Quinta, 22 de Fevereiro de 2018

Direito de voltar à natureza

20 SET 2010Por BRUNA LUCIANER11h:17

O nome já explica muita coisa: Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS). Não é zoológico, apesar da visitação ser permitida; não é hotel para bicho, mesmo alguns ficando só por uma noite; não é clínica veterinária, apesar de médicos veterinários estarem à disposição. É mais um ritual de passagem; uma estação no meio do caminho entre a prisão e a liberdade.
Sob responsabilidade do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), o CRAS recebe animais silvestres de todo o Estado, capturados nas mais diversas condições. Chegam vítimas de acidentes, de apreensões domiciliares, de tráfico ou simplesmente por terem sido encontrados perdidos no meio da cidade.
Só no ano passado, 2,4 mil bichos chegaram no Centro. Deste total, composto na sua maioria (70%) por aves, mais da metade já foi reinserida na natureza. Enquanto permanecem no CRAS, os animais são considerados patrimônio da União; dali, os que tem condições voltam para o mato, e os que apresentam alto nível de domesticação são encaminhados para zoológicos, reservas naturais ou criadouros conservacionistas.

Os cuidados

Em fevereiro, havia aproximadamente 1,5 mil animais nas dependências do CRAS. Três veterinários, dois biólogos, um zootecnista e mais 10 pessoas de apoio cuidam de araras, tucanos, tamanduás-bandeira, gaviões, veados, antas, jabutis, onças, garças. Tudo distribuído em seis hectares localizados no Parque do Prosa, em Campo Grande.
Os animais são recebidos, registrados, vão para a quarentena onde permanecem isolados até que se verifique a possibilidade de inclusão aos grupos. Os grupos de animais são separados por fases; desde os recém chegados até os que já estão praticamente prontos para voltar à natureza.
Quando há denúncia, a Polícia Militar Ambiental vai até o local buscar o animal. Se o proprietário não resistir à apreensão, considera-se entrega voluntária e ele não sofrerá nenhuma penalidade. Caso resista, o proprietário responderá processo criminal e pagará multa que varia de R$ 500 a R$ 5 mil para animais que estão em risco de extinção.

Onças pardas (Panthera onca)

São oito machos e uma fêmea atrás das grades do CRAS. Por serem praticamente domesticadas, a reinserção na natureza é impossível, elas correriam grandes riscos por serem dóceis. Elas esperam remanejamento para algum zoológico ou criadouro conservacionista.
Duas delas, irmãos e machos, estão no CRAS há sete anos. O caçulinha da turma chegou há sete meses, e sabe-se lá quanto tempo vai ficar. “Se chegar mais alguma onça, teremos que improvisar pois não temos mais espaço”, explica o biólogo coordenador do Centro, Elson Borges dos Santos.

Macacos

Apesar das carinhas de criança sapeca, os sete macacos-prego (Cebus apella) são destruidores em potencial. Todos foram apreendidos em residências, principalmente no sul do Estado, sendo mantidos de maneira revoltante: amarrados pela cintura por cordas e barbantes. Podem até parecer bicho de estimação, mas não se engane: eles põem uma casa abaixo num piscar de olhos. E tome cuidado com máquinas fotográficas ou qualquer outro objeto, eles são larápios experientes.

Uma questão de cultura

“Enquanto o sul-mato-grossense achar bonito criar animal silvestre em casa, esse cenário não vai mudar”, desabafa Elson, o coordenador do CRAS. Ele defende uma mudança de postura da sociedade e enxerga nas crianças um futuro mais consciente. “Elas vêm aqui, entendem que os animais não nasceram para ficar presos. Com certeza não cometerão os mesmos erros das gerações anteriores”, estima.

Visitas

Visitas individuais ou em grupo podem ser agendadas pela administração do Parque do Prosa através do telefone (67) 3326-1370. Elas acontecem às terças, quintas e sábados e duram aproximadamente duas horas, incluindo uma trilha pelo parque. A visita é gratuita.

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