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Dalai-lama anuncia intenção de abandonar seu papel político

10 MAR 2011Por EFE09h:24

O dalai-lama anunciou nesta quinta-feira a intenção de ceder a seu papel político a um líder "livremente eleito" pelos tibetanos, no 52º aniversário da fracassada revolta do Tibete contra a China. O cargo de chefe de um Governo do dalai-lama não é reconhecido por Pequim

Em comunicado divulgado através do site do Governo tibetano no exílio, que tem sede na cidade indiana de Dharamsala, o dalai-lama indicou que pedirá ao Parlamento, que se reunirá na próxima segunda-feira, que produza as mudanças necessárias na Constituição.

Com 75 anos de idade, Tenzin Gyatso, conhecido internacionalmente pelo título espiritual de dalai-lama, ostenta tanto a liderança religiosa como a política dos tibetanos, povo para o qual reivindica uma "autonomia genuína" dentro da China.

Em seu comunicado, o líder tibetano rendeu tributo tanto aos que lutaram em 1959 contra a repressão chinesa como aos que participaram das "manifestações não violentas" há três anos, em alusão a distúrbios que causaram a morte de cerca de 100 pessoas e levaram a causa do Tibete de volta à mídia internacional.

O dalai-lama também se referiu com admiração à "notável luta não-violenta pela liberdade e a democracia" registrada em vários países do norte da África, e disse esperar que "estas mudanças inspiradoras conduzam à liberdade, à felicidade e à prosperidade genuínas de seus povos".

Depois de lamentar que os tibetanos vivam "com temor e ansiedade constantes" sob o regime chinês, propôs que uma delegação internacional possa visitar o Tibete para comprovar a realidade de seu povo.

Ao anunciar novamente a intenção de se aposentar, o dalai-lama assegurou que não se sente "desanimado" nem pretende "se esquivar de responsabilidades", e que seguirá fazendo sua "parte na causa justa do Tibete".

"Desde a década de 1960, manifestei que os tibetanos necessitam de um líder livremente eleito pelo povo tibetano, a quem eu possa delegar o poder. Agora, claramente chegou o momento de pôr isto em prática", expressou o dalai-lama.

Para isso, proporá "formalmente" uma emenda à Constituição para tornar possível seu desejo de "transferir a autoridade" a um líder eleito.

O dalai-lama considerou, no entanto, que os tibetanos foram "capazes de implementar a democracia no exílio" na Índia, onde há cerca de 130 mil tibetanos sob sua liderança.

Não é a primeira vez que o dalai-lama, que teve vários problemas de saúde nos últimos anos, anuncia a intenção de se aposentar dos assuntos políticos, embora ainda continue viajando para reuniões com líderes internacionais - em fevereiro de 2010 se reuniu com Barack Obama, em Washington - e conferências sobre budismo.

Em todas as ocasiões, o dalai-lama tomou nota dos "repetidos e encarecidos pedidos, tanto de dentro como de fora do Tibete", para que não abandone a liderança política, e hoje disse que esta cessão do poder beneficiará os tibetanos "a longo prazo".

O componente teocrático da liderança do dalai-lama é essencial para os tibetanos, assim como o reconhecimento mundial que alcançou sua figura em mais de meio século de exílio.

A isso aludiu o Gabinete liderado pelo dalai-lama em comunicado também divulgado hoje, no qual expressou a "preocupação" do povo tibetano pela decisão do seu líder de ceder o poder político e se uniu às "súplicas" para que "não dê esse passo".

O Governo lembrou que o dalai-lama e o povo do Tibete estão "conectados intimamente por um vínculo cármico puro" e que os tibetanos devem ter a certeza de que "esta relação irá durar para sempre, de forma inalterada".

Após mencionar o discurso previsto do dalai-lama diante do Parlamento na próxima segunda-feira, o Gabinete observou que o futuro "dependerá de como os membros do Legislativo formularão, sabiamente, a legislação a respeito".

Em reação imediata, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Jiang Yu, lembrou que não é a primeira vez que o dalai-lama anuncia sua aposentadoria, e qualificou a mensagem desta quinta-feira de um "truque para enganar a comunidade internacional".

Para a porta-voz chinesa, o dalai-lama é um "exilado político disfarçado de religioso" e seu Governo, uma "organização política ilegal que não é reconhecida por nenhum país".

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