Quarta, 20 de Junho de 2018

Do tempo

21 JUN 2010Por 08h:11
“O tempo perguntou ao tempo:
 que tempo que o tempo tem;
o tempo respondeu ao tempo:
o tempo que o tempo tem
é o tempo que o tempo tem”.(autoria desconhecida)

Ou seja, infinito.
O tempo que cada ser tem,  em todos os universos, é exatamente o mesmo. É a condição igualitária  que Deus conferiu a todos. O uso é que varia de ser para ser. O tempo é uma questão de administração e de preferência. Cada um decide o que, quando e como fazer.
Quando comecei a entender isso, abriu-se para mim uma perspectiva maravilhosa de possibilidades e de realizações. E compreendi também como é bom saber disso. Deixei de ter pressa. Mas nem por isso, deixei o que tinha de fazer para depois. O bom é fazer no ato. Sem adiamentos.
E assim, cada um como co-autor do seu ser, juntamente com o nosso Pai Altíssimo, vai se construindo aos poucos,  passo a passo.
Hoje, da perspectiva dos meus setenta anos, recentemente alcançados, fiz um balanço do que tem sido esta minha encarnação.  E verifiquei o aproveitamento feito, que me deixou satisfeito, apesar de todos os percalços vividos ou quem sabe, por causa disso mesmo:
Até os sete anos, vivi na cidade em que nasci, Pedro Juan Caballero, do lado de lá da fronteira paraguaia. Com a eclosão da Revolução de 1947, na qual o Paraguai foi tomado por uma guerra civil, minha família foi constrangida a sair do país. Nos mudamos, então, para Campo Grande. E aqui ficamos. Aos 19 anos,  servi ao Exército – uma experiência salutar, inspiradora e norteadora da minha vida pelas lições de disciplina, de solidariedade e de cumprimento do dever que me inspiram até hoje. Sou cabo reservista.
A partir daí fui para o Rio de Janeiro, com a intenção de estudar em  um curso superior. Vivi altos e baixos, e num episódio do qual não tenho saudade, cheguei a dormir uma noite em um banco de praça. Como todo jovem com poucos recursos, almoçava no famoso Calabouço, o restaurante dos estudantes. Fui aprovado em um concurso para  trabalhar no Banco da Lavoura de Minas Gerais, em Copacabana. Logo depois trabalhei na Air France, na parte contábil e  administrativa, até que prestei exame  para o Banco do Brasil, sendo lotado na agência de Ponta Porã, onde cheguei em agosto de 1961.
Aí conheci a Rosaria, e com ela me casei.
Ao sair do Banco do Brasil, em agosto de 1968, fiquei sem emprego e sem perspectiva.  Procurei diversas alternativas, mas nenhuma deu certo.  O meu sogro tinha um restaurante no Paraguai e supria as nossas necessidades de alimentação.
Em março de 1969, fui para São Paulo, em busca de trabalho, e passei a  morar no apartamento da minha mãe, com minha mulher e três filhas. Foi aí que aprendi a vender e a entender que essa história de que vendedor nasce feito não é bem assim. Até então eu nunca havia vendido nada – a não ser bilhetes de loteria na rua quando era guri e no mercadinho do meu pai. Mas, felizmente, após muito trabalho em São Paulo, consegui me destacar nessa profissão.
Voltei para Campo Grande, em agosto de 1970, como supervisor de vendas de um fundo de investimento.
Em 1973, mudei de atividade. Logo depois, participei do lançamento da Unimed – já relatado em outro artigo – e em seguida optei pelo mercado imobiliário. E nesta profissão – corretor de imóveis – encontrei a minha melhor expressão profissional. É onde estou até hoje.
Convidado pelo meu amigo Aluizio Coelho, em 1978 fui contratado como gerente da Financial Imobiliária,  onde tivemos oportunidade de expandir as atividades da empresa, abrindo escritório em Cuiabá, com lançamento de loteamentos naquela cidade e em Dourados,  e onde trabalhei até agosto de 1980.
 Naquele ano, tendo como sócia a Rosaria, minha mulher, criamos a nossa imobiliária: Heitor Freire Negócios Imobiliários. Nesse mesmo período, fui eleito presidente do sindicato dos corretores de imóveis, e passei  a  exercer uma intensa atividade nas entidades classistas. Ao mesmo tempo, fui membro do conselho regional de corretores de imóveis por 12 anos; vice-presidente da federação do comércio, também por 12 anos; presidente da câmara de valores imobiliários, por 7 anos, e vice-presidente do secovi. Isso tudo durante o período de 1980 a 1993. Um pouco antes, em 1971, prestei vestibular para direito, mas só pude iniciar o  curso em 1975, e me formei em 1979, na gloriosa Fucmat, hoje UCDB.  Não posso deixar de mencionar a minha passagem pela maçonaria, de 1980 a 2000, – período da minha vida que é uma fonte permanente de alegria e evolução –, onde exerci os mais representativos cargos, também na alta administração da Grande Loja Maçônica. Aprendi, ainda no exército, que ninguém faz nada sozinho, assim sempre procurei cercar-me de gente inteligente. Por isso, deu certo.
Nas minhas atividades profissionais, algumas vezes a presunção e a arrogância da minha parte se fizeram presentes, me levando,  por negligência, a contrair dívidas enormes. E isso se deu – só hoje consigo  enxergar – por não ter dado ouvidos à Rosaria, que constantemente me alertava para os erros prestes a serem cometidos. Mas eu insistia em não dar-lhe ouvidos. Achava que era o tal e que sempre tinha razão. Dancei. E feio. Até hoje sofro as consequências desses atos, pois ainda tenho alguns compromissos a saldar. O que seguramente farei. Para mim foi muito enriquecedor e libertador, não fugir dos problemas, nem esconder-me de meus credores, contando sempre com a solidariedade da Rosaria.
Revendo tudo, constato que o tempo por mim vivido, apesar de todos os erros, foi extremamente salutar e benéfico, pois a lição foi duramente aprendida e posso dizer, citando Pablo Neruda: “Confesso que vivi”.  

Heitor Freire, Corretor de imóveis e advogado.

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