Quinta, 22 de Fevereiro de 2018

VIDA DE CARTEIRO

Cartas pessoais resistem à tecnologia

25 JAN 2011Por EVELIN ARAUJO15h:29

Ao contrário do legendário carteiro e escritor, o beberrão Charles Bukowski, Walderson Xavier Rodrigues, 32 anos, é disciplinado e educado. Sempre com uma “nova história” em sua bolsa de correspondências, o carteiro que há sete anos trabalha nos Correios tirou cerca de uma hora de seu atribulado serviço para relatar ao Portal Correio do Estado, alguns dos casos que testemunhou. Na data de hoje, 55 mil profissionais de todo o País comemoram o 348º Dia do Carteiro com uma observação: ao contrário do que muitos pensam, as cartas pessoais não deram lugar aos e-mails. Elas ainda sobrevivem em poucos cantos do País e até mesmo fora dele.

Walderson atua no distrito postal que compreende o Bairro São Francisco há seis anos, local onde moram muitas famílias japonesas. Ele conta que, uma vez, uma carta retornou do Japão ao remetente. “Sempre que isso acontece a gente informa à pessoa da casa o motivo do retorno, mas nesse caso não tinha como”. No local onde a informação na carta estava apenas o que seria para ele um rabisco, mas na verdade era uma palavra japonesa. “Fiquei sem saber o que dizer”, lembra. A senhora que recebeu a carta identificou na hora o motivo. “Por questão de privacidade não perguntei qual era, até hoje não sei o que aconteceu”, ele brinca.
De muito bom humor o carteiro lembra: “Já fiz amizade com a maioria dos cachorros do bairro para não ser atacado”. Walderson, que acabou fazendo muitas amizades diz que muitos comentam o conteúdo das cartas. “Assim a gente vai se conhecendo”, diz Walderson. Ele trabalha oito horas por dia, geralmente entregando correspondências de manhã com a bicicleta e fazendo a separação e triagem das cartas à tarde. “Ainda hoje eu me assusto com alguns cachorros, mesmo conhecendo as casas”, diz.

Sem se importar com a distância e a demora que uma notícia de sua filha pode demorar a chegar da Espanha, uma mãe no Bairro São Francisco sempre espera por uma carta, ansiosa, no portão de casa. “Ela sempre está lá, esperando. A correspondência costuma chegar de tempos em tempos, mas sempre que eu passo ela pergunta se tem alguma da filha”, revela.

Há cinco anos casado, Walderson é tão querido pelas pessoas do bairro onde trabalha que já recebeu até presente para seu primeiro filho, que nasce no mês que vem. “Eu mesmo e minha esposa já ganhamos presente de Natal dessa senhora que tem a filha na Espanha”. 

Tímido, Walderson reluta, mas acaba revelando a situação mais inusitada que já passou na profissão, há cerca de um mês. “Certa vez fui entregar uma carta em um local que eu sei que funciona uma casa de … você sabe né … [garotas de programa]. Após fazer a entrega, uma mulher me ofereceu seus serviços. Eu só ri e fui embora”, ele disse. O que, provavelmente, não seria recusado pelo velho Bukowski, o carteiro escritor citado no início da matéria.

Leia Também