segunda, 16 de julho de 2018

economia

Classe C movimenta R$ 880 bilhões por ano no Brasil

2 JAN 2011Por estdão06h:44

O apartamento da Cohab em Cidade Tiradentes, bairro da periferia paulistana, tem pouco mais de 45 metros quadrados. É ali que o vendedor de produtos esportivos Fábio Oliveira Leite, de 31 anos, vive com a mulher e dois filhos pequenos. A sala, de tão apertada, lembra um corredor: há um metro de distância entre a estante com a TV de tubo e o sofá coberto por lençol surrado. No canto esquerdo, embaixo da janela, uma caixa atrapalha a passagem. É a TV de LCD, 40 polegadas, de R$ 2,6 mil, comprada há dois meses nas Casas Bahia. Ainda não foi instalada porque não coube na parede, pequena demais para o aparelho. "Não tem problema que vamos dar um jeito. Era um sonho nosso", diz Leite, rindo da situação.

 

Ele e a mulher, também vendedora numa loja de shopping, ganham menos de R$ 3 mil. É uma típica família da classe C que, como a maioria, não se importa de pagar mais caro para realizar um desejo ou se sentir satisfeito. "Carne, aqui em casa, só entra de primeira", afirma Leite.

Segundo levantamento da consultoria Data Popular, a nova classe média movimenta por ano, com salário, benefícios e crédito, R$ 881,2 bilhões, o dobro da classe B. "Em 2010, a classe C deixou de ser "mais um" mercado consumidor e passou a ser "o" mercado no Brasil", diz Renato Meirelles, diretor do Data Popular. "O curioso é que eles não querem ter o mesmo estilo de vida da elite. O modo de consumir é diferente."

A nova classe média, por exemplo, compra, proporcionalmente, menos produtos com desconto do que os mais ricos. Na classe A, 37% dos entrevistados consomem mercadorias com preço 10% inferior à média de mercado, enquanto na classe C esse porcentual é de 34%. "Eles querem do bom e do melhor", diz Marcelo Neri, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas. "Preferem marcas conhecidas e produtos de qualidade."

No Shopping Metrô Itaquera, localizado na zona leste de São Paulo e pensado para a nova classe média, as lojas Colombo e Marisa dividem espaço com as grifes M.Officer e Adidas. "Temos tênis de R$ 600 que vendem bem", diz Jonas Fortes, superintendente do shopping. "É o fenômeno do crédito."

Cerca de 60% dos cartões de crédito no Brasil estão nas mãos da classe C. O prazo médio de pagamento já chega a 540 dias. É com prestações a perder de vista que a classe C tem aproveitado para mobiliar a casa.

Entre 2002 e 2010, os gastos com eletrodomésticos, eletroeletrônicos, móveis e materiais de construção foram os que mais cresceram: passaram de 22,8% da renda da classe C para 32,18%. As despesas com alimentação caíram de 24,7% para 19,5%. "O que era sonho virou meta de consumo", diz Meirelles.

Com muito planejamento, a doméstica Lucicléia Batista da Silva, de 33 anos, está aos poucos reformando o apartamento, comprado no ano passado. Mudou cozinha, sala e na semana passada encomendou um guarda-roupa e uma cama box, por R$ 3 mil. Vai entrar 2011 pagando a nova aquisição.

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