Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

FORÇA-TAREFA

Começa cerco a traficantes no Complexo do Alemão

27 NOV 2010Por AGÊNCIA ESTADO, RIO03h:30

Tiroteios e exibição do poderio bélico dos traficantes marcaram o primeiro dia do cerco do Exército, Polícia Federal (PF) e das polícias do Rio ao conjunto de favelas do Complexo do Alemão, na zona norte da capital carioca. Na Favela da Grota, os agentes ficaram a menos de cem metros de uma casamata que serviu de abrigo aos traficantes. Depois que pelo menos 200 traficantes fugiram da Vila Cruzeiro, na véspera, para o Alemão, a polícia calcula que pelo menos 500 bandidos estejam dentro do complexo. Um deles seria Fabiano Atanásio da Silva, o "FB", um dos chefes da facção criminosa Comando Vermelho (CV) na região.

Os criminosos provocaram os policiais aos gritos: "Vou meter bala!", berrou um deles. "É contigo mesmo!", respondeu o agente federal. Os bandidos ainda expunham e apontavam fuzis em direção a um grupo de fotógrafos que registravam as cenas na Avenida Itararé, via que cruza várias comunidades do Alemão, em desafio à investida militar. Quando viam que eram filmados, alguns bandidos debochavam da situação, colocando as armas para o alto e até simulando uma dança.

Ocorreram tiroteios nas favelas da Grota, Nova Brasília e Fazendinha. Antes de meio-dia, um major do 16º Batalhão da PM foi ferido levemente na cabeça, durante um confronto. Pela manhã, agentes da PF, além de militares e PMs, passaram a ocupar os acessos ao complexo e revistaram suspeitos, carros de passeio, Kombis e motos que saíam e entravam.

Algumas famílias deixaram as favelas carregando eletrodomésticos, com medo de confrontos. Após a chegada de 800 homens da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército para o cerco, ouviu-se outro intenso tiroteio, com mais de meia hora de duração. No confronto entre PMs e criminosos, até coronéis pegaram em armas para revidar os tiros.

Na Avenida Paranhos, em Ramos, nos arredores da Grota, Luiza de Moraes, de 61 anos, foi baleada na barriga, dentro de casa. Por causa do embate, a ambulância não conseguiu chegar para socorrer a vítima, que acabou levada num blindado da PM para o Hospital Getúlio Vargas. No início da noite, ela estava sendo operada. O traficante conhecido como "Mica", um dos gerentes do tráfico na Vila Cruzeiro, teria sido baleado.

Apesar de acostumados com tiroteios constantes e a presença de traficantes, os moradores do Alemão estavam bastante tensos ontem.

Durante toda a sexta-feira, helicópteros das polícias Civil e Militar sobrevoavam as 18 favelas do Alemão. Houve disparos de criminosos contra as aeronaves. Nos acessos, as revistas causavam constrangimento a moradores que deixavam o complexo com medo de possíveis confrontos. Mulheres e crianças choravam quando eram abordadas.

As equipes, fossem do Exército, fossem policiais, não estavam munidas de computadores para que as fichas criminais dos que passavam pudessem ser checadas. "Se tiver algum bandido desconhecido fugindo, não vamos poder prender. O que queremos fazer é impedir a saída dos líderes e armas", afirmou um oficial da PM.

A estratégia faz parte das chamadas "ações psicológicas. Queremos mostrar nossa força e deixá-los com medo. Quanto mais tempo eles ficarem encurralados lá dentro, temendo nossa entrada, é melhor. Isso os desestabiliza. Queremos fritar os seus neurônios", disse o mesmo oficial.

Dentro da favela, os bandidos se comunicavam via rádio e telefone. As conversas eram monitoradas por policiais dentro da base das operações montadas no batalhão próximo ao complexo.

Nos diálogos, traficantes planejavam fugas disfarçados em táxis e vans.

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