sábado, 21 de julho de 2018

PLANEJAMENTO

Dilma adota estilo empresarial de governo

9 JAN 2011Por BRASÍLIA (AE)04h:00

A foto emoldurada de Luiz Inácio Lula da Silva sorridente, com a faixa presidencial no peito, ainda está lá. Sem alarde, porém, a rotina do Palácio do Planalto já começa a mudar. Em uma semana de trabalho, Dilma Rousseff tirou do papel um antigo plano: vai dividir o governo em “núcleos de gestão”, que terão metas a cumprir, e revisar todas as receitas e despesas.

Adepta do planejamento estratégico, a primeira mulher presidente do Brasil quer um modelo de governança no estilo empresarial. Ela passou os primeiros dias do mandato em reuniões no gabinete, assistiu a mais uma temporada de beliscões entre o PT e o PMDB por cargos no segundo escalão, mas decidiu congelar os anúncios até fevereiro. O foco, agora, é a organização da equipe.

Dilma determinou a ministros a formação de três grandes núcleos: políticas sociais, desenvolvimento econômico e cidadania. Há, ainda, o grupo de infraestrutura criado no governo Lula, que será repaginado. Cada núcleo ficará responsável pela preparação dos projetos e monitoramento das ações. O programa de erradicação da miséria está abrigado no guarda-chuva social.

Na tentativa de impedir escândalos como os do passado, ela também encomendou à Casa Civil uma avaliação detalhada sobre o Sistema de Gestão da Ética do Executivo Federal. Quer saber, sem rodeios, o que pode ser aperfeiçoado nesse código de conduta, datado de 2007.

Depois da festa da posse, no primeiro dia do ano, Dilma entrou em uma espécie de imersão no Planalto. Não saiu de lá nem para almoçar e trocou o tradicional sofá com poltronas vermelhos do gabinete por um conjunto Navona de couro preto, desenhado por Sérgio Rodrigues.

Marmita
Na segunda-feira (3), por volta das 14 horas, ela decidiu chamar o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para uma conversa. Ele estava diante de um bacalhau, na Academia de Tênis, quando o celular tocou.

“Preciso falar com você antes das 15 horas”, avisou a presidente. “Estou acabando de almoçar e em um minuto estarei aí”, respondeu Cardozo, informando o seu paradeiro. “Mas não tem comida no seu ministério, não?”, provocou ela. O ministro caiu na gargalhada e Dilma aproveitou a deixa: “Embrulhe esse bacalhau, faça uma marmita e traga aqui que eu lhe dou um copo de água”. Cardozo largou o prato e saiu correndo.

O estilo Dilma dava ali a primeira “canja” da semana. Quem convive com ela há mais tempo, no entanto, já está acostumado com seus hábitos, bem diferentes dos de Lula. Enquanto ele ultrapassava todos os prazos para tomar decisões, ela é a típica mineira que não perde o trem e quer tudo pronto para “ontem”.

Obcecada por metas, Dilma vai redefinir prioridades e cortar gastos, algo em torno de R$ 35 bilhões do Orçamento. Tem pressa na montagem do plano nacional de combate ao crime organizado e incumbiu Cardozo de iniciar uma maratona de viagens para ouvir governadores sobre políticas de segurança pública.

Do tipo workaholic, a presidente trabalha, em média, 12 horas por dia e ainda não explodiu com as cobranças do PT e do PMDB. Quando a pressão bate à sua porta, repousa os olhos sobre a foto da única filha, Paula, no porta-retrato acomodado em sua mesa.

“Dilma tem consciência de que não é o Lula e precisa muito trabalhar coletivamente, para dar conta dessa tarefa”, afirmou o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho. “Que ninguém se engane: ela está leve e descontraída, mas vai exigir resultados. E muito”.

Ruídos
Foi uma semana de embates, mas também de articulações nos bastidores para desfazer ruídos e mal-estar. Na quinta-feira, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), telefonou para Dilma. “Presidente, não é verdade que eu estimulei o PMDB a cobrar um salário mínimo maior do que R$ 540”, disse ele. Dilma assentiu.

Longe dos holofotes, o ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, conversou até altas horas com o vice-presidente Michel Temer (PMDB) para conter a crise. Por decisão de Dilma, as nomeações para importantes postos nas estatais foram postas no freezer. A ordem é aguardar a troca de comando na Câmara e no Senado, em 1º de fevereiro.

“O critério para ter assento no governo não pode ser a estrela do PT no peito”, reagiu Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB na Câmara. “Precisamos acertar métodos de convivência”, resumiu Carvalho, um ex-seminarista.

O homem que reza um salmo do Evangelho todo dia, quando entra no Planalto, é um dos poucos que já tiraram a foto do ex-presidente da parede. “Pedi desculpas para ele, mas tirei”, contou Carvalho. No gabinete de Dilma, porém, a imagem de Lula ainda vigia o expediente. Em breve não será mais assim: ela prometeu posar para a foto oficial nos próximos dias.

O clima seco de Brasília sempre incomodou Dilma, que tem o hábito de caminhar bem cedo. Agora, com as chuvas de verão, ela não reclama mais. Quando fevereiro chegar, no entanto, a temperatura vai subir. Ao menos na seara política.

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