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Campo Grande - MS, segunda, 17 de dezembro de 2018

MATO GROSSO DO SUL

Consórcio de prefeituras faz lixo virar dinheiro

9 MAR 2011Por MONTEZUMA CRUZ/ CORREIO DO ESTADO00h:00

Reunidas no Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Meio Ambiente (Cidema), as prefeituras de Bela Vista, Bonito, Guia Lopes da Laguna, Jardim e Nioaque esperam definir ainda neste semestre o valor a ser pago pela tonelada de lixo reciclável. O licenciamento ainda se encontra em fase de análise pelo Instituto do Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul, mas até 2013 todos os municípios deverão buscar soluções para os velhos “lixões”.

Em obediência à Lei Federal 12305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos), o estado também executará o Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos para a Bacia Hidrográfica da Sub-Bacia do Rio Taquari, contemplando 11 cidades da região norte. 

Em Jardim, a 233 quilômetros de Campo Grande, um aterro sanitário medindo 36 hectares permitirá aos municípios consorciados adotarem a coleta seletiva, mundialmente aprovada. Ali só permanecerão os rejeitos. O prefeito de Anastácio, Douglas Figueiredo (PSDB), assumiu há dois meses a presidência do Cidema. “Estou animado para enfrentar esse desafio, e com Anastácio, muito mais”, ele disse.

Um investimento de R$ 300 mil permitiu a instalação da Usina de Processamento de Lixo de Anastácio, que deverá ficar pronta até junho próximo. “Vamos eliminar os trituradores”, prometeu Figueiredo. A usina e as células situam-se numa área de 12 hectares para separar e processar o lixo.

O volume de plásticos liberados pela população de Jardim impressiona. Por mês, as 12 famílias integrantes da Associação Nossa Senhora Aparecida retiram 40 toneladas de plástico e se incluem entre os fornecedores da indústria Metap, em Campo Grande. 

A situação do denominado “vilão do meio ambiente” não se diferencia dos monturos existentes em pequenas, médias e grandes cidades brasileiras, contribuindo para os sucessivos recordes de consumo de produtos envasados em garrafas PET. 

A Metap paga R$ 1,15 o quilo da garrafa PET; R$ 1 a garrafa de Q-Boa e 60 centavos pelo quilo de plástico filme, o mais encontrado. Serve para embalar leite e outros alimentos, sacaria industrial, fraldas descartáveis, bolsas para soro medicinal, sacos de lixo, entre outros. É flexível, leve transparente e impermeável. Em média, o Brasil recicla 15% dos plásticos rígidos e filme, equivalente a 200 mil toneladas por ano.

No cômputo geral, só Jardim garante, em média, 480 t/ano. Dez fornecedores iguais, entre os quais campo-grandenses, somam 4,8 mil t/ano.

“Aqui, os antigos catadores são treinados e apoiados pelo município; agora eles são agentes ambientais”, diz o gerente de meio ambiente de Jardim, Clademar José Sovernigo, minutos antes de se reunir mais uma vez com estudantes de uma escola local. 

De acordo com Sovernigo, ex-oficial da Polícia Militar Ambiental, na qual serviu durante 25 anos, o consórcio adotará práticas seletivas. Ele lembra que o prefeito Carlos Américo Grubert (PMDB) ordenou “uma boa varredura” na cidade e nos bairros.

A ordem do prefeito visa à limpeza dos campings e do balneário municipal, cuja obra terá banheiros ecológicos. “Sem tratamento de esgotos e resíduos sólidos, pouco ou nada muda”, comenta Sovernigo.

Terraplenagem, impermeabilização do antigo aterro, alojamento e ligação do chorume (resíduo líquido formado a partir da decomposição de matéria orgânica presente no lixo) estão concluídos na Unidade de Processamento. As obras deverão ser brevemente visitadas por estudantes que participam atualmente de aulas de conscientização ambiental.

O Correio do Estado encontrou-os numa sala ampla, recebendo informações a respeito do assoreamento e da destruição da mata ciliar em trechos das margens dos rios da Prata, dos Velhos e Guardinha. Profundidade da calha também fez parte do diagnóstico elaborado durante aulas promovidas pela Prefeitura de Jardim, em parceria com o Ministério Público Estadual, órgão protetor dos interesses difusos.

As palestras são constantes, sempre acompanhadas de imagens de computador e informações técnicas. Caça predatória e pesca de pintado com arpão estavam em pauta esta semana. Sovernigo mostra fotos de uma onça- parda macho, morta por caçadores em Guia Lopes da Laguna. Em outras fotos aparece uma sucuri abatida em Jardim e vários filhotes que estavam em sua barriga.

País consome 5,7 milhões de toneladas de plásticos

Se o mundo “acabasse” em plástico, alguém teria que cuidar da sucata. O plástico está presente do casebre aos palácios, reinando imponente, insubstituível. Depois de jogado no lixo, o plástico volta a ser largamente consumido. Em 2010 a sua industrialização alcançou 5,7 milhões de toneladas, aponta o balanço feito pela Associação Brasileira da Indústria de Plástico (Abiplast), ou seja, cresceu 10% em relação a 2009. Laminados tiveram alta de 12%; o segmento de embalagens, 9%; outros itens juntos cresceram 8%.

Em todo o Brasil, são questionáveis as campanhas públicas ou privadas com apelos “ambientalmente corretos” para que a população volte a usar sacolas de pano. De que adiantam, se os estabelecimentos seguem ofertando sacolas plásticas? É hábito nesses tempos modernos e, apesar da fartura de informações na internet, as novas gerações ignoram o que significavam as sacolas de pano.

Esse contraditório está exposto na própria sede do futuro “consórcio do lixo”, Jardim. Quase ninguém ouviu falar da campanha “Saco é um Saco”, feita pelo Ministério do Meio Ambiente com o objetivo de evitar o consumo de cinco milhões de sacolinhas plásticas no País. Entretanto, o ministério amarga a realidade: elas continuam aos milhares, da capital do País às mais longínquas cidades, embalando mercadorias em supermercados, empórios (ou bolichos), açougues e quitandas.

O lixão de Jardim acumula “desovas” de todo tipo de entulho – mesas, cadeiras, armários, utensílios domésticos, brinquedos, vidros, sofás velhos, papelão, pneus e as recordistas garrafas PET. Nos municípios vizinhos, o problema está na ordem do dia. Ansiosa, a prefeita de Nioaque, Ilca Corral Domingos (PMDB), vice-presidente do Cidema, vê uma única saída: o escoamento do lixo de “forma cooperativa”: “Onde vamos parar? São 20 toneladas por semana e temos que tirar essa montanha com um contêiner”, desabafa.

MS produz dez toneladas por dia

Segundo a fiscalização ambiental, quanto maiores o Produto Interno Bruto (PIB) e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), maior será a incidência de rejeitos. Além da garrafa PET, esses órgãos constatam metais pesados, embalagens de alimentos, latarias, aditivos químicos, tecnológicos e outros. Comércio, indústria e residências liberam diariamente dez toneladas de lixo em Mato Grosso do Sul, informam a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e o Imasul.

No mesmo ritmo em que pretende solucionar o problema do lixo, a Prefeitura Municipal de Anastácio, cidade localizada a 132 quilômetros de Campo Grande, investirá R$ 250 mil na recuperação da mata ciliar no Rio Aquidauana, atividade que faz parte do Programa “Rio Limpo”, que será licitado em abril.

O prefeito Douglas Figueiredo prevê uma meta ainda mais ousada: o tratamento de 90% do esgoto, o que espera conseguir com a intervenção da Sanesul.

“Coleta onerosa e improdutiva”

 “Onerosa e improdutiva”. Assim o empresário Ricardo Duarte, diretor da Metap, classifica a coleta seletiva com caminhão, desaconselhando-o para as cidades do sudoeste de Mato Grosso do Sul.

“Ele é muito rápido e não atende à necessidade da população, que só agora começa a aprender as técnicas modernas de recolhimento do lixo aproveitável”, comenta.
Para Duarte, o sistema de coleta simples, à moda antiga, com o tratorzinho apropriado a pequenas cidades seria melhor opção. Ele notou o êxito da experiência em Lucas do Rio Verde (MT), que possui 45,5 mil habitantes. “Lá eu vi funcionar um tratorzinho com gaiola, devidamente identificado, trafegando devagar e sempre pelas ruas da cidade; as pessoas têm mais tempo para a entrega do lixo separado, sem a necessidade da pressa que o caminhão exige”.

“Pessoalmente, não acredito no resultado da coleta porta a porta da maneira como andam dizendo aí. Ela é pouco rentável para o custo que tem”, observou.

Plásticos demoram entre duzentos e trezentos anos para se decompor. Por isso, são reciclados e voltam a ser plásticos. Na Metap, uma das máquinas separa, lava, tritura, seca e põe a carga na extrusora, produzindo uma tonelada por hora de granulados semelhantes ao plástico que sai da indústria petroquímica. “É um produto de baixa densidade, adequado à fabricação de lonas, sacolas e embalagens”, ele diz.

A extrusora funde e dá aspecto homogêneo ao material. Metade da produção permanece na indústria, na capital, enquanto a outra segue para “grandes” clientes da Metap em São Paulo, informa Duarte. Eles utilizam o granulado para a fabricação da conhecida lona preta.'

* Matéra públicada no caderno Ecologia do jornal Correio do Estado

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