizamos acima, durante o Plano Cruzado, o então presidente, José Sarney, estabeleceu o “Programa Nacional do Leite”, que consistia na distribuição de tickets aos carentes, que poderiam trocá-los nos estabelecimentos. A Presidência da República, arcava com os custos da ajuda. Por ano, entre 1987 e 1990, pelo menos 8 milhões de litros foram distribuídos por ano por meio do programa. O problema, denunciado pelo Correio do Estado, é que em Campo Grande, a distribuição não foi justa, apesar do slogan da gestão de Sarney: “Tudo pelo social”. 

O Correio do Estado mostrou na época que funcionários de empresas estatais, como as antigas Telemat e Enersul, que na época tinham alto poder aquisitivo, usavam os tíquetes destinados aos mais pobres. Na Panificadora Pão de Mel, na Avenida Mato Grosso, o gerente chegou a colocar um cartaz, informando que o programa só atendia pessoas carentes. Detalhe: a palavra “carente” estava em negrito. 

“Escolhem as pessoas”

Eis o trecho da reportagem publicada:
“Parada em frente à Panificadora Karisma, ao lado do Aerorural, onde às 16h30 de ontem o leite havia se esgotado, dona Joana Torres Barbosa, 66 anos, aguardava uma nova remessa do produto. Com dois tickets nas mãos, ela denunciou que no Bairro Tiradentes, membros da Associação de Moradores vem manipulando sua distribuição. 

“Seu Valdemar e uma mulher que eu não me lembro o nome dizem que lá eles dão o papel para quem eles quiserem, e não adianta reclamar. No meu caso, eu faço o maior esforço para conseguir, porque meu marido, de 72 anos, foi aposentado por invalidez. Tenho filhos e netos, precisamos sempre de um ou dois litros”.

Dona Joana lava roupas, ganha Cz$ 1 mil 500 por mês, mas paga contas de energia elétrica, medicamentos e armazém. Ao lado dela, segurando uma bicicleta, uma criança vizinha, também na Vila Tiradentes, também esperava a chegada do leite”.

 
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