Segunda, 18 de Junho de 2018

Da violência do “Descobrimento” ao presente

14 ABR 2010Por 23h:34
O mês de abril marca o momento da “fundação do Brasil”, no dia 22 de 1500. Conforme o relato de Pero Vaz de Caminha o primeiro “encontro” entre europeus e os povos originários foi pacífico. Mas este era o olhar do colonizador, do representante da metrópole visando legitimar os interesses da empresa ultramarina.

Um estudioso desta temática Guillermo Guiucci demonstra que o (des)cobrimento fora ao mesmo tempo “pacífico e aterrador”. Um momento que revelava as assimetrias, os desencontros de culturas, até mesmo pelo desinteresse do colonizador em aprender com esses povos, já que os via muito mais como objeto de cobiça, de interesse e de lucro, do que como seres humanos, capazes de saber, sentir, ser e de ensinar em sua cultura, seu modo de vida.
Os conflitos foram marcas constantes nesse universo de relações entre colonizadores e colonizados (portugueses, jesuítas e povos originários) desde o primeiro momento em que os portugueses aqui pisaram. Nos engenhos da Bahia, os índios, denominados de negros da terra, foram escravizados paralelamente à vinda do escravo africano. Se não permaneceu a escravização indígena isto se deu pela sua resistência, pelas doenças, somadas ainda aos interesses do tráfico negreiro.

A população que aqui habitava, nas suas mais diversas formas de organização, viu seu mundo destruído nesse contato aterrador. E resistiu a isto. Por essa resistência milhões foram assassinados fosse pelas armas de fogo, pelas epidemias trazidas pelo homem branco, ou mesmo pela negação em aceitar à fé do outro.

No tempo presente a violação dos direitos humanos dá continuidade a essa história. Exemplo disso é a discussão da “demarcação das terras indígenas”, principalmente no que concerne à reação dos grandes proprietários diante da “perda” daquilo que nunca lhe pertencera de fato e de direito. O que está em questão é se iremos continuar a história de usurpação dos saberes e dos direitos das comunidades indígenas, como faziam as frentes de colonização que viam os índios como obstáculo a ser transposto.

Do índio ao negro, ou ambos paralelamente, fez-se evidente a escravidão como a medula do sistema, o seu ponto nevrálgico que fez funcionar uma rede de relações baseada no status e no lucro por quase quatro séculos. Deu-se a emancipação política, em 1822, mas os “escravos continuaram a mourejar nos troncos, nas senzalas” até 1888, como afirmou Emilia Viotti da Costa. Falava-se em liberdade de comércio, mas não da liberdade de homens, mulheres e crianças. Quando esta liberdade se dava era em vista da resistência e da conquista e não da concessão. Os liberais daqui eram fundamentalmente escravocratas. Defendiam os seus interesses comerciais acima de tudo, inclusive a permanência da escravidão.
A violência sobre índios e negros, sobre os pobres da terra, do campo e da cidade, gerou o medo, e fez com que este se perpetuasse, servindo, infelizmente, no tempo presente, como o medidor do quanto nos encontramos à deriva de uma segurança pública. As cercas elétricas, os condomínios fechados de luxo, os shoppings centers, os carros blindados, as empresas de segurança, os seguros, os cães de guarda são reflexos de uma sociedade que tem medo do que ela própria criou.

A defesa do dinheiro e da mercadoria, como bem denuncia a Campanha da Fraternidade deste ano, em detrimento da defesa da vida, faz com que a indústria do medo acabe fundamentando a existência dos guetos dos ricos e novos ricos, separando-os dos pobres e segregando ainda mais a possibilidade de uma sociedade justa.

O quadro é bastante desolador. Por outro lado, ainda há espaços para a esperança. Os movimentos sociais de sem-terras, sem-teto, atingidos por barragens, os poucos movimentos sindicais e partidos que ainda não se deixaram cooptar, são sinais de alguns passos a caminho do encontro com a vida. Quem sabe definidores de um lugar e semeadura para que se nasçam jardins, ultrapassando as cercas elétricas - sinônimo da cultura da morte –, para quiçá um dia fazer brotar a vida e a cultura da paz.

 Maria Celma Borges, Profª Drª da UFMS/Campus de Três Lagoas. E-mail celmaevitor@ibest.com.br

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