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Desprezo chocante

12 MAI 10 - 00h:00
Embora possa ter causado estranheza em muita gente, a foto publicada ontem na capa do Correio do Estado da mãe limpando o filho depois de este ter defecado na parte externa do trancado banheiro da Praça Ari Coelho, no centro de Campo Grande, revela quão distante estão as preocupações dos administradores das questões mais simples e que realmente fazem alguma diferença no dia a dia dos cidadãos. É absolutamente incompreensível que a administração municipal não consiga manter um simples banheiro público em condições de uso na região central da cidade. Alegar que em outras cidades isto não existe simplesmente não é argumento. Dizer que o vandalismo não permite e que o local já foi reformado mais de uma dezena de vezes também só serve para deixar claro que o que falta é vontade, para não usar termo mais pesado. A imagem pode ser caracterizada como dramática, constrangedora, deprimente ou relacionada a incontáveis outros adjetivos que se queira. Ao mesmo tempo, é extremamente vergonhosa, não para a mãe ou para a criança, mas para as autoridades. O flagrante, feito na tarde de segunda-feira, fala tudo o que poderia ser dito sobre o velho problema. Comerciantes da região central conhecem muito bem o tamanho do drama, pois simplesmente não dão conta de atender à demanda, solenemente ignorada por absoluto comodismo.

    Recentemente firmou-se contrato milionário, mais de R$ 320 mil mensais, terceirizando a manutenção dos oito terminais de transbordo do transporte coletivo. Cerca de dois meses depois de o contrato ter entrado em vigor, a principal diferença que se percebeu é que o piso destes locais perdeu o brilho e alguns banheiros estão com tapumes, foram desativados. Consertos pontuais também foram realizados, mas nada de significativio ou que não fosse constantemente feito pelas cinco empresas que detêm o serviço de transporte na cidade. Quer dizer, se existe disponibilidade de recursos para contratar a Socican para um serviço que antes nada custava aos cofres públicos, qualquer argumento que se utilize para justificar a desativação dos banheiros na praça perde o sentido. Trata-se de uma questão de prioridade, e nada mais.

    É a velha resistência dos homens públicos em investir na manutenção do patrimônio público, a não ser que esta possa ser terceirizada mediante vultosos contratos. Se faltam recursos para manter funcionando um simples banheiro público no centro da cidade, é mais do que compreensível que o recapeamento do asfalto, a manutenção de praças, escolas e postos de saúde sejam relegados para segundo plano. Normalmente permite-se que o patrimônio fique deteriorado a tal ponto que sejam necessárias intervenções radicais, ou reformas gerais, às quais permitem colocação de placas de inauguração e contratos passíveis aos tradicionais acréscimos.
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