sábado, 21 de julho de 2018

Milenar

Dança do ventre é terapia

3 NOV 2010Por Thiago Andrade00h:00

Sensualidade é a primeira palavra que vem à mente quando se pensa em dança do ventre. No entanto, os movimentos milenares que compõem essa arte sagrada têm inúmeros outros objetivos.

Tendo surgido, provavelmente, entre nove e sete mil anos atrás, nas regiões que hoje são conhecidas como Oriente Médio e Ásia Meridional, a dança nasceu como parte de rituais de devoção às deusas da fertilidade, buscando preparar as mulheres a se tornarem mães. O nome pela qual é conhecida hoje surgiu apenas no final do século XIX, na França, quando passou a se chamar dança do ventre.

“A sensualidade é um elemento muito presente nos movimentos, principalmente, por sua relação com a fertilidade. É uma dança que não esquece o lado sexual da mulher, mas não se foca nele também. Nunca foi objetivo da “raqs sharqi”, como é chamada no oriente, se tornar uma dança erótica, como aconteceu no mundo ocidental”, define a bailarina e professora Katiuscy Bortoleto. Em breve, ela viaja para os Emirados Árabes, onde permanecerá por alguns meses atuando como bailarina em hotéis da região, além de aumentar seus conhecimentos sobre a arte e a cultura árabe.

Os professores de dança do ventre sempre ressaltam que este estilo promove a integração entre corpo e alma, favorecendo tanto a parte física, quanto mental de todo ser humano. “Como cada movimento tem um significado especial, além de fortalecer os grupos musculares trabalhados, faz com que a dançarina viva um momento pessoal, percebendo como seu corpo reage aos estímulos. É bastante introspectivo”, detalha Lisa Lima, professora, coreógrafa e terapeuta ocupacional.

 Segundo ela, a abordagem que faz da dança é sempre voltada para seu lado terapêutico, mas isso não deixa de lado seus outros benefícios. Lisa é diretora e coreógrafa do espetáculo “Ventre do Brasil”, que será apresentado nesta quarta-feira no Teatro Prosa do Sesc Horto, às 20h.

De dança sagrada à animação em festas, os movimentos baseados em figuras do oriente, como camelos e serpentes, assim como os elementais, ou seja, fogo, terra, água e ar, passaram por muitas modificações. Como lembra a bailarina Katiuscy, desde que saiu do Oriente, a dança do ventre passou pela França, pelos Estados Unidos, para então se espalhar pelo mundo e chegar ao Brasil. “Não podemos falar de uma dança pura, pois ela sofreu influência das culturas por onde passou. Foi nesse processo que ela ganhou o estigma de dança erótica e começou a sofrer preconceito”, critica.

Entretanto, segundo a bailarina, atualmente acontece uma grande popularização da dança do ventre no País e isso tem favorecido o fim do preconceito. “As mulheres procuram os estúdios para tonificar o corpo, elas querem a dança como atividade física. Mas, por meio disso, encontram outros benefícios como a melhora da coordenação motora, da autoestima, aumento da flexibilidade, reeducação corporal e postural, entre outras”, descreve Katiuscy. Os movimentos, segundo a bailarina, também oferecerem auxílio no combate às crises da tensão pré-menstrual.

Como já deu para perceber, a dança do ventre é praticada exclusivamente por mulheres. “Como se trata de uma dança voltada para a fertilidade, a mulher tem lugar especial e exclusivo nela. Existem danças árabes masculinas, mas não é o caso da dança do ventre”, aponta Lisa Lima. Como lembra a professora, a dança era praticada em templos em que, muitas vezes, apenas as mulheres podiam entrar e participar dos rituais.

No Brasil, a dança do ventre tem peculiaridades que a diferencia do que é dançado em outros países. Tanto Lisa, quanto Katiuscy concordam que as brasileiras dão um toque diferente ao conjunto de movimentos, tornando-os mais orgânicos, sensuais e provocantes. “Sempre com o cuidado de não torná-los gratuitos ou vulgares”, aponta Lisa. É comum, explica, seguir a tradição cultural árabe em relação à dança, mas novos elementos são adicionados sempre que possível.

Espetáculo explora aspectos
culturais  dos movimentos

A trajetória da dança do ventre no País é recontada por meio do espetáculo “Ventre do Brasil”, que será apresentado hoje, às 20h, no Teatro Prosa do Sesc Horto. As 18 coreografias serão dançadas por 24 bailarinas, com idades entre 10 e 60 anos, todas alunas do Studio de Dança Lisa Lima. Além delas, um bailarino e um percussionista participam da apresentação. Todo o trabalho foi desenvolvido pela professora, coreógrafa e terapeuta ocupacional Lisa Lima, que afirma que o espetáculo é uma oportunidade única para se conhecer as pioneiras da dança do ventre no Brasil.

“Vamos homenagear nomes como Zuleika Pinho, Simone e Gisele Bomentre, Samira Samia, Sharazad. Mulheres que trouxeram e difundiram a dança no País”, explica Lisa. Segundo ela, no cenário, fotos das bailarinas homenageadas serão projetadas, fundindo-se com os cenários que levam ao palco temas do Oriente Médio. A participação masculina faz contraponto, trazendo os movimentos fortes e viris das danças masculinas para o contraste com a leveza e feminilidade da dança do ventre.

Os ingressos custam R$ 10 e crianças com menos de cinco anos não pagam. “Ventre do Brasil” é o terceiro espetáculo coreografado e dirigido por Lisa. A apresentação acontece no Teatro Prosa, que fica na Rua Anhanduí, 200.

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