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Campo Grande - MS, segunda, 17 de dezembro de 2018

“Dia 4” – Literatura e palavrão: Uma combinação que pode dar certo !

27 FEV 2010Por 04h:57
Não! Não vamos conceder espaço à cega intolerância que – arbitrária e liminar – cria dilemas reducionistas do tipo “tudo ou nada” ou “matar ou morrer” na análise do caso que envolveu o adolescente escritor Vithor Torres, autor de “Dia 4”. A condenação sumária da mãe do aluno que chamou a atenção para o conteúdo da obra é um equívoco que só se compara à rejeição do livro por conter palavrões. O uso de palavrões na literatura não é critério para se avaliar a qualidade da obra. Se a mãe do aluno julgou o livro pela profusão de palavras consideradas de baixo calão incorreu em equívoco, talvez involuntário, por associar o palavrão a um vírus que fulmina de morte todo o tipo de contexto em que está inserido. Arrisco a dizer que a indignação da mãe tem um interessante colorido psicanalítico e nada a ver com literatura. Entretanto, é inegável que a conotação negativa de um palavrão cujo símbolo depreciativo evoca o reles, a sujeira, o vil e o pecado é uma das mais constantes e poderosas mensagens que cobrem a educação escolar e doméstica, transcendendo gerações. Talvez por isso, impregnada dos efeitos deste questionável elixir moral que há séculos propaga a sua mensagem, a revolta da mãe tenha externado a perplexidade dos que não conseguem se libertar do condicionamento psicológico – quase que pavloviano (perdoe-me o neologismo) – que associa palavrão e baixeza moral. Culpá-la, por isso, é um despropósito que beira a covardia. Mas é igualmente despropositado condenar o jovem escritor. Despropositado e desonesto. Vithor Torres é um escritor. Nasceu vocacionado para a literatura. Deve ser estimulado, jamais intimidado. Ele precisa de horizontes para que a sua inspiração produza arte. Não pode ser asfixiado pelos resquícios da inquisição que censura e aprisiona o espírito. É uma joia rara encontrada no monturo de ignorâncias em que muitos jovens estão chafurdados. Enquanto a maioria se regozija com os BBBs, gastando dinheiro com ligações para esvaziar a casa dos artistas – artistas efêmeros e enlatados –, Vithor investe nos clássicos da literatura, dialoga com os artistas que resistem ao tempo e procura se ilustrar com Drummond, João Ubaldo e Lauro Trevisan. A propósito, não está sozinho na escolha do palavrão como ferramenta verbal para a formatação do contexto que delimita a sua arte. Drummond escreveu um famoso poema “A PUTA”, João Ubaldo produziu “A CASA DOS BUDAS DITOSOS” que faz o “DIA 4” de Vithor Torres parecer uma oração e Lauro Trevisan em “MACHO NÃO GANHA FLOR” é econômico no verbo, mas perdulário nos palavrões. Todas elas são obras cujo inquestionável valor artístico prova que arte não combina com moralismo, porque a sua essência é o idioma da beleza e falar a linguagem do belo só consegue quem é livre. Continue a trabalhar Vithor a sua promissora bibliografia e não se esqueça de que o seu compromisso é com a arte. Continue livre, voe alto e boa sorte!
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